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Ilustração de abertura da história «Os Favores do Borda d'Água».

29 de Fevereiro

Os Favores do Borda d'Água

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Fazer anos é bom. Há festa, há presentes e há a família e os amigos todos à volta de nós e do bolo, a cantar, afinados ou desafinados, os "Parabéns a Você". Sopram-se as velas, ouvem-se as palmas e tocam-se os copos, "tchim-tchim!", à saúde do aniversariante.

Mas por que estou eu aqui a contar o que toda a gente sabe? Sim, porquê?

Porque o Mário só tem direito a esta festa de quatro em quatro anos, precisamente no dia 29 de Fevereiro de cada ano bissexto . Nasceu num dia desses de um ano desses, que se há-de fazer?

O Joca, amigo e vizinho do Mário, já que ambos moram no mesmo prédio, o Joca é que não se conforma:

- Tu devias receber as prendas vezes quatro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um montão delas, a contar com os anos em que não tiveste festa.

- E recebo - explicou o Mário. - Na Páscoa, os meus pais e os meus avós dão-me sempre mais prendinhas e dizem-me que são as dos meus anos.

Assim sendo, o Joca já não sentia tanta pena do seu amigo Mário. À noite, à hora da deita, pôs-se a matutar que as pessoas deviam fazer anos sempre que quisessem.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Já em vale de lençóis, apurou a ideia.

Imagine-se um senhor que, por ter tido uma infância sem carinhos nem festas, decidia, chegado a adulto, feliz e bem instalado na vida, comemorar todos os aniversários que a miséria dos primeiros anos lhe tinham roubado? Festas e mais festas, prendas e mais prendas... Devia ser giro.

Ele próprio, Joca, sentia ganas de pedir ao Senhor Borda d'Água, cavalheiro de cartola a labita que gere os negócios do tempo e o calendário do mesmo nome, se lhe concedia um favor. Via-se, diante do Borda d'Água, a formular o seguinte pedido:

- O senhor podia dar-me mais do que uma festa de anos por ano?

- Quantas?

O Joca hesitava:

- Se não lhe custasse muito, duas. Ou três... Ou quatro... Ou cinco...

- As que quiseres - decidiu o Borda d'Água, um mãos-largas nisto de dar à manivela do tempo.

E assim passou a acontecer. Corriam os dias, corriam as festas de anos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Os convidados já nem saíam de casa do Joca, sempre a atafulharem-se em novos bolos de aniversário, a que iam crescendo as velas. Nem tempo havia para desembrulhar todas as prendas. Sensacional!

O Joca andava delirante. Aquilo é que era vida. Podia achar os pais mais velhos e mais cansados, com aquela continuada responsabilidade de atender a tantos aniversários seguidos.

Podia sentir que algumas prendas já eram descabidas para a sua idade. Podia já estar enjoado do bolo de anos e da cerimónia dos "Parabéns a Você". Mas ainda rejubilava com aquele ambiente de festa interminável, como se o tempo nunca passasse.

O pior foi quando, uma vez, ao chegar-se a um espelho, não ter reconhecido o seu próprio rosto. Ele, de barba e já com algumas brancas?

E com o cabelo a fugir-lhe? E as olheiras, a cavarem-lhe os olhos?

Percebeu, então. Cada festa era um ano que mudava. Naquele corrupio de aniversários, esquecera-se desse pormenor.

Tinha de voltar atrás. Tinha de pedir ao Borda d'Água que suspendesse a roda do tempo, se não, se não as últimas velas da vida apagavam-se num sopro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Respondeu-lhe o Borda d'Água:

- Como estás no meio de um sonho, posso satisfazer o que me pedes. Mal acordares, voltas a ter a idade com que adormeceste, ainda que com umas horitas a mais. Nada de importância.

E assim aconteceu.

Quando o Joca se viu ao espelho, na manhã seguinte, e encontrou de novo o seu rosto de menino, não podem calcular o alívio que o Joca sentiu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Festas de aniversário uma vez por ano e chega. Ou de quatro em quatro...

