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| Oficina dos Brinquedos António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Começa num sótão de uma velha casa a história que vamos contar. De uma mala entreaberta sai uma vozinha queixosa:
- Está frio, hoje! A quantos estamos?
"Talvez em Dezembro", "Parece-me que em Novembro...", "Não sei se em Janeiro...", respondem várias vozes estremunhadas. | |
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| - O cuco do relógio sabe. Dêem-lhe corda que ele diz - lembra outra voz mais esperta.
Da mala entreaberta sai um ursinho cor de canela, mas um pouco descorado. Espreguiça-se, volta a espreguiçar-se e trepa custosamente a um escadote. Pendurado na parede e parado está o relógio de cuco, que já se não usa. O que se não usa está usado ou estragado, no sótão fica guardado. | |
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| - Não trabalho, mas faço contas de cabeça - diz de lá o cuco. - Se perco a conta ao tempo, nunca mais me acerto.
- Anda lá, despacha-te, e diz-nos a quantos estamos! - impacienta-se o ursinho de peluche.
- Neste momento são precisamente nove horas, treze minutos e vinte e cinco segundos... Cucu... cucu... cucu...
- O dia, o dia! - exigem várias vozes do rés-do-chão. | |
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| - ... do dia 24 de Dezembro de... Cucu... cucu... cucu...
- Véspera de Natal, imaginem - e uma boneca de cabelo emaranhado e saia traçada salta de uma gaveta a correr.
- Para onde vais tu com tanta pressa? - pergunta-lhe, do cimo do escadote, o ursinho cor de canela.
- Vou arranjar-me para a ceia. Estou atrasadíssima. | |
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| Um palhaço amolgado aparece, a piscar os olhos, detrás de uma velha cómoda.
- Vai ver-te ao espelho, boneca tola! - diz-lhe ele.
- Detesto espelhos... - e a boneca põe-se a chorar.
De caixas, gavetas e arcas saem mais bonecos e brinquedos. | |
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| Soldadinhos de espingarda partida, cavalos sem orelhas, macacos de algodão com o algodão à mostra, burros de pasta ratada e até um carro de bombeiros, equilibrado em três rodas, acorrem ao choro da boneca.
- Há novidade? Há fogo, inundação, desastre? É preciso ajuda? - perguntam os bombeiros uns aos outros. | |
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| O palhaço amolgado tranquiliza-os:
- Nada disso. É ela que não se conforma e não acredita que já ninguém a quer. Quem precisa de uma boneca velha?
- Pois é. Já não prestamos para nada - comentam os outros bonecos. | |
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| Lentamente, esgaçados uns, esbarrigados outros, rachados uns quantos, regressam às gavetas, arcas, sacos e caixas... Estas conversas não adiantam. Mais vale dormir. | |
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| Mas o urso de peluche, que continua empoleirado no cimo do escadote, fala para a boneca, de forma a que os outros oiçam:
- Estou, daqui, a ver a máquina de costura antiga. No armário há vestidos pendurados, tão velhos como nós, mas alguns de bom tecido. Lembrei-me de que tu podias...
A boneca limpa as lágrimas e levanta os olhos para o ursinho:
- Que linda ideia! | |
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| Achas que posso?
Mais brinquedos oferecem os seus serviços.
- De caminho, podias consertar-me a barriga - pede o macaco de algodão. - Estou todo descosido.
- Também me dava jeito que me pregasses as orelhas... - lembra o cavalo de feltro. | |
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| De novo a voz do ursinho de peluche, do cimo do escadote:
- Do meu mirante também vejo latas de tinta, que os pintores, que andaram a arranjar a casa, aqui deixaram.
- Estamos mesmo precisados de fardas novas.
- E nós! E nós! - ecoam os bombeiros. | |
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| - Pregos, martelos e outras ferramentas não faltam, por aí espalhados - grita, cada vez mais alegre, o ursinho de peluche. - Mãos à obra, meus amigos!
Digamos já, para encurtar a história, que aquele sótão, há pouco triste e sonolento, se transformou numa animada oficina de brinquedos. | |
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| - E agora? - perguntam os bonecos, com caras novas e vestidos floridos.
- Agora vamos descer pela chaminé - comanda o urso. - Já deve faltar pouco para a meia-noite. Que grande surpresa vai ser!
O pêlo do ursinho de peluche está eriçado de entusiasmo.
Na manhã seguinte:
- Alfredo, vem ver o que está na chaminé! | |
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| - Que é, Noémia? Caiu algum tijolo?
- Qual quê, homem! Anda ver. Caíram bonecos e brinquedos do telhado. Foi, com certeza, o Pai Natal.
- O Pai Natal? Na nossa idade?
O senhor Alfredo ficou embasbacado. | |
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| Imaginem dois amáveis velhinhos, o senhor Alfredo e a dona Noémia, únicos habitantes daquela casa, a olharem, sem acreditar, para as surpresas reluzentes que o Pai Natal lhes deixou na chaminé...
- Repara, mulher: aquela boneca não é parecida com a que demos à nossa filha? E aquele macaco? Naturalmente, caíram do sótão. O soalho deve ter dado de si... Vou lá acima ver.
- Deixa lá isso, agora! | |
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| Repara que estes brinquedos estão como novos. Parece que o tempo não passou por eles.
- Até é mal empregado que estejam lá em cima a estragar-se. E se fôssemos...? - sugere o senhor Alfredo.
- Vamos - responde a dona Noémia. | |
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| O senhor Alfredo e a dona Noémia entendem-se por meias palavras, mas nós, nas linhas desta história, temos de contar as palavras todas. | |
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| Saibam, pois, que graças aos dois simpáticos velhinhos, transformados, para o efeito, em ajudantes de Pai Natal, os brinquedos do sótão voltaram a conhecer as mãos macias dos meninos. | |
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