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Ilustração de abertura da história «De mal a menos».

4 de Setembro

De mal a menos

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Conta-se que havia um príncipe que era muito ruim. Irmão do rei e sempre destinado a príncipe toda a vida, terá sofrido sempre dessa comichão na alma, a que se chama inveja. Também queria reinar, mas nunca reinou. Bem feito!

Mesmo assim, mandava o que podia. E mandava mal. O povo, já se vê, não engraçava com ele.

Temia-o muito, mas não o amava nem um bocadinho. Mais uma vez, bem feito!

De uma ocasião em que o príncipe foi visitar com a sua comitiva um povoado, as gentes da terra, por cortesia, quiseram oferecer-lhe uma lembrança. Mas o quê?

Riquezas não tinham, que a terra era pobre e para mais acabara de passar por um longo período de seca, que estragara as colheitas.

- Dá-se-lhe um saco de pinhas - alvitrou alguém. - Se o príncipe gostar de pinhões, há-de agradecer.

- E se não gostar, zanga-se - acrescentou outro.

- Talvez seja mais acertado oferecer-lhe um cesto de melões, dos poucos sãos que restaram da seca.

- É um grande risco. Podem não ser doces - considerou um dos homens da terra. - Cá por mim dava-lhe uma travessa de figos. Os da minha figueira nunca me deixaram ficar mal.

Todos acabaram por concordar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O príncipe chegou, muito emproado, e uma deputação dos camponeses da aldeia, chefiada pelo dono da figueira, veio recebê-lo no largo, singelamente enfeitado para a cerimónia.

Depois de proferidas umas palavras de boas-vindas, onde também se referia o esgotamento das águas, que empobrecera os campos, o dono da figueira entregou o presente ao príncipe, avisando-o que pouco era, mas dado com boa vontade.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O príncipe destapou a travessa, onde vinham os figos, aninhados numa cama de folhas de parra, e indignou-se:

- Figos? Um príncipe da minha estirpe não merece nada mais do que um monte de figos maduros? Isto é uma vergonha. Uma infâmia!

E o príncipe, possuído por uma grande cólera, mandou amarrar o camponês, que o presenteara, ao pelourinho do largo.

- Agora, guardas, atirem-lhe com os figos, sem escapar um.

Os guardas obedeceram. Cumprida a tarefa, a principesca comitiva abandonou a aldeia, sem um gesto de despedida.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Aquele príncipe era de força. Mau como as cobras. E malcriado.

Os companheiros do camponês apressaram-se a desamarrá-lo, muito revoltados e condoídos. É que ele metia dó. Da cabeça aos pés, estava todo lambuzado da polpa dos figos que lhe tinham lançado. Pareciam feridas, mas não eram.

- Magoaram-te? - perguntavam-lhe os amigos.

O camponês, que era dotado de muito bom humor, só ria, enquanto chupava dos dedos uns restos de figos. Cada gargalhada...

- Então, fizeram-te esta malvadez e tu ris-te? - estranhavam, à volta.

Quando o dono da figueira conseguiu suster o riso, explicou:

- Estou muito feliz, apesar de tudo. Calculem vocês se, em vez dos figos, lhe tínhamos oferecido as pinhas ou os melões?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para De mal a menos
Ilustração original recuperada

Conta-se que havia um príncipe que era muito ruim. Irmão do rei e sempre destinado a príncipe toda a vida, terá sofrido sempre dessa comichão na alma, a que se chama inveja. Também queria reinar, mas nunca reinou. Bem feito!

Mesmo assim, mandava o que podia. E mandava mal. O povo, já se vê, não engraçava com ele.

Temia-o muito, mas não o amava nem um bocadinho. Mais uma vez, bem feito!

De uma ocasião em que o príncipe foi visitar com a sua comitiva um povoado, as gentes da terra, por cortesia, quiseram oferecer-lhe uma lembrança. Mas o quê?

Riquezas não tinham, que a terra era pobre e para mais acabara de passar por um longo período de seca, que estragara as colheitas.

- Dá-se-lhe um saco de pinhas - alvitrou alguém. - Se o príncipe gostar de pinhões, há-de agradecer.

- E se não gostar, zanga-se - acrescentou outro.

- Talvez seja mais acertado oferecer-lhe um cesto de melões, dos poucos sãos que restaram da seca.

- É um grande risco. Podem não ser doces - considerou um dos homens da terra. - Cá por mim dava-lhe uma travessa de figos. Os da minha figueira nunca me deixaram ficar mal.

Todos acabaram por concordar.

O príncipe chegou, muito emproado, e uma deputação dos camponeses da aldeia, chefiada pelo dono da figueira, veio recebê-lo no largo, singelamente enfeitado para a cerimónia.

Depois de proferidas umas palavras de boas-vindas, onde também se referia o esgotamento das águas, que empobrecera os campos, o dono da figueira entregou o presente ao príncipe, avisando-o que pouco era, mas dado com boa vontade.

O príncipe destapou a travessa, onde vinham os figos, aninhados numa cama de folhas de parra, e indignou-se:

- Figos? Um príncipe da minha estirpe não merece nada mais do que um monte de figos maduros? Isto é uma vergonha. Uma infâmia!

E o príncipe, possuído por uma grande cólera, mandou amarrar o camponês, que o presenteara, ao pelourinho do largo.

- Agora, guardas, atirem-lhe com os figos, sem escapar um.

Os guardas obedeceram. Cumprida a tarefa, a principesca comitiva abandonou a aldeia, sem um gesto de despedida.

Aquele príncipe era de força. Mau como as cobras. E malcriado.

Os companheiros do camponês apressaram-se a desamarrá-lo, muito revoltados e condoídos. É que ele metia dó. Da cabeça aos pés, estava todo lambuzado da polpa dos figos que lhe tinham lançado. Pareciam feridas, mas não eram.

- Magoaram-te? - perguntavam-lhe os amigos.

O camponês, que era dotado de muito bom humor, só ria, enquanto chupava dos dedos uns restos de figos. Cada gargalhada...

- Então, fizeram-te esta malvadez e tu ris-te? - estranhavam, à volta.

Quando o dono da figueira conseguiu suster o riso, explicou:

- Estou muito feliz, apesar de tudo. Calculem vocês se, em vez dos figos, lhe tínhamos oferecido as pinhas ou os melões?

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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