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Ilustração de abertura da história «Zé pequeno».

2 de Setembro

Zé pequeno

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O rapaz era o Zé Pequeno. Um besnico. Bem proporcionado de corpo, tudo nos conformes, nenhum defeito, algumas qualidades, gentil, formoso, mas em ponto pequeno.

Claro que queria crescer. Na idade dele todos querem.

Dois aldrabões de feira, desses que andam de terra em terra a vigarizar ingénuos, souberam da vontade do moço e prometeram que o acrescentavam. Desse-lhes ele em troca o vitelo que, à conta do pai, trazia para vender.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Acertado o negócio, os aldrabilhas taparam os olhos ao Zé Pequeno e pôs-se um a puxá-lo pelos ombros e o outro pelos pés. Entretanto, iam dando estalos com a língua, a fazer de conta que eram os ossos do rapaz a dar de si.

No fim da operação, rebentaram com o chapéu de abas largas do Zé Pequeno e enfiaram-lho até ao pescoço.

- Repare que, dantes, nos dava pela cintura e agora está mais alto do que nós - dizia-lhe um dos vigaristas, agachado, a fazer de conta.

- Por enquanto, não olhe para baixo que sente vertigens - dizia o outro, de joelhos.

Foram-se embora com o vitelo, a rirem-se.

O rapazinho andou pela feira com a aba do chapéu enfiada até ao pescoço, que parecia um babete ou uma gola de fazer rir.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

À volta dele, riam-se, mas Zé Pequeno, muito empertigado, não dava troco. Até que percebeu, afinal, que continuava da mesma altura.

Correu, desesperadamente, atrás dos aldrabófonos. Pois sim. Onde é que eles já iam....

Mas não desistiu.

Meteu por uns atalhos, correu que nem um danado e foi ter a uma curva da estrada, por onde haviam passado os finórios. Quando os viu, escondeu-se e, fazendo voz grossa pelo meio de uma cabaça, como se fosse altifalante, vociferou:

- Parem, em nome da lei.

Eu, sargento Viçoso, sargento da Guarda Republicana, intimo-os a largarem o vitelo, senão disparo.

Eles, que tinham a consciência pesada, aterrorizaram-se, de mãos no ar, a tremer. Então o Zé Pequeno acertou uma pedrada num, acertou uma pedrada no outro e fê-los provar o pó da estrada.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Com os dois homens desmaiados, estendidos à sua mercê, o rapaz era o mais alto. Recuperou o vitelo e voltou para a feira.

Feliz com o seu sucesso, sentia-se, subitamente, mais crescido. E até talvez estivesse. Era mesmo muito natural que, depois daquela aventura, tivesse dado um grande pulo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Zé pequeno
Ilustração original recuperada

O rapaz era o Zé Pequeno. Um besnico. Bem proporcionado de corpo, tudo nos conformes, nenhum defeito, algumas qualidades, gentil, formoso, mas em ponto pequeno.

Claro que queria crescer. Na idade dele todos querem.

Dois aldrabões de feira, desses que andam de terra em terra a vigarizar ingénuos, souberam da vontade do moço e prometeram que o acrescentavam. Desse-lhes ele em troca o vitelo que, à conta do pai, trazia para vender.

Acertado o negócio, os aldrabilhas taparam os olhos ao Zé Pequeno e pôs-se um a puxá-lo pelos ombros e o outro pelos pés. Entretanto, iam dando estalos com a língua, a fazer de conta que eram os ossos do rapaz a dar de si.

No fim da operação, rebentaram com o chapéu de abas largas do Zé Pequeno e enfiaram-lho até ao pescoço.

- Repare que, dantes, nos dava pela cintura e agora está mais alto do que nós - dizia-lhe um dos vigaristas, agachado, a fazer de conta.

- Por enquanto, não olhe para baixo que sente vertigens - dizia o outro, de joelhos.

Foram-se embora com o vitelo, a rirem-se.

O rapazinho andou pela feira com a aba do chapéu enfiada até ao pescoço, que parecia um babete ou uma gola de fazer rir.

À volta dele, riam-se, mas Zé Pequeno, muito empertigado, não dava troco. Até que percebeu, afinal, que continuava da mesma altura.

Correu, desesperadamente, atrás dos aldrabófonos. Pois sim. Onde é que eles já iam....

Mas não desistiu.

Meteu por uns atalhos, correu que nem um danado e foi ter a uma curva da estrada, por onde haviam passado os finórios. Quando os viu, escondeu-se e, fazendo voz grossa pelo meio de uma cabaça, como se fosse altifalante, vociferou:

- Parem, em nome da lei.

Eu, sargento Viçoso, sargento da Guarda Republicana, intimo-os a largarem o vitelo, senão disparo.

Eles, que tinham a consciência pesada, aterrorizaram-se, de mãos no ar, a tremer. Então o Zé Pequeno acertou uma pedrada num, acertou uma pedrada no outro e fê-los provar o pó da estrada.

Com os dois homens desmaiados, estendidos à sua mercê, o rapaz era o mais alto. Recuperou o vitelo e voltou para a feira.

Feliz com o seu sucesso, sentia-se, subitamente, mais crescido. E até talvez estivesse. Era mesmo muito natural que, depois daquela aventura, tivesse dado um grande pulo.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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