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| Quem vem lá que vá António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Um velho, que tinha uma quinta, morreu. O galo, o pato, o peru, o porco, o gato e a ovelha, que viviam na quinta, ficaram sem dono. Como não queriam ver-se apartados uns dos outros, resolveram fugir todos juntos.
Puseram-se a caminho.
À boca da noite, deram com um casebre de porta aberta. | |
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| - Esta vai ser a nossa casa - disse um dos bichos.
Ainda não era certo, mas fosse como fosse, naquela altura dava jeito. Tinha o que bastava: um telhado, quatro paredes e brasas a luzir na lareira.
Os bichos instalaram-se. O gato acocorou-se junto ao borralho. O porco deitou-se ao pé da selha. | |
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| O galo e o peru empoleiraram-se na trave do tecto. O pato e a ovelha puseram-se atrás da porta. Não se estava mal.
Já a noite ia adiantada, quando chegaram os lobos, que moravam naquela casa. Tinham andado à caça, mas sem que tivessem caçado nada que valesse. Vinham furiosos os lobos. E esfomeados. | |
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| Um deles, assim que entrou, chegou-se para o borralho. O gato pressentiu-o e esgatanhou-lhe o focinho.
O lobo, que não contava com aquela surpresa no meio do escuro, desatou a correr. Os outros iam para acudir, mas o porco ferrou uma dentada na perna de um e a ovelha atirou uma marrada à barriga de outro. | |
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| Naquela confusão, o galo pôs-se a cantar e o pato mais o peru fizeram coro com ele.
Os lobos, atordoados, pernas para que te quero! Fugiram para muito longe. Depois de muito correrem, juntaram-se de novo e um disse:
- Foi gente que tomou conta da nossa casa. A mim um sapateiro atirou-me com cardas ao focinho. | |
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| Se ele soubesse que era só um gato...
Disse outro:
- Pois a mim, um ferreiro agarrou-me uma perna com tenazes.
Se ele soubesse que era só um porco... | |
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| Disse um terceiro:
- A mim, esse tal ferreiro deu-me com uma tranca nas canelas.
Se ele soubesse que era só uma ovelha...
Os outros lobos, que não tinham chegado a entrar na casota, também tinham que contar. | |
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| Dizia um:
- Eu cá escapei da malhada, mas ouvi um que estava a gritar: "Cacaria, cacaria! Acaba tudo em cacaria".
Já se percebe que era o que ele ouvia da voz do galo.
Dizia outro:
- E eu ouvi um ameaçar: "Engolia-os! Engolia-os!" | |
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