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| O Ferrador aprendiz António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Há um ditado que diz assim:
"Por um cravo se perde um cavalo, por um cavalo um cavaleiro, por um cavaleiro uma batalha."
A história está praticamente contada, mas vale a pena entrar em pormenores. | |
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| Tudo começou quando um rapaz, chamado Vatel, entrou ao serviço das cavalariças reais. A ambição dele era chegar a ferrador-mor, mas, como em tudo, tinha de começar pelo princípio.
Passeava os cavalos, antes de serem selados, dava-lhes de comer, lavava-os e limpava-os, revolvia-lhes e mudava-lhes a palha das camas, enfim, tudo trabalhos ligeiros. | |
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| As nuvens de vapor que se soltavam da selha por cada ferradura nela mergulhada toldavam os olhos de Vatel. A atmosfera afogueada dos metais fundentes, de mistura com o cheiro acre dos couros e dos cascos aquecidos, mais o suor nervoso dos cavalos, ardiam na respiração do jovem Vatel, picavam-lhe as narinas, faziam-no lacrimejar. Mas ele gostava. | |
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| Um dia, houve rebuliço nas cavalarias reais. Tinham de ser aprontados até de madrugada todos os cavalos, porque o reino sofria ameaça de invasão e o rei, fiado no seu exército de lanceiros, contava sustê-la.
O caminho até à fronteira era longo, por más estradas. Como se sabe, sem ferraduras, os cavalos nunca conseguiriam enfrentar longas caminhadas. | |
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| Gastavam as solas dos cascos e expunham à marcha os tecidos vivos, a ponto de se magoarem.
A invenção do aro de ferro, pregado aos cascos do cavalo, só tem equivalência com a invenção do pneu, para o andamento da roda. Mas, vendo bem, a ferradura talvez tenha sido ainda mais importante. | |
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| Na cavalariça, todos os braços disponíveis foram postos ao serviço da cavalaria do rei.
- Tu sabes ferrar bem, rapaz? - perguntou uma ordenança a Vatel.
- Sei sim, senhor - respondeu Vatel, num atrevimento de boa vontade.
- Então trate-me de ferrar de novo este cavalo, que tem as ferraduras das mãos gastas, nos bordos de fora. Depressa. | |
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| O rapaz obedeceu. Descravar não custou. Eram ferraduras abertas e simples. Encontrar outras novas e iguais também foi fácil, apesar da confusão da oficina.
- Quem te deu a carta de ferrador? - perguntou-lhe a voz grossa do mestre Lavalard. - Dá cá o animal e vai buscar-me os cravos. | |
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| O aprendiz tinha sido reposto no seu lugar, antes de fazer alguma asneira. Estava o mestre Lavalard a fiscalizar a operação - e com que ligeireza ele ferrava! - quando o chamaram de urgência para atender ao cavalo de um coronel.
- Falta só martelar este cravo - disse o mestre ao aprendiz. - Encraveira bem, para que fique à face. Tens força que chegue? | |
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| Vatel disse que sim. Que outra coisa podia ele dizer?
Aqui para nós, temos de reconhecer que a vontade não se igualava à força. O cravo ficou ligeiramente solto, um nada de nada, mas o suficiente para ditar a sorte de uma batalha. | |
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| Quando, tempos depois, a meio da refrega, o rei do alto de uma colina, observando com os seus generais o andamento da batalha, mandou que o cabo-estafeta, a ordenança, fosse por reforços e o cabo partiu à desfilada, já o cravo novo da ferradura estava meio desenclavinhado, por culpa da marcha que suportara. Tinia a ferradura, a soltar-se da pata do cavalo. | |
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| O cavalo da ordenança tropeçou, o cavaleiro não se segurou, caiu pela frente da montada e foi bater com a cabeça numa maldita pedra, que devia ter pacto com o inimigo. Desmaiou o cabo e os reforços não foram avisados e a batalha perdeu-se. | |
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