• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «História de 23 de Outubro».

23 de Outubro

História de 23 de Outubro

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Este tambor, mal nasceu, foi logo para o serviço militar.

Acabar de ser feito, de pele nova e madeira pintada de fresco, e, logo de seguida, assentar praça, à frente dos recrutas, não é destino que se inveje.

À frente dos recrutas e a comandá-los:

– Esquerdo, direito, um, dois… Esquerdo, direito, um, dois… Toca a marchar, seus bimbos, sempre à voz do tambor - gritava o sargento para os atarantados taratas.

Também eles tinham acabado de chegar ao quartel. Vinham do campo, vinham das oficinas, vinham das praias de pescadores, e desde que se sabiam gente que se equilibravam nas duas pernas, uma à frente da outra, a andar ou a correr. Mas marchar, às ordens de um tambor, custava mais.

– Acertem o passo pelo tambor, seus azelhas – gritava o sargento. – Esquerdo, direito, um, dois… Esquerdo, direito, um, dois…

O tambor comandava o melhor que podia. Sempre certinho, que uma só desafinação e ai que se desmanchava um batalhão inteiro.

– Com mais genica, seu tambor – gritava o sargento.

E o tambor-mor dava-lhe com força:

– Rataplã-plã-plã! Rataplã-plã-plã!

O sargento ameaçava:

– Quando chegarmos à guerra, sempre quero ver como é que se portam!

Aquilo não era a brincar. Estavam a preparar soldados para coisa mais séria. Uma guerra de verdade.

O tambor também foi chamado. Era um tempo em que os exercícios avançavam para o campo de batalha ao som dos tambores. Na mais infernal mistura de ruídos, toques de cornetim, troar de canhões, silvar de balas, gritos e gemidos, o bater compassado dos tambores nunca abandonava os combatentes.

Os soldados marchavam em linha, de armas apontadas. À frente deles, o tambor, marcando o passo do avanço.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Podiam os generais ficar lá atrás, a ver a batalha por um binóculo. Quem comandava as tropas era o tambor.

O que ele sentia, as desgraças que via, não conseguia descrevê-las. Pois se a única coisa que ele tinha aprendido a dizer era:

– Rataplã-plã-plã! Rataplã-plã-plã!

Até que, um dia, calou-se. Houve tréguas. Combinou-se a paz.

Calou-se ele e calaram-se os canhões. Até que enfim.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Até que enfim ia descansar. Soldado toda a vida, com tanta responsabilidade em cima, também cansa. Merecia sossegar. Merecia o silêncio. Merecia a sua paz.

Mas não o deixaram.

Os que tinham sobrevivido aos horrores da guerra juntaram-se em marcha de alegria pelas ruas, cheias de gente, que os aclamavam e lhe lançavam flores.

Voltaram a troar os canhões, mas agora só com pólvora seca. Os sinos badalaram em todas as terras.

À frente da marcha, o tambor descobria uma maneira nova de dizer que aquele era o dia mais feliz da sua vida:

– Rataplã-rataplã-rataplã! Plã-rataplã! Plã-rataplã!... Rataplã-rataplã-rataplã! Plã-rataplã! Plã-rataplã!... Rataplã- rataplã-rataplã!

E nunca mais quis tocar outra música.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original recuperada para História de 23 de Outubro
Ilustração original recuperada

Este tambor, mal nasceu, foi logo para o serviço militar.

Acabar de ser feito, de pele nova e madeira pintada de fresco, e, logo de seguida, assentar praça, à frente dos recrutas, não é destino que se inveje.

À frente dos recrutas e a comandá-los:

– Esquerdo, direito, um, dois… Esquerdo, direito, um, dois… Toca a marchar, seus bimbos, sempre à voz do tambor - gritava o sargento para os atarantados taratas.

Também eles tinham acabado de chegar ao quartel. Vinham do campo, vinham das oficinas, vinham das praias de pescadores, e desde que se sabiam gente que se equilibravam nas duas pernas, uma à frente da outra, a andar ou a correr. Mas marchar, às ordens de um tambor, custava mais.

– Acertem o passo pelo tambor, seus azelhas – gritava o sargento. – Esquerdo, direito, um, dois… Esquerdo, direito, um, dois…

O tambor comandava o melhor que podia. Sempre certinho, que uma só desafinação e ai que se desmanchava um batalhão inteiro.

– Com mais genica, seu tambor – gritava o sargento.

E o tambor-mor dava-lhe com força:

– Rataplã-plã-plã! Rataplã-plã-plã!

O sargento ameaçava:

– Quando chegarmos à guerra, sempre quero ver como é que se portam!

Aquilo não era a brincar. Estavam a preparar soldados para coisa mais séria. Uma guerra de verdade.

O tambor também foi chamado. Era um tempo em que os exercícios avançavam para o campo de batalha ao som dos tambores. Na mais infernal mistura de ruídos, toques de cornetim, troar de canhões, silvar de balas, gritos e gemidos, o bater compassado dos tambores nunca abandonava os combatentes.

Os soldados marchavam em linha, de armas apontadas. À frente deles, o tambor, marcando o passo do avanço.

Podiam os generais ficar lá atrás, a ver a batalha por um binóculo. Quem comandava as tropas era o tambor.

O que ele sentia, as desgraças que via, não conseguia descrevê-las. Pois se a única coisa que ele tinha aprendido a dizer era:

– Rataplã-plã-plã! Rataplã-plã-plã!

Até que, um dia, calou-se. Houve tréguas. Combinou-se a paz.

Calou-se ele e calaram-se os canhões. Até que enfim.

Até que enfim ia descansar. Soldado toda a vida, com tanta responsabilidade em cima, também cansa. Merecia sossegar. Merecia o silêncio. Merecia a sua paz.

Mas não o deixaram.

Os que tinham sobrevivido aos horrores da guerra juntaram-se em marcha de alegria pelas ruas, cheias de gente, que os aclamavam e lhe lançavam flores.

Voltaram a troar os canhões, mas agora só com pólvora seca. Os sinos badalaram em todas as terras.

À frente da marcha, o tambor descobria uma maneira nova de dizer que aquele era o dia mais feliz da sua vida:

– Rataplã-rataplã-rataplã! Plã-rataplã! Plã-rataplã!... Rataplã-rataplã-rataplã! Plã-rataplã! Plã-rataplã!... Rataplã- rataplã-rataplã!

E nunca mais quis tocar outra música.

FIM

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto foi recuperado do PDF original arquivado através da sua camada de texto. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Pendente
PDF original
Abrir PDF recuperado