21 de Maio
O quadro feito por medida
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Um senhor muito rico contratou um pintor muito pobre para lhe pintar um quadro.
- Eu pago-lhe tudo - anunciou o senhor rico. - Pago-lhe as tintas, a tela, os pincéis e pago-lhe o trabalho. Pago-lhe bem. Principescamente ! Como nunca ninguém lhe pagou.
O pintor sorriu. Era um sorriso triste o do pintor.
- Mas se lhe pago bem, quero uma pintura ao meu jeito, como se fosse eu a pintar, se tivesse tempo para isso.
O pintor voltou a sorrir tristemente.
- Primeiro quero que ponha no quadro muitas nuvens - comandou o senhor muito rico. - Quero nuvens cinzentas, cor-de-rosa, brancas... enfim, nuvens...
Há-de pintar, depois, uns pássaros a voar no céu, mas essa parte da composição fica ao seu cuidado. Por agora, à minha conta, quero as nuvens.
O pintor obedeceu.
- Agora quero, deixe-me pensar... Quero uma montanha com uma casa, ao cimo, ou melhor, um palácio, um enorme palácio, encarrapitado na montanha... Exactamente. Fica bem assim.
O senhor muito rico estava satisfeito com a sua obra. O pintor, nem por isso.
- Agora, deixe-me ver, apetecia-me um barco, ou melhor, um vapor, ou melhor, um iate, um magnífico iate...
- Mas não há mar - lembrou o pintor.
- Pinte-o, ora essa!
Isso é um pormenor da sua responsabilidade.
Entretanto, tocaram ao telefone para o senhor muito rico. Era o secretário a recordar-lhe que tinha de presidir a uma reunião importantíssima, numa das várias empresas de que o senhor rico era presidente.
- Vou interromper a sessão de pintura - disse o senhor muito rico. - Mas, praticamente, o quadro está no fim. Vá pintando o mar, porque, quando eu vier, quero ver o efeito.
E o senhor muito rico virou costas ao quadro e abandonou o salão.
Ficou o pintor sozinho a pintar o mar.
Esmerou-se no seu trabalho.
Passado horas, o senhor muito rico regressou. Foi logo direito ao quadro:
- Que disparate de mar é este? Quem lhe mandou pintar estes peixes?
- O mar tem peixes - esclareceu o pintor, sorrindo.
Já não era um sorriso triste o do pintor.
- Mas aqui há peixes a mais.
Quase não deixam o meu iate prosseguir viagem. Atravancam tudo.
- É um grande cardume. Uma multidão de peixes miúdos: sardinhas, carapaus, cachuchos... - explicou o pintor.
Mas o senhor muito rico já estava com os olhos noutro ponto do quadro:
- Estes pássaros, donde vêm?
- Foi o senhor que mandou.
- Mas não mandei pintar tantos. Estes pássaros todos tapam as minhas nuvens, ensombram o meu palácio, tiram-me o ar, caramba.
- São bandos maciços de pássaros, que decidiram voar juntos - explicou o pintor. - Andorinhas, pardais, pombos, rolas...
O senhor muito rico não o ouvia. Uma outra particularidade do quadro chamara-lhe a atenção:
- Oiça lá, seu pintor, não lhe parece que esta parede do palácio está um bocadinho estalada?
O pintor, sorrindo abertamente, elogiou o senhor muito rico:
- A sua observação é extremamente oportuna. Se a parede está assim, um tanto rachada, mais real se torna e melhor se destaca a grandiosidade do conjunto.
- E o meu iate não está um bocadinho a descair para um lado? - estranhou o senhor muito rico.
- Também foi de propósito - respondeu o pintor. - Adornei sensivelmente o barco para defender o realismo e a beleza da cena.
O senhor muito rico ainda espreitou, em bicos de pés, para um outro pormenor do quadro, mas já não tinha mais nada a dizer. Por isso pagou ao pintor e foi à sua vida. O pintor também.
O quadro, esse nunca o expôs na sala a que o tinha destinado.
Muitos anos depois, foram encontrar o quadro numa arrecadação do escritório do senhor muito rico. Estava virado para a parede, cheio de pó e tão abandonado, que parecia muito mais antigo do que era na realidade.
Quem o conhecera, acabado de pintar, achou-o diferente.
O palácio, no alto da montanha, estava em ruínas. Servia de poiso e abrigo aos pássaros, que há volta dele continuavam a voar. Pelo seu lado, o iate tinha ido ao fundo. Distinguiam-se os peixes, que nadavam livremente pelo meio dos destroços do barco, coberto de lodo.
Era um quadro estranho, mas de uma grande beleza.
Chamaram o pintor já muito velho e mostraram-lhe o quadro. Ele, vendo o quadro que em jovem pintara, e que tão diferente já estava, limitou-se a sorrir. Não era um sorriso triste. Não era, realmente, um sorriso nada triste o do pintor.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Um senhor muito rico contratou um pintor muito pobre para lhe pintar um quadro.
