• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «Duas Mulheres».

8 de Dezembro

Duas Mulheres

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez duas mulheres. Uma tinha muitos filhos. A outra não tinha nenhum.

Um dia, a que não tinha filhos convidou a outra para ir lá a casa.

Mas que viesse só. Sim, sobretudo que viesse só, sem a ranchada de filhos atrás, porque ela, sim, tomasse nota, porque ela não gostava de crianças.

– Ui, são insuportáveis! – dizia. – Desarrumam tudo, sujam tudo, estragam tudo. Eu nunca quis ser mãe porque me falta paciência para aturar gaiatos.

A casa dela estava recheada de coisas e coisinhas, todas muito bem colocadas em prateleiras e prateleirinhas. Era uma casa cheia e muito asseada, por onde se andava com muita cautela, quase em bicos de pés, para que as prateleiras não estremecessem e as coisa e coisinhas não se sobressaltassem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A mulher que tinha muitos filhos mirou tudo o que a dona da casa sem crianças lhe quis mostrar. Não só o que estava à vista, mas também as gavetas e arcas atulhadas de rendas, lençóis, toalhas, e os armários carregados de vestidos, blusas, casacos, que a mulher sem filhos gostava de exibir às visitas.

– Tivesse eu filharada e não podia ser tão rica – dizia ou parecia dizer a mulher sem filhos.

Tempos depois, foi a vez de a mulher com muitos filhos convidar a outra para ir lá a casa. Que algazarra! Miudagem por todo o lado.

Muito atordoada, no meio das crianças, a mulher sem filhos olhava para o desalinho da casa, a pobreza dos móveis, a fraqueza da despensa. Pois sim. Ela é que estava na razão, ela é que tinha juízo, por nunca ter querido ter filhos.

Chegou a altura de tomarem chá.

– Mariana, faz-me um favor e põe a água ao lume para o chá – pediu a mãe à filha mais velha.

– Não temos chá – disse a filha Mariana.

– Então, ó Carlos, vai ali à loja do Senhor Augusto e compra uma lata de chá, das pequenas – pediu a mãe a um dos irmãos da Mariana.

Quando, já de chávenas na mão, deram pela falta do açúcar, a mãe pediu:

– Rosa, pega no açucareiro e vai a casa da vizinha Adriana pôr uns torrõezinhos – pediu a mãe. – Mas, depois, não os comas pelo caminho...

Toda a miudagem se riu. Era uma casa muito alegre.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Depois do chá, a filha Noémia pôs-se a pentear a mãe, que era uma maneira de fazer-lhe festas. Com o Toninho ao colo, o mais novo do rancho, a mulher que tinha muitos filhos conversava despreocupadamente com a mulher que não tinha filhos.

– Eles são a minha riqueza – contava ela, sorrindo e fazendo um grande gesto em roda.

A mulher sem filhos compreendeu e até talvez sentisse, lá no íntimo (que é o sítio onde se guarda o coração...) e reconsiderasse, finalmente, que a mulher com filhos era muito mais rica do que ela.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Duas Mulheres
Ilustração original recuperada

Era uma vez duas mulheres. Uma tinha muitos filhos. A outra não tinha nenhum.

Um dia, a que não tinha filhos convidou a outra para ir lá a casa.

Mas que viesse só. Sim, sobretudo que viesse só, sem a ranchada de filhos atrás, porque ela, sim, tomasse nota, porque ela não gostava de crianças.

– Ui, são insuportáveis! – dizia. – Desarrumam tudo, sujam tudo, estragam tudo. Eu nunca quis ser mãe porque me falta paciência para aturar gaiatos.

A casa dela estava recheada de coisas e coisinhas, todas muito bem colocadas em prateleiras e prateleirinhas. Era uma casa cheia e muito asseada, por onde se andava com muita cautela, quase em bicos de pés, para que as prateleiras não estremecessem e as coisa e coisinhas não se sobressaltassem.

A mulher que tinha muitos filhos mirou tudo o que a dona da casa sem crianças lhe quis mostrar. Não só o que estava à vista, mas também as gavetas e arcas atulhadas de rendas, lençóis, toalhas, e os armários carregados de vestidos, blusas, casacos, que a mulher sem filhos gostava de exibir às visitas.

– Tivesse eu filharada e não podia ser tão rica – dizia ou parecia dizer a mulher sem filhos.

Tempos depois, foi a vez de a mulher com muitos filhos convidar a outra para ir lá a casa. Que algazarra! Miudagem por todo o lado.

Muito atordoada, no meio das crianças, a mulher sem filhos olhava para o desalinho da casa, a pobreza dos móveis, a fraqueza da despensa. Pois sim. Ela é que estava na razão, ela é que tinha juízo, por nunca ter querido ter filhos.

Chegou a altura de tomarem chá.

– Mariana, faz-me um favor e põe a água ao lume para o chá – pediu a mãe à filha mais velha.

– Não temos chá – disse a filha Mariana.

– Então, ó Carlos, vai ali à loja do Senhor Augusto e compra uma lata de chá, das pequenas – pediu a mãe a um dos irmãos da Mariana.

Quando, já de chávenas na mão, deram pela falta do açúcar, a mãe pediu:

– Rosa, pega no açucareiro e vai a casa da vizinha Adriana pôr uns torrõezinhos – pediu a mãe. – Mas, depois, não os comas pelo caminho...

Toda a miudagem se riu. Era uma casa muito alegre.

Depois do chá, a filha Noémia pôs-se a pentear a mãe, que era uma maneira de fazer-lhe festas. Com o Toninho ao colo, o mais novo do rancho, a mulher que tinha muitos filhos conversava despreocupadamente com a mulher que não tinha filhos.

– Eles são a minha riqueza – contava ela, sorrindo e fazendo um grande gesto em roda.

A mulher sem filhos compreendeu e até talvez sentisse, lá no íntimo (que é o sítio onde se guarda o coração...) e reconsiderasse, finalmente, que a mulher com filhos era muito mais rica do que ela.

FIM

Ouvir

Áudio original recuperado de segmentos Flash e convertido para formato moderno.

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto foi recuperado do PDF original arquivado através da sua camada de texto. A narração é o áudio original, recuperado do ficheiro Flash (dois.swf) preservado pelo Arquivo.pt (captura de 2007-07-24) e convertido para MP3.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Abrir PDF recuperado