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| O quadro feito por medida António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Um senhor muito rico contratou um pintor muito pobre para lhe pintar um quadro.
- Eu pago-lhe tudo - anunciou o senhor rico. - Pago-lhe as tintas, a tela, os pincéis e pago-lhe o trabalho. Pago-lhe bem. Principescamente! Como nunca ninguém lhe pagou.
O pintor sorriu. Era um sorriso triste o do pintor. | |
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| - Mas se lhe pago bem, quero uma pintura ao meu jeito, como se fosse eu a pintar, se tivesse tempo para isso.
O pintor voltou a sorrir tristemente.
- Primeiro quero que ponha no quadro muitas nuvens - comandou o senhor muito rico. - Quero nuvens cinzentas, cor-de-rosa, brancas... enfim, nuvens... | |
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| Há-de pintar, depois, uns pássaros a voar no céu, mas essa parte da composição fica ao seu cuidado. Por agora, à minha conta, quero as nuvens.
O pintor obedeceu.
- Agora quero, deixe-me pensar... Quero uma montanha com uma casa, ao cimo, ou melhor, um palácio, um enorme palácio, encarrapitado na montanha... Exactamente. Fica bem assim. | |
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| O senhor muito rico estava satisfeito com a sua obra. O pintor, nem por isso.
- Agora, deixe-me ver, apetecia-me um barco, ou melhor, um vapor, ou melhor, um iate, um magnífico iate...
- Mas não há mar - lembrou o pintor.
- Pinte-o, ora essa! | |
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| Isso é um pormenor da sua responsabilidade.
Entretanto, tocaram ao telefone para o senhor muito rico. Era o secretário a recordar-lhe que tinha de presidir a uma reunião importantíssima, numa das várias empresas de que o senhor rico era presidente. | |
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| - Vou interromper a sessão de pintura - disse o senhor muito rico. - Mas, praticamente, o quadro está no fim. Vá pintando o mar, porque, quando eu vier, quero ver o efeito.
E o senhor muito rico virou costas ao quadro e abandonou o salão.
Ficou o pintor sozinho a pintar o mar. | |
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| Esmerou-se no seu trabalho.
Passado horas, o senhor muito rico regressou. Foi logo direito ao quadro:
- Que disparate de mar é este? Quem lhe mandou pintar estes peixes?
- O mar tem peixes - esclareceu o pintor, sorrindo.
Já não era um sorriso triste o do pintor.
- Mas aqui há peixes a mais. | |
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| Quase não deixam o meu iate prosseguir viagem. Atravancam tudo.
- É um grande cardume. Uma multidão de peixes miúdos: sardinhas, carapaus, cachuchos... - explicou o pintor.
Mas o senhor muito rico já estava com os olhos noutro ponto do quadro:
- Estes pássaros, donde vêm? | |
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| - Foi o senhor que mandou.
- Mas não mandei pintar tantos. Estes pássaros todos tapam as minhas nuvens, ensombram o meu palácio, tiram-me o ar, caramba.
- São bandos maciços de pássaros, que decidiram voar juntos - explicou o pintor. - Andorinhas, pardais, pombos, rolas... | |
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| O senhor muito rico não o ouvia. Uma outra particularidade do quadro chamara-lhe a atenção:
- Oiça lá, seu pintor, não lhe parece que esta parede do palácio está um bocadinho estalada? | |
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| O pintor, sorrindo abertamente, elogiou o senhor muito rico:
- A sua observação é extremamente oportuna. Se a parede está assim, um tanto rachada, mais real se torna e melhor se destaca a grandiosidade do conjunto. | |
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| - E o meu iate não está um bocadinho a descair para um lado? - estranhou o senhor muito rico.
- Também foi de propósito - respondeu o pintor. - Adornei sensivelmente o barco para defender o realismo e a beleza da cena. | |
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| O senhor muito rico ainda espreitou, em bicos de pés, para um outro pormenor do quadro, mas já não tinha mais nada a dizer. Por isso pagou ao pintor e foi à sua vida. O pintor também.
O quadro, esse nunca o expôs na sala a que o tinha destinado. | |
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| Muitos anos depois, foram encontrar o quadro numa arrecadação do escritório do senhor muito rico. Estava virado para a parede, cheio de pó e tão abandonado, que parecia muito mais antigo do que era na realidade.
Quem o conhecera, acabado de pintar, achou-o diferente. | |
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| O palácio, no alto da montanha, estava em ruínas. Servia de poiso e abrigo aos pássaros, que há volta dele continuavam a voar. Pelo seu lado, o iate tinha ido ao fundo. Distinguiam-se os peixes, que nadavam livremente pelo meio dos destroços do barco, coberto de lodo.
Era um quadro estranho, mas de uma grande beleza. | |
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