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Ilustração de abertura da história «Oficina dos Brinquedos».

24 de Dezembro

Oficina dos Brinquedos

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Começa num sótão de uma velha casa a história que vamos contar. De uma mala entreaberta sai uma vozinha queixosa:

- Está frio, hoje! A quantos estamos?

"Talvez em Dezembro", "Parece-me que em Novembro...", "Não sei se em Janeiro...", respondem várias vozes estremunhadas .

- O cuco do relógio sabe. Dêem-lhe corda que ele diz - lembra outra voz mais esperta.

Da mala entreaberta sai um ursinho cor de canela, mas um pouco descorado. Espreguiça-se, volta a espreguiçar-se e trepa custosamente a um escadote. Pendurado na parede e parado está o relógio de cuco, que já se não usa. O que se não usa está usado ou estragado, no sótão fica guardado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Não trabalho, mas faço contas de cabeça - diz de lá o cuco. - Se perco a conta ao tempo, nunca mais me acerto.

- Anda lá, despacha-te, e diz-nos a quantos estamos! - impacienta-se o ursinho de peluche.

- Neste momento são precisamente nove horas, treze minutos e vinte e cinco segundos... Cucu... cucu... cucu...

- O dia, o dia! - exigem várias vozes do rés-do-chão.

- ... do dia 24 de Dezembro de... Cucu... cucu... cucu...

- Véspera de Natal, imaginem - e uma boneca de cabelo emaranhado e saia traçada salta de uma gaveta a correr.

- Para onde vais tu com tanta pressa? - pergunta-lhe, do cimo do escadote, o ursinho cor de canela.

- Vou arranjar-me para a ceia. Estou atrasadíssima.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um palhaço amolgado aparece, a piscar os olhos, detrás de uma velha cómoda.

- Vai ver-te ao espelho, boneca tola! - diz-lhe ele.

- Detesto espelhos... - e a boneca põe-se a chorar.

De caixas, gavetas e arcas saem mais bonecos e brinquedos.

Soldadinhos de espingarda partida, cavalos sem orelhas, macacos de algodão com o algodão à mostra, burros de pasta ratada e até um carro de bombeiros, equilibrado em três rodas, acorrem ao choro da boneca.

- Há novidade? Há fogo, inundação, desastre? É preciso ajuda? - perguntam os bombeiros uns aos outros.

O palhaço amolgado tranquiliza-os:

- Nada disso. É ela que não se conforma e não acredita que já ninguém a quer. Quem precisa de uma boneca velha?

- Pois é. Já não prestamos para nada - comentam os outros bonecos.

Lentamente, esgaçados uns, esbarrigados outros, rachados uns quantos, regressam às gavetas, arcas, sacos e caixas... Estas conversas não adiantam. Mais vale dormir.

Mas o urso de peluche, que continua empoleirado no cimo do escadote, fala para a boneca, de forma a que os outros oiçam:

- Estou, daqui, a ver a máquina de costura antiga. No armário há vestidos pendurados, tão velhos como nós, mas alguns de bom tecido. Lembrei-me de que tu podias...

A boneca limpa as lágrimas e levanta os olhos para o ursinho:

- Que linda ideia!

Achas que posso?

Mais brinquedos oferecem os seus serviços.

- De caminho, podias consertar-me a barriga - pede o macaco de algodão. - Estou todo descosido.

- Também me dava jeito que me pregasses as orelhas... - lembra o cavalo de feltro.

De novo a voz do ursinho de peluche, do cimo do escadote:

- Do meu mirante também vejo latas de tinta, que os pintores, que andaram a arranjar a casa, aqui deixaram.

- Estamos mesmo precisados de fardas novas.

- E nós! E nós! - ecoam os bombeiros.

- Pregos, martelos e outras ferramentas não faltam, por aí espalhados - grita, cada vez mais alegre, o ursinho de peluche. - Mãos à obra, meus amigos!

Digamos já, para encurtar a história, que aquele sótão, há pouco triste e sonolento, se transformou numa animada oficina de brinquedos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- E agora? - perguntam os bonecos, com caras novas e vestidos floridos.

- Agora vamos descer pela chaminé - comanda o urso. - Já deve faltar pouco para a meia-noite. Que grande surpresa vai ser!

O pêlo do ursinho de peluche está eriçado de entusiasmo.

Na manhã seguinte:

- Alfredo, vem ver o que está na chaminé!

- Que é, Noémia? Caiu algum tijolo?

- Qual quê, homem! Anda ver. Caíram bonecos e brinquedos do telhado. Foi, com certeza, o Pai Natal.

- O Pai Natal? Na nossa idade?

O senhor Alfredo ficou embasbacado .

Imaginem dois amáveis velhinhos, o senhor Alfredo e a dona Noémia, únicos habitantes daquela casa, a olharem, sem acreditar, para as surpresas reluzentes que o Pai Natal lhes deixou na chaminé...

- Repara, mulher: aquela boneca não é parecida com a que demos à nossa filha? E aquele macaco? Naturalmente, caíram do sótão. O soalho deve ter dado de si... Vou lá acima ver.

- Deixa lá isso, agora!

Repara que estes brinquedos estão como novos. Parece que o tempo não passou por eles.

- Até é mal empregado que estejam lá em cima a estragar-se. E se fôssemos...? - sugere o senhor Alfredo.

- Vamos - responde a dona Noémia.

O senhor Alfredo e a dona Noémia entendem-se por meias palavras, mas nós, nas linhas desta história, temos de contar as palavras todas.

