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Ilustração de abertura da história «O pardal já sabe ler».

22 de Julho

O pardal já sabe ler

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Quem fala sempre, do princípio ao fim, é o pardal Arisco, arisco de nome, mas atrevido como poucos:

Andava eu na minha vida, a petiscar o almoço, quando vi, aberto no meio da relva, um livro de folhas amarelas, como se lhe tivesse dado o Outono antes de tempo.

Não é fácil encontrar um livro no campo. Talvez seja por isso que eu não sei ler. Aqueles sinais gordos e finos, muito retorcidos, de que os livros estão cheios, a mim parecem-me minhocas, mas não enchem a barriga. Está visto que sou um pardal muito ignorante.

No tal livro, havia minhocas ou...

letras (acho que é assim que o Mocho Sábio lhes chama) e, de espaço a espaço, havia bonecos. Disso percebo eu. Basta ver.

Que lindeza de bonecos! Vi, num deles, uma porca a ensinar os filhos a comer. Quase de certeza que lhes dizia:

- Leitõezinhos, não comam com a boca toda. Não sejam glutões. Tomem cuidado e não sujem as patas. Não sejam porcos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Noutro desenho, via-se um dos leitões a escapar-se, talvez arreliado com as recomendações da mãe.

Estava eu nisto de inventar a história, que as tais "minhocas" melhor saberiam contar que eu, quando se levantou, de repente, um ventinho endiabrado, que me roubou as folhas do livro.

Folhas de Outono, não havia dúvida... Mal presas, voaram não sei para onde.

Lá se ia a história. Que pena! Onde voltaria eu a arranjar outro livro, que me treinasse na leitura?

Já me tinha esquecido do livro de folhas amarelas quando ouvi, não de muito longe, uns grunhidos de aflição.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quem grunhe é o porco, quando está bem ou mal disposto, mas aqueles grunhidos eram pedidos de socorro. Alto lá! Aproximei-me, num voo baixo, e que vi eu?

Vi um porquinho, igual ao dos desenhos, com a cabeçorra entalada entre as duas traves da cerca, que dá a volta à quinta.

Devia ter querido fugir, mas, naturalmente, não fez contas ao seu tamanho e agora via-se naquela ridícula situação. Pobre leitão entalado, metade em liberdade, metade preso...

E era tal e qual o leitão dos desenhos, que eu tinha visto no livro. Dei um pulo de satisfação. Ali estava o fim da história, que o vento me roubara.

O leitão, que fugira da pocilga, transformara-se num leitão prisioneiro.

Dele já se aproximavam vários moços da quinta, com serrotes e serras. Um deles trazia um machado. Tive uma suspeita tola: iriam cortar o bicho ao meio? Pobrezinho...

O leitão grunhia como se o serrassem, mas os moços afinal não tinham más intenções.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando o libertaram da entaladela, lá foi ele a correr, mas, desta vez, a caminho da mãe.

Vejam como uma história, começada num livro, termina numa quinta de verdade. Às vezes, deve ser ao contrário - começam as histórias na vida de verdade e continuam, depois, a viver nos livros...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Para um pardal pouco dado a letras não está mal a conclusão.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O pardal já sabe ler
Ilustração original recuperada

Quem fala sempre, do princípio ao fim, é o pardal Arisco, arisco de nome, mas atrevido como poucos:

Andava eu na minha vida, a petiscar o almoço, quando vi, aberto no meio da relva, um livro de folhas amarelas, como se lhe tivesse dado o Outono antes de tempo.

Não é fácil encontrar um livro no campo. Talvez seja por isso que eu não sei ler. Aqueles sinais gordos e finos, muito retorcidos, de que os livros estão cheios, a mim parecem-me minhocas, mas não enchem a barriga. Está visto que sou um pardal muito ignorante.

No tal livro, havia minhocas ou...

letras (acho que é assim que o Mocho Sábio lhes chama) e, de espaço a espaço, havia bonecos. Disso percebo eu. Basta ver.

Que lindeza de bonecos! Vi, num deles, uma porca a ensinar os filhos a comer. Quase de certeza que lhes dizia:

- Leitõezinhos, não comam com a boca toda. Não sejam glutões. Tomem cuidado e não sujem as patas. Não sejam porcos.

Noutro desenho, via-se um dos leitões a escapar-se, talvez arreliado com as recomendações da mãe.

Estava eu nisto de inventar a história, que as tais "minhocas" melhor saberiam contar que eu, quando se levantou, de repente, um ventinho endiabrado, que me roubou as folhas do livro.

Folhas de Outono, não havia dúvida... Mal presas, voaram não sei para onde.

Lá se ia a história. Que pena! Onde voltaria eu a arranjar outro livro, que me treinasse na leitura?

Já me tinha esquecido do livro de folhas amarelas quando ouvi, não de muito longe, uns grunhidos de aflição.

Quem grunhe é o porco, quando está bem ou mal disposto, mas aqueles grunhidos eram pedidos de socorro. Alto lá! Aproximei-me, num voo baixo, e que vi eu?

Vi um porquinho, igual ao dos desenhos, com a cabeçorra entalada entre as duas traves da cerca, que dá a volta à quinta.

Devia ter querido fugir, mas, naturalmente, não fez contas ao seu tamanho e agora via-se naquela ridícula situação. Pobre leitão entalado, metade em liberdade, metade preso...

E era tal e qual o leitão dos desenhos, que eu tinha visto no livro. Dei um pulo de satisfação. Ali estava o fim da história, que o vento me roubara.

O leitão, que fugira da pocilga, transformara-se num leitão prisioneiro.

Dele já se aproximavam vários moços da quinta, com serrotes e serras. Um deles trazia um machado. Tive uma suspeita tola: iriam cortar o bicho ao meio? Pobrezinho...

O leitão grunhia como se o serrassem, mas os moços afinal não tinham más intenções.

Quando o libertaram da entaladela, lá foi ele a correr, mas, desta vez, a caminho da mãe.

Vejam como uma história, começada num livro, termina numa quinta de verdade. Às vezes, deve ser ao contrário - começam as histórias na vida de verdade e continuam, depois, a viver nos livros...

Para um pardal pouco dado a letras não está mal a conclusão.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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