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| Um peixe na sala António Torrado Cristina Malaquias | |
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| - Não gosto nada que olhem para mim - dizia o peixinho vermelho com riscas azuis, que morava no aquário.
Era um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa. | |
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| Quem ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que revolteava na água, muito enervado.
- Detesto que me observem - dizia o peixe. - Se as pessoas vivessem em aquários também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas. | |
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| E o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou sobrava cauda ou sobrava cabeça.
A tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única pessoa que ele tolerava.
Mas a tia Elisa adoeceu. | |
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| Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. | |
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| Alegre e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:
- Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário? | |
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| Uma dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:
- Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.
Para o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. | |
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| Quem lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.
Até que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado. | |
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| Entretanto, vieram os sobrinhos para desfazer a casa.
- Quem quer ficar com o peixe do aquário? - perguntou um deles.
Nenhum queria.
- Deita-se o peixe para o tanque do quintal - decidiu um e os outros concordaram. | |
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