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Ilustração de abertura da história «Um peixe na sala».

9 de Junho

Um peixe na sala

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

- Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.

Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.

Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.

- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.

E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.

A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.

Mas a tia Elisa adoeceu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro.

Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:

- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?

Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:

- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.

Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera.

Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.

Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.

- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.

Nenhum queria.

- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.

Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Um peixe na sala
Ilustração original recuperada

- Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.

Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.

Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.

- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.

E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.

A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.

Mas a tia Elisa adoeceu.

Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro.

Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:

- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?

Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:

- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.

Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera.

Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.

Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.

Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.

- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.

Nenhum queria.

- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram.

O peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas. Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.

Foi então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.

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