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Ilustração de abertura da história «O Ferrador aprendiz».

26 de Março

O Ferrador aprendiz

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Há um ditado que diz assim:

"Por um cravo se perde um cavalo, por um cavalo um cavaleiro, por um cavaleiro uma batalha."

A história está praticamente contada, mas vale a pena entrar em pormenores.

Tudo começou quando um rapaz, chamado Vatel, entrou ao serviço das cavalariças reais. A ambição dele era chegar a ferrador-mor, mas, como em tudo, tinha de começar pelo princípio.

Passeava os cavalos, antes de serem selados, dava-lhes de comer, lavava-os e limpava-os, revolvia-lhes e mudava-lhes a palha das camas, enfim, tudo trabalhos ligeiros.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

De caminho, ia aprendendo a ferrar. Estava sempre de olho nos ferradores, que pegavam com tenazes as ferraduras saídas da forja e as martelavam na bigorna , para, depois de arrefecidas numa selha , muito habilmente aplicá-las nos cascos dos cavalos.

As nuvens de vapor que se soltavam da selha por cada ferradura nela mergulhada toldavam os olhos de Vatel. A atmosfera afogueada dos metais fundentes, de mistura com o cheiro acre dos couros e dos cascos aquecidos, mais o suor nervoso dos cavalos, ardiam na respiração do jovem Vatel, picavam-lhe as narinas, faziam-no lacrimejar. Mas ele gostava.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um dia, houve rebuliço nas cavalarias reais. Tinham de ser aprontados até de madrugada todos os cavalos, porque o reino sofria ameaça de invasão e o rei, fiado no seu exército de lanceiros, contava sustê-la.

O caminho até à fronteira era longo, por más estradas. Como se sabe, sem ferraduras, os cavalos nunca conseguiriam enfrentar longas caminhadas.

Gastavam as solas dos cascos e expunham à marcha os tecidos vivos, a ponto de se magoarem.

A invenção do aro de ferro, pregado aos cascos do cavalo, só tem equivalência com a invenção do pneu, para o andamento da roda. Mas, vendo bem, a ferradura talvez tenha sido ainda mais importante.

Na cavalariça, todos os braços disponíveis foram postos ao serviço da cavalaria do rei.

- Tu sabes ferrar bem, rapaz? - perguntou uma ordenança a Vatel.

- Sei sim, senhor - respondeu Vatel, num atrevimento de boa vontade.

- Então trate-me de ferrar de novo este cavalo, que tem as ferraduras das mãos gastas, nos bordos de fora. Depressa.

O rapaz obedeceu. Descravar não custou. Eram ferraduras abertas e simples. Encontrar outras novas e iguais também foi fácil, apesar da confusão da oficina.

- Quem te deu a carta de ferrador? - perguntou-lhe a voz grossa do mestre Lavalard. - Dá cá o animal e vai buscar-me os cravos.

O aprendiz tinha sido reposto no seu lugar, antes de fazer alguma asneira. Estava o mestre Lavalard a fiscalizar a operação - e com que ligeireza ele ferrava! - quando o chamaram de urgência para atender ao cavalo de um coronel.

- Falta só martelar este cravo - disse o mestre ao aprendiz. - Encraveira bem, para que fique à face. Tens força que chegue?

Vatel disse que sim. Que outra coisa podia ele dizer?

Aqui para nós, temos de reconhecer que a vontade não se igualava à força. O cravo ficou ligeiramente solto, um nada de nada, mas o suficiente para ditar a sorte de uma batalha.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando, tempos depois, a meio da refrega , o rei do alto de uma colina, observando com os seus generais o andamento da batalha, mandou que o cabo-estafeta, a ordenança , fosse por reforços e o cabo partiu à desfilada , já o cravo novo da ferradura estava meio desenclavinhado, por culpa da marcha que suportara. Tinia a ferradura, a soltar-se da pata do cavalo.

O cavalo da ordenança tropeçou, o cavaleiro não se segurou, caiu pela frente da montada e foi bater com a cabeça numa maldita pedra, que devia ter pacto com o inimigo. Desmaiou o cabo e os reforços não foram avisados e a batalha perdeu-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Contam os manuais de História que a culpa da derrota foi atribuída à má estratégia do rei, dos generais e de não sei mais quem, mas nenhum livro refere o nome do aprendiz Vatel. Aqui se repõe a verdade, para que se saiba.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Há um ditado que diz assim:

"Por um cravo se perde um cavalo, por um cavalo um cavaleiro, por um cavaleiro uma batalha."

