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| O pardal já sabe ler António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Quem fala sempre, do princípio ao fim, é o pardal Arisco, arisco de nome, mas atrevido como poucos:
Andava eu na minha vida, a petiscar o almoço, quando vi, aberto no meio da relva, um livro de folhas amarelas, como se lhe tivesse dado o Outono antes de tempo. | |
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| Não é fácil encontrar um livro no campo. Talvez seja por isso que eu não sei ler. Aqueles sinais gordos e finos, muito retorcidos, de que os livros estão cheios, a mim parecem-me minhocas, mas não enchem a barriga. Está visto que sou um pardal muito ignorante.
No tal livro, havia minhocas ou... | |
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| letras (acho que é assim que o Mocho Sábio lhes chama) e, de espaço a espaço, havia bonecos. Disso percebo eu. Basta ver.
Que lindeza de bonecos! Vi, num deles, uma porca a ensinar os filhos a comer. Quase de certeza que lhes dizia:
- Leitõezinhos, não comam com a boca toda. Não sejam glutões. Tomem cuidado e não sujem as patas. Não sejam porcos. | |
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| Noutro desenho, via-se um dos leitões a escapar-se, talvez arreliado com as recomendações da mãe.
Estava eu nisto de inventar a história, que as tais "minhocas" melhor saberiam contar que eu, quando se levantou, de repente, um ventinho endiabrado, que me roubou as folhas do livro. | |
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| Folhas de Outono, não havia dúvida... Mal presas, voaram não sei para onde.
Lá se ia a história. Que pena! Onde voltaria eu a arranjar outro livro, que me treinasse na leitura?
Já me tinha esquecido do livro de folhas amarelas quando ouvi, não de muito longe, uns grunhidos de aflição. | |
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| Quem grunhe é o porco, quando está bem ou mal disposto, mas aqueles grunhidos eram pedidos de socorro. Alto lá! Aproximei-me, num voo baixo, e que vi eu?
Vi um porquinho, igual ao dos desenhos, com a cabeçorra entalada entre as duas traves da cerca, que dá a volta à quinta. | |
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| Devia ter querido fugir, mas, naturalmente, não fez contas ao seu tamanho e agora via-se naquela ridícula situação. Pobre leitão entalado, metade em liberdade, metade preso...
E era tal e qual o leitão dos desenhos, que eu tinha visto no livro. Dei um pulo de satisfação. Ali estava o fim da história, que o vento me roubara. | |
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| O leitão, que fugira da pocilga, transformara-se num leitão prisioneiro.
Dele já se aproximavam vários moços da quinta, com serrotes e serras. Um deles trazia um machado. Tive uma suspeita tola: iriam cortar o bicho ao meio? Pobrezinho...
O leitão grunhia como se o serrassem, mas os moços afinal não tinham más intenções. | |
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| Quando o libertaram da entaladela, lá foi ele a correr, mas, desta vez, a caminho da mãe.
Vejam como uma história, começada num livro, termina numa quinta de verdade. Às vezes, deve ser ao contrário - começam as histórias na vida de verdade e continuam, depois, a viver nos livros... | |
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