- Eu pago-lhe tudo - anunciou o senhor rico. - Pago-lhe as tintas, a tela, os pincéis e pago-lhe o trabalho. Pago-lhe bem. Principescamente ! Como nunca ninguém lhe pagou.
O pintor sorriu. Era um sorriso triste o do pintor.
- Mas se lhe pago bem, quero uma pintura ao meu jeito, como se fosse eu a pintar, se tivesse tempo para isso.
O pintor voltou a sorrir tristemente.
- Primeiro quero que ponha no quadro muitas nuvens - comandou o senhor muito rico. - Quero nuvens cinzentas, cor-de-rosa, brancas... enfim, nuvens...
Há-de pintar, depois, uns pássaros a voar no céu, mas essa parte da composição fica ao seu cuidado. Por agora, à minha conta, quero as nuvens.
O pintor obedeceu.
- Agora quero, deixe-me pensar... Quero uma montanha com uma casa, ao cimo, ou melhor, um palácio, um enorme palácio, encarrapitado na montanha... Exactamente. Fica bem assim.
O senhor muito rico estava satisfeito com a sua obra. O pintor, nem por isso.
- Agora, deixe-me ver, apetecia-me um barco, ou melhor, um vapor, ou melhor, um iate, um magnífico iate...
- Mas não há mar - lembrou o pintor.
- Pinte-o, ora essa!
Isso é um pormenor da sua responsabilidade.
Entretanto, tocaram ao telefone para o senhor muito rico. Era o secretário a recordar-lhe que tinha de presidir a uma reunião importantíssima, numa das várias empresas de que o senhor rico era presidente.
- Vou interromper a sessão de pintura - disse o senhor muito rico. - Mas, praticamente, o quadro está no fim. Vá pintando o mar, porque, quando eu vier, quero ver o efeito.
E o senhor muito rico virou costas ao quadro e abandonou o salão.
Ficou o pintor sozinho a pintar o mar.
Esmerou-se no seu trabalho.
Passado horas, o senhor muito rico regressou. Foi logo direito ao quadro:
- Que disparate de mar é este? Quem lhe mandou pintar estes peixes?
- O mar tem peixes - esclareceu o pintor, sorrindo.
Já não era um sorriso triste o do pintor.
- Mas aqui há peixes a mais.
Quase não deixam o meu iate prosseguir viagem. Atravancam tudo.
- É um grande cardume. Uma multidão de peixes miúdos: sardinhas, carapaus, cachuchos... - explicou o pintor.
Mas o senhor muito rico já estava com os olhos noutro ponto do quadro:
- Estes pássaros, donde vêm?
- Foi o senhor que mandou.
- Mas não mandei pintar tantos. Estes pássaros todos tapam as minhas nuvens, ensombram o meu palácio, tiram-me o ar, caramba.
- São bandos maciços de pássaros, que decidiram voar juntos - explicou o pintor. - Andorinhas, pardais, pombos, rolas...
O senhor muito rico não o ouvia. Uma outra particularidade do quadro chamara-lhe a atenção:
- Oiça lá, seu pintor, não lhe parece que esta parede do palácio está um bocadinho estalada?
O pintor, sorrindo abertamente, elogiou o senhor muito rico:
- A sua observação é extremamente oportuna. Se a parede está assim, um tanto rachada, mais real se torna e melhor se destaca a grandiosidade do conjunto.
- E o meu iate não está um bocadinho a descair para um lado? - estranhou o senhor muito rico.
- Também foi de propósito - respondeu o pintor. - Adornei sensivelmente o barco para defender o realismo e a beleza da cena.
O senhor muito rico ainda espreitou, em bicos de pés, para um outro pormenor do quadro, mas já não tinha mais nada a dizer. Por isso pagou ao pintor e foi à sua vida. O pintor também.
O quadro, esse nunca o expôs na sala a que o tinha destinado.
Muitos anos depois, foram encontrar o quadro numa arrecadação do escritório do senhor muito rico. Estava virado para a parede, cheio de pó e tão abandonado, que parecia muito mais antigo do que era na realidade.
Quem o conhecera, acabado de pintar, achou-o diferente.
O palácio, no alto da montanha, estava em ruínas. Servia de poiso e abrigo aos pássaros, que há volta dele continuavam a voar. Pelo seu lado, o iate tinha ido ao fundo. Distinguiam-se os peixes, que nadavam livremente pelo meio dos destroços do barco, coberto de lodo.
Era um quadro estranho, mas de uma grande beleza.
Chamaram o pintor já muito velho e mostraram-lhe o quadro. Ele, vendo o quadro que em jovem pintara, e que tão diferente já estava, limitou-se a sorrir. Não era um sorriso triste. Não era, realmente, um sorriso nada triste o do pintor.
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