Saibam, pois, que graças aos dois simpáticos velhinhos, transformados, para o efeito, em ajudantes de Pai Natal, os brinquedos do sótão voltaram a conhecer as mãos macias dos meninos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Oficina dos Brinquedos
Ilustração original recuperada

Começa num sótão de uma velha casa a história que vamos contar. De uma mala entreaberta sai uma vozinha queixosa:

- Está frio, hoje! A quantos estamos?

"Talvez em Dezembro", "Parece-me que em Novembro...", "Não sei se em Janeiro...", respondem várias vozes estremunhadas .

- O cuco do relógio sabe. Dêem-lhe corda que ele diz - lembra outra voz mais esperta.

Da mala entreaberta sai um ursinho cor de canela, mas um pouco descorado. Espreguiça-se, volta a espreguiçar-se e trepa custosamente a um escadote. Pendurado na parede e parado está o relógio de cuco, que já se não usa. O que se não usa está usado ou estragado, no sótão fica guardado.

- Não trabalho, mas faço contas de cabeça - diz de lá o cuco. - Se perco a conta ao tempo, nunca mais me acerto.

- Anda lá, despacha-te, e diz-nos a quantos estamos! - impacienta-se o ursinho de peluche.

- Neste momento são precisamente nove horas, treze minutos e vinte e cinco segundos... Cucu... cucu... cucu...

- O dia, o dia! - exigem várias vozes do rés-do-chão.

- ... do dia 24 de Dezembro de... Cucu... cucu... cucu...

- Véspera de Natal, imaginem - e uma boneca de cabelo emaranhado e saia traçada salta de uma gaveta a correr.

- Para onde vais tu com tanta pressa? - pergunta-lhe, do cimo do escadote, o ursinho cor de canela.

- Vou arranjar-me para a ceia. Estou atrasadíssima.

Um palhaço amolgado aparece, a piscar os olhos, detrás de uma velha cómoda.

- Vai ver-te ao espelho, boneca tola! - diz-lhe ele.

- Detesto espelhos... - e a boneca põe-se a chorar.

De caixas, gavetas e arcas saem mais bonecos e brinquedos.

Soldadinhos de espingarda partida, cavalos sem orelhas, macacos de algodão com o algodão à mostra, burros de pasta ratada e até um carro de bombeiros, equilibrado em três rodas, acorrem ao choro da boneca.

- Há novidade? Há fogo, inundação, desastre? É preciso ajuda? - perguntam os bombeiros uns aos outros.

O palhaço amolgado tranquiliza-os:

- Nada disso. É ela que não se conforma e não acredita que já ninguém a quer. Quem precisa de uma boneca velha?

- Pois é. Já não prestamos para nada - comentam os outros bonecos.

Lentamente, esgaçados uns, esbarrigados outros, rachados uns quantos, regressam às gavetas, arcas, sacos e caixas... Estas conversas não adiantam. Mais vale dormir.

Mas o urso de peluche, que continua empoleirado no cimo do escadote, fala para a boneca, de forma a que os outros oiçam:

- Estou, daqui, a ver a máquina de costura antiga. No armário há vestidos pendurados, tão velhos como nós, mas alguns de bom tecido. Lembrei-me de que tu podias...

A boneca limpa as lágrimas e levanta os olhos para o ursinho:

- Que linda ideia!

Achas que posso?

Mais brinquedos oferecem os seus serviços.

- De caminho, podias consertar-me a barriga - pede o macaco de algodão. - Estou todo descosido.

- Também me dava jeito que me pregasses as orelhas... - lembra o cavalo de feltro.

De novo a voz do ursinho de peluche, do cimo do escadote:

- Do meu mirante também vejo latas de tinta, que os pintores, que andaram a arranjar a casa, aqui deixaram.

- Estamos mesmo precisados de fardas novas.

- E nós! E nós! - ecoam os bombeiros.

- Pregos, martelos e outras ferramentas não faltam, por aí espalhados - grita, cada vez mais alegre, o ursinho de peluche. - Mãos à obra, meus amigos!

Digamos já, para encurtar a história, que aquele sótão, há pouco triste e sonolento, se transformou numa animada oficina de brinquedos.

- E agora? - perguntam os bonecos, com caras novas e vestidos floridos.

- Agora vamos descer pela chaminé - comanda o urso. - Já deve faltar pouco para a meia-noite. Que grande surpresa vai ser!

O pêlo do ursinho de peluche está eriçado de entusiasmo.

Na manhã seguinte:

- Alfredo, vem ver o que está na chaminé!

- Que é, Noémia? Caiu algum tijolo?

- Qual quê, homem! Anda ver. Caíram bonecos e brinquedos do telhado. Foi, com certeza, o Pai Natal.

- O Pai Natal? Na nossa idade?

O senhor Alfredo ficou embasbacado .

Imaginem dois amáveis velhinhos, o senhor Alfredo e a dona Noémia, únicos habitantes daquela casa, a olharem, sem acreditar, para as surpresas reluzentes que o Pai Natal lhes deixou na chaminé...

- Repara, mulher: aquela boneca não é parecida com a que demos à nossa filha? E aquele macaco? Naturalmente, caíram do sótão. O soalho deve ter dado de si... Vou lá acima ver.

- Deixa lá isso, agora!

Repara que estes brinquedos estão como novos. Parece que o tempo não passou por eles.

- Até é mal empregado que estejam lá em cima a estragar-se. E se fôssemos...? - sugere o senhor Alfredo.

- Vamos - responde a dona Noémia.

O senhor Alfredo e a dona Noémia entendem-se por meias palavras, mas nós, nas linhas desta história, temos de contar as palavras todas.

Saibam, pois, que graças aos dois simpáticos velhinhos, transformados, para o efeito, em ajudantes de Pai Natal, os brinquedos do sótão voltaram a conhecer as mãos macias dos meninos.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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