• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «O espantalho aventureiro».

16 de Julho

O espantalho aventureiro

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:

- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me.

E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.

De princípio, custou-lhe a andar. Tinha as pernas trôpegas , claro. Em compensação, podia descansar os braços. Que alívio! Pelo caminho ia pensando: "Preciso de arranjar trabalho que me dê maquia .

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."

Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.

- Venha connosco - convidaram eles.

- Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.

Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.

- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos.

No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.

De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores.

Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.

Mas também se desconsolou de ser soldado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.

Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.

E agora, espantalho?

Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.

Foi o que fez.

Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado , camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos.

- Também agora os pardais troçam de mim - queixava-se ele, quando pouco mais ou menos a história chega ao fim.

Para nós, que aqui o vemos, o fim voltou ao princípio, ao ofício de espantalho. Há muitas histórias assim...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O espantalho aventureiro
Ilustração original recuperada

Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:

- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me.

E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.

De princípio, custou-lhe a andar. Tinha as pernas trôpegas , claro. Em compensação, podia descansar os braços. Que alívio! Pelo caminho ia pensando: "Preciso de arranjar trabalho que me dê maquia .

Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."

Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.

- Venha connosco - convidaram eles.

- Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.

Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto.

Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.

- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos.

No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.

De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores.

Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.

Mas também se desconsolou de ser soldado.

Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.

Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.

E agora, espantalho?

Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.

Foi o que fez.

Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado , camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos.

- Também agora os pardais troçam de mim - queixava-se ele, quando pouco mais ou menos a história chega ao fim.

Para nós, que aqui o vemos, o fim voltou ao princípio, ao ofício de espantalho. Há muitas histórias assim...

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Texto extraído das camadas HTML originais recuperadas. Imagens, PDF e áudio Flash são ficheiros locais do arquivo. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Abrir PDF recuperado