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| O espantalho aventureiro António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Era uma vez um espantalho. De braços abertos, no meio da seara, grande chapéu desabado e camisa ao vento, o espantalho aborrecia-se:
- Estou aqui especado, a guardar o que não é meu e nem me pagam o encargo. Até os pardais já troçam de mim. Vou mas é desempregar-me. | |
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| E desempregou-se mesmo, isto é, saltou para o chão, atravessou a seara e foi dar à estrada.
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| Hei-de poupar, porque não sou de grandes gastos e, um dia, com uma bolsa cheia de dinheiro dos meus ganhos, compro uma terra. Uma terra para eu guardar. Uma terra minha."
Ele a perder-se nestes sonhos e uma caravana de saltimbancos a passar.
- Venha connosco - convidaram eles. | |
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| - Um homem de palha, no nosso espectáculo, é novidade que enche um programa.
Ele foi, que o trabalho não era difícil. Dava uns saltos, fazia umas cabriolas, umas palhaçadas e recebia dinheiro. Com o primeiro ordenado comprou uma bolsa e na bolsa meteu as moedas, que ia ganhando. Nada mau! Mas, um dia, apanhou um susto. | |
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| Imaginem que o homem-vulcão, que deitava fumo pelos ouvidos e labaredas pela boca, cuspiu, num dos seus ensaios, uma faúlha ainda espevitada, que deitou fogo ao homem de palha. Vá lá que lhe acudiram a tempo, senão a história acabava mesmo aqui.
- Ná! Isto de ser artista de circo tem os seus perigos - disse o chamuscado espantalho, dizendo adeus aos saltimbancos. | |
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| No largo da vila, havia um editorial que convocava voluntários para o exército. O espantalho alistou-se.
De arma ao ombro, percorreu caminhos, guerras, países. Foi considerado um herói. Recebeu medalhas e louvores. | |
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| Pois pudera: as balas atravessavam-no, que o sangue não corria, porque sangue não havia. As lanças trespassavam-no, que dor nunca sentia, porque nervos não havia. Não, nunca caía o espantalho no meio da batalha. Era tal a valentia.
Mas também se desconsolou de ser soldado. | |
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| Certa vez, no quartel, enquanto dormia, uma mula sem cerimónias meteu o dente ao herói. E se estava com fome.
Assustou-se o soldado com o desplante do animal, que não conhecia os superiores. Pediu a demissão.
E agora, espantalho? | |
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| Consultou a bolsa, que sempre trazia à cinta, e contou as moedas, umas grandes, outras pequenas. Dava para comprar uma horta? Dava, desde que fosse pequena - uns palmos de terra com um espantalho ao meio.
Foi o que fez. | |
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| Colocou-se de braços abertos, a proteger a propriedade, e ali ficou, de grande chapéu desabado, camisa ao vento... Tinha sido espantalho, saltimbanco, mercenário. Voltava a ser espantalho - perdão! - proprietário! Estava feliz? Não sabemos. | |
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