A história está praticamente contada, mas vale a pena entrar em pormenores.

Tudo começou quando um rapaz, chamado Vatel, entrou ao serviço das cavalariças reais. A ambição dele era chegar a ferrador-mor, mas, como em tudo, tinha de começar pelo princípio.

Passeava os cavalos, antes de serem selados, dava-lhes de comer, lavava-os e limpava-os, revolvia-lhes e mudava-lhes a palha das camas, enfim, tudo trabalhos ligeiros.

De caminho, ia aprendendo a ferrar. Estava sempre de olho nos ferradores, que pegavam com tenazes as ferraduras saídas da forja e as martelavam na bigorna , para, depois de arrefecidas numa selha , muito habilmente aplicá-las nos cascos dos cavalos.

As nuvens de vapor que se soltavam da selha por cada ferradura nela mergulhada toldavam os olhos de Vatel. A atmosfera afogueada dos metais fundentes, de mistura com o cheiro acre dos couros e dos cascos aquecidos, mais o suor nervoso dos cavalos, ardiam na respiração do jovem Vatel, picavam-lhe as narinas, faziam-no lacrimejar. Mas ele gostava.

Um dia, houve rebuliço nas cavalarias reais. Tinham de ser aprontados até de madrugada todos os cavalos, porque o reino sofria ameaça de invasão e o rei, fiado no seu exército de lanceiros, contava sustê-la.

O caminho até à fronteira era longo, por más estradas. Como se sabe, sem ferraduras, os cavalos nunca conseguiriam enfrentar longas caminhadas.

Gastavam as solas dos cascos e expunham à marcha os tecidos vivos, a ponto de se magoarem.

A invenção do aro de ferro, pregado aos cascos do cavalo, só tem equivalência com a invenção do pneu, para o andamento da roda. Mas, vendo bem, a ferradura talvez tenha sido ainda mais importante.

Na cavalariça, todos os braços disponíveis foram postos ao serviço da cavalaria do rei.

- Tu sabes ferrar bem, rapaz? - perguntou uma ordenança a Vatel.

- Sei sim, senhor - respondeu Vatel, num atrevimento de boa vontade.

- Então trate-me de ferrar de novo este cavalo, que tem as ferraduras das mãos gastas, nos bordos de fora. Depressa.

O rapaz obedeceu. Descravar não custou. Eram ferraduras abertas e simples. Encontrar outras novas e iguais também foi fácil, apesar da confusão da oficina.

- Quem te deu a carta de ferrador? - perguntou-lhe a voz grossa do mestre Lavalard. - Dá cá o animal e vai buscar-me os cravos.

O aprendiz tinha sido reposto no seu lugar, antes de fazer alguma asneira. Estava o mestre Lavalard a fiscalizar a operação - e com que ligeireza ele ferrava! - quando o chamaram de urgência para atender ao cavalo de um coronel.

- Falta só martelar este cravo - disse o mestre ao aprendiz. - Encraveira bem, para que fique à face. Tens força que chegue?

Vatel disse que sim. Que outra coisa podia ele dizer?

Aqui para nós, temos de reconhecer que a vontade não se igualava à força. O cravo ficou ligeiramente solto, um nada de nada, mas o suficiente para ditar a sorte de uma batalha.

Quando, tempos depois, a meio da refrega , o rei do alto de uma colina, observando com os seus generais o andamento da batalha, mandou que o cabo-estafeta, a ordenança , fosse por reforços e o cabo partiu à desfilada , já o cravo novo da ferradura estava meio desenclavinhado, por culpa da marcha que suportara. Tinia a ferradura, a soltar-se da pata do cavalo.

O cavalo da ordenança tropeçou, o cavaleiro não se segurou, caiu pela frente da montada e foi bater com a cabeça numa maldita pedra, que devia ter pacto com o inimigo. Desmaiou o cabo e os reforços não foram avisados e a batalha perdeu-se.

Contam os manuais de História que a culpa da derrota foi atribuída à má estratégia do rei, dos generais e de não sei mais quem, mas nenhum livro refere o nome do aprendiz Vatel. Aqui se repõe a verdade, para que se saiba.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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