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Fazer anos é bom. Há festa, há presentes e há a família e os amigos todos à volta de nós e do bolo, a cantar, afinados ou desafinados, os "Parabéns a Você". Sopram-se as velas, ouvem-se as palmas e tocam-se os copos, "tchim-tchim!", à saúde do aniversariante.

Mas por que estou eu aqui a contar o que toda a gente sabe? Sim, porquê?

Porque o Mário só tem direito a esta festa de quatro em quatro anos, precisamente no dia 29 de Fevereiro de cada ano bissexto . Nasceu num dia desses de um ano desses, que se há-de fazer?

O Joca, amigo e vizinho do Mário, já que ambos moram no mesmo prédio, o Joca é que não se conforma:

- Tu devias receber as prendas vezes quatro.

Um montão delas, a contar com os anos em que não tiveste festa.

- E recebo - explicou o Mário. - Na Páscoa, os meus pais e os meus avós dão-me sempre mais prendinhas e dizem-me que são as dos meus anos.

Assim sendo, o Joca já não sentia tanta pena do seu amigo Mário. À noite, à hora da deita, pôs-se a matutar que as pessoas deviam fazer anos sempre que quisessem.

Já em vale de lençóis, apurou a ideia.

Imagine-se um senhor que, por ter tido uma infância sem carinhos nem festas, decidia, chegado a adulto, feliz e bem instalado na vida, comemorar todos os aniversários que a miséria dos primeiros anos lhe tinham roubado? Festas e mais festas, prendas e mais prendas... Devia ser giro.

Ele próprio, Joca, sentia ganas de pedir ao Senhor Borda d'Água, cavalheiro de cartola a labita que gere os negócios do tempo e o calendário do mesmo nome, se lhe concedia um favor. Via-se, diante do Borda d'Água, a formular o seguinte pedido:

- O senhor podia dar-me mais do que uma festa de anos por ano?

- Quantas?

O Joca hesitava:

- Se não lhe custasse muito, duas. Ou três... Ou quatro... Ou cinco...

- As que quiseres - decidiu o Borda d'Água, um mãos-largas nisto de dar à manivela do tempo.

E assim passou a acontecer. Corriam os dias, corriam as festas de anos.

Os convidados já nem saíam de casa do Joca, sempre a atafulharem-se em novos bolos de aniversário, a que iam crescendo as velas. Nem tempo havia para desembrulhar todas as prendas. Sensacional!

O Joca andava delirante. Aquilo é que era vida. Podia achar os pais mais velhos e mais cansados, com aquela continuada responsabilidade de atender a tantos aniversários seguidos.

Podia sentir que algumas prendas já eram descabidas para a sua idade. Podia já estar enjoado do bolo de anos e da cerimónia dos "Parabéns a Você". Mas ainda rejubilava com aquele ambiente de festa interminável, como se o tempo nunca passasse.

O pior foi quando, uma vez, ao chegar-se a um espelho, não ter reconhecido o seu próprio rosto. Ele, de barba e já com algumas brancas?

E com o cabelo a fugir-lhe? E as olheiras, a cavarem-lhe os olhos?

Percebeu, então. Cada festa era um ano que mudava. Naquele corrupio de aniversários, esquecera-se desse pormenor.

Tinha de voltar atrás. Tinha de pedir ao Borda d'Água que suspendesse a roda do tempo, se não, se não as últimas velas da vida apagavam-se num sopro.

Respondeu-lhe o Borda d'Água:

- Como estás no meio de um sonho, posso satisfazer o que me pedes. Mal acordares, voltas a ter a idade com que adormeceste, ainda que com umas horitas a mais. Nada de importância.

E assim aconteceu.

Quando o Joca se viu ao espelho, na manhã seguinte, e encontrou de novo o seu rosto de menino, não podem calcular o alívio que o Joca sentiu.

Festas de aniversário uma vez por ano e chega. Ou de quatro em quatro...

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