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Ilustração de abertura da história «Quem vem lá que vá».

23 de Abril

Quem vem lá que vá

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Um velho, que tinha uma quinta, morreu. O galo, o pato, o peru, o porco, o gato e a ovelha, que viviam na quinta, ficaram sem dono. Como não queriam ver-se apartados uns dos outros, resolveram fugir todos juntos.

Puseram-se a caminho.

À boca da noite, deram com um casebre de porta aberta.

- Esta vai ser a nossa casa - disse um dos bichos.

Ainda não era certo, mas fosse como fosse, naquela altura dava jeito. Tinha o que bastava: um telhado, quatro paredes e brasas a luzir na lareira.

Os bichos instalaram-se. O gato acocorou-se junto ao borralho. O porco deitou-se ao pé da selha.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O galo e o peru empoleiraram-se na trave do tecto. O pato e a ovelha puseram-se atrás da porta. Não se estava mal.

Já a noite ia adiantada, quando chegaram os lobos, que moravam naquela casa. Tinham andado à caça, mas sem que tivessem caçado nada que valesse. Vinham furiosos os lobos. E esfomeados.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um deles, assim que entrou, chegou-se para o borralho. O gato pressentiu-o e esgatanhou-lhe o focinho.

O lobo, que não contava com aquela surpresa no meio do escuro, desatou a correr. Os outros iam para acudir, mas o porco ferrou uma dentada na perna de um e a ovelha atirou uma marrada à barriga de outro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Naquela confusão, o galo pôs-se a cantar e o pato mais o peru fizeram coro com ele.

Os lobos, atordoados, pernas para que te quero! Fugiram para muito longe. Depois de muito correrem, juntaram-se de novo e um disse:

- Foi gente que tomou conta da nossa casa. A mim um sapateiro atirou-me com cardas ao focinho.

Se ele soubesse que era só um gato...

Disse outro:

- Pois a mim, um ferreiro agarrou-me uma perna com tenazes.

Se ele soubesse que era só um porco...

Disse um terceiro:

- A mim, esse tal ferreiro deu-me com uma tranca nas canelas.

Se ele soubesse que era só uma ovelha...

Os outros lobos, que não tinham chegado a entrar na casota, também tinham que contar.

Dizia um:

- Eu cá escapei da malhada, mas ouvi um que estava a gritar: "Cacaria, cacaria! Acaba tudo em cacaria".

Já se percebe que era o que ele ouvia da voz do galo.

Dizia outro:

- E eu ouvi um ameaçar: "Engolia-os! Engolia-os!"

Era o que ele entendera da voz do peru.

- E eu ouvi um que berrava: "Quem vem lá que vá! Quem vem lá que vá! Quem vem lá que vá!"

Assim ele ouvira a voz do pato.

Os lobos apanharam tal susto que nunca mais quiseram voltar ao casebre, onde passaram a viver o galo, o pato, o peru, o porco, o gato e a ovelha. E sempre muito amigos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Quem vem lá que vá
Ilustração original recuperada

Um velho, que tinha uma quinta, morreu. O galo, o pato, o peru, o porco, o gato e a ovelha, que viviam na quinta, ficaram sem dono. Como não queriam ver-se apartados uns dos outros, resolveram fugir todos juntos.

Puseram-se a caminho.

À boca da noite, deram com um casebre de porta aberta.

- Esta vai ser a nossa casa - disse um dos bichos.

Ainda não era certo, mas fosse como fosse, naquela altura dava jeito. Tinha o que bastava: um telhado, quatro paredes e brasas a luzir na lareira.

Os bichos instalaram-se. O gato acocorou-se junto ao borralho. O porco deitou-se ao pé da selha.

O galo e o peru empoleiraram-se na trave do tecto. O pato e a ovelha puseram-se atrás da porta. Não se estava mal.

Já a noite ia adiantada, quando chegaram os lobos, que moravam naquela casa. Tinham andado à caça, mas sem que tivessem caçado nada que valesse. Vinham furiosos os lobos. E esfomeados.

Um deles, assim que entrou, chegou-se para o borralho. O gato pressentiu-o e esgatanhou-lhe o focinho.

O lobo, que não contava com aquela surpresa no meio do escuro, desatou a correr. Os outros iam para acudir, mas o porco ferrou uma dentada na perna de um e a ovelha atirou uma marrada à barriga de outro.

Naquela confusão, o galo pôs-se a cantar e o pato mais o peru fizeram coro com ele.

Os lobos, atordoados, pernas para que te quero! Fugiram para muito longe. Depois de muito correrem, juntaram-se de novo e um disse:

- Foi gente que tomou conta da nossa casa. A mim um sapateiro atirou-me com cardas ao focinho.

Se ele soubesse que era só um gato...

Disse outro:

- Pois a mim, um ferreiro agarrou-me uma perna com tenazes.

Se ele soubesse que era só um porco...

Disse um terceiro:

- A mim, esse tal ferreiro deu-me com uma tranca nas canelas.

Se ele soubesse que era só uma ovelha...

Os outros lobos, que não tinham chegado a entrar na casota, também tinham que contar.

Dizia um:

- Eu cá escapei da malhada, mas ouvi um que estava a gritar: "Cacaria, cacaria! Acaba tudo em cacaria".

Já se percebe que era o que ele ouvia da voz do galo.

Dizia outro:

- E eu ouvi um ameaçar: "Engolia-os! Engolia-os!"

Era o que ele entendera da voz do peru.

- E eu ouvi um que berrava: "Quem vem lá que vá! Quem vem lá que vá! Quem vem lá que vá!"

Assim ele ouvira a voz do pato.

Os lobos apanharam tal susto que nunca mais quiseram voltar ao casebre, onde passaram a viver o galo, o pato, o peru, o porco, o gato e a ovelha. E sempre muito amigos.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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