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| De mal a menos António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Conta-se que havia um príncipe que era muito ruim. Irmão do rei e sempre destinado a príncipe toda a vida, terá sofrido sempre dessa comichão na alma, a que se chama inveja. Também queria reinar, mas nunca reinou. Bem feito!
Mesmo assim, mandava o que podia. E mandava mal. O povo, já se vê, não engraçava com ele. | |
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| Temia-o muito, mas não o amava nem um bocadinho. Mais uma vez, bem feito!
De uma ocasião em que o príncipe foi visitar com a sua comitiva um povoado, as gentes da terra, por cortesia, quiseram oferecer-lhe uma lembrança. Mas o quê? | |
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| Riquezas não tinham, que a terra era pobre e para mais acabara de passar por um longo período de seca, que estragara as colheitas.
- Dá-se-lhe um saco de pinhas - alvitrou alguém. - Se o príncipe gostar de pinhões, há-de agradecer.
- E se não gostar, zanga-se - acrescentou outro. | |
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| - Talvez seja mais acertado oferecer-lhe um cesto de melões, dos poucos sãos que restaram da seca.
- É um grande risco. Podem não ser doces - considerou um dos homens da terra. - Cá por mim dava-lhe uma travessa de figos. Os da minha figueira nunca me deixaram ficar mal.
Todos acabaram por concordar. | |
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| O príncipe chegou, muito emproado, e uma deputação dos camponeses da aldeia, chefiada pelo dono da figueira, veio recebê-lo no largo, singelamente enfeitado para a cerimónia. | |
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| Depois de proferidas umas palavras de boas-vindas, onde também se referia o esgotamento das águas, que empobrecera os campos, o dono da figueira entregou o presente ao príncipe, avisando-o que pouco era, mas dado com boa vontade. | |
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| O príncipe destapou a travessa, onde vinham os figos, aninhados numa cama de folhas de parra, e indignou-se:
- Figos? Um príncipe da minha estirpe não merece nada mais do que um monte de figos maduros? Isto é uma vergonha. Uma infâmia! | |
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| E o príncipe, possuído por uma grande cólera, mandou amarrar o camponês, que o presenteara, ao pelourinho do largo.
- Agora, guardas, atirem-lhe com os figos, sem escapar um.
Os guardas obedeceram. Cumprida a tarefa, a principesca comitiva abandonou a aldeia, sem um gesto de despedida. | |
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| Aquele príncipe era de força. Mau como as cobras. E malcriado.
Os companheiros do camponês apressaram-se a desamarrá-lo, muito revoltados e condoídos. É que ele metia dó. Da cabeça aos pés, estava todo lambuzado da polpa dos figos que lhe tinham lançado. Pareciam feridas, mas não eram.
- Magoaram-te? - perguntavam-lhe os amigos. | |
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| O camponês, que era dotado de muito bom humor, só ria, enquanto chupava dos dedos uns restos de figos. Cada gargalhada...
- Então, fizeram-te esta malvadez e tu ris-te? - estranhavam, à volta. | |
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| Quando o dono da figueira conseguiu suster o riso, explicou:
- Estou muito feliz, apesar de tudo. Calculem vocês se, em vez dos figos, lhe tínhamos oferecido as pinhas ou os melões?
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