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| Os Favores do Borda d'Água António Torrado Cristina Malaquias | |
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| Fazer anos é bom. Há festa, há presentes e há a família e os amigos todos à volta de nós e do bolo, a cantar, afinados ou desafinados, os "Parabéns a Você". Sopram-se as velas, ouvem-se as palmas e tocam-se os copos, "tchim-tchim!", à saúde do aniversariante.
Mas por que estou eu aqui a contar o que toda a gente sabe? Sim, porquê? | |
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| Porque o Mário só tem direito a esta festa de quatro em quatro anos, precisamente no dia 29 de Fevereiro de cada ano bissexto. Nasceu num dia desses de um ano desses, que se há-de fazer?
O Joca, amigo e vizinho do Mário, já que ambos moram no mesmo prédio, o Joca é que não se conforma:
- Tu devias receber as prendas vezes quatro. | |
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| Um montão delas, a contar com os anos em que não tiveste festa.
- E recebo - explicou o Mário. - Na Páscoa, os meus pais e os meus avós dão-me sempre mais prendinhas e dizem-me que são as dos meus anos.
Assim sendo, o Joca já não sentia tanta pena do seu amigo Mário. À noite, à hora da deita, pôs-se a matutar que as pessoas deviam fazer anos sempre que quisessem. | |
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| Já em vale de lençóis, apurou a ideia.
Imagine-se um senhor que, por ter tido uma infância sem carinhos nem festas, decidia, chegado a adulto, feliz e bem instalado na vida, comemorar todos os aniversários que a miséria dos primeiros anos lhe tinham roubado? Festas e mais festas, prendas e mais prendas... Devia ser giro. | |
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| Ele próprio, Joca, sentia ganas de pedir ao Senhor Borda d'Água, cavalheiro de cartola a labita que gere os negócios do tempo e o calendário do mesmo nome, se lhe concedia um favor. Via-se, diante do Borda d'Água, a formular o seguinte pedido:
- O senhor podia dar-me mais do que uma festa de anos por ano?
- Quantas? | |
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| O Joca hesitava:
- Se não lhe custasse muito, duas. Ou três... Ou quatro... Ou cinco...
- As que quiseres - decidiu o Borda d'Água, um mãos-largas nisto de dar à manivela do tempo.
E assim passou a acontecer. Corriam os dias, corriam as festas de anos. | |
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| Os convidados já nem saíam de casa do Joca, sempre a atafulharem-se em novos bolos de aniversário, a que iam crescendo as velas. Nem tempo havia para desembrulhar todas as prendas. Sensacional!
O Joca andava delirante. Aquilo é que era vida. Podia achar os pais mais velhos e mais cansados, com aquela continuada responsabilidade de atender a tantos aniversários seguidos. | |
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| Podia sentir que algumas prendas já eram descabidas para a sua idade. Podia já estar enjoado do bolo de anos e da cerimónia dos "Parabéns a Você". Mas ainda rejubilava com aquele ambiente de festa interminável, como se o tempo nunca passasse.
O pior foi quando, uma vez, ao chegar-se a um espelho, não ter reconhecido o seu próprio rosto. Ele, de barba e já com algumas brancas? | |
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| E com o cabelo a fugir-lhe? E as olheiras, a cavarem-lhe os olhos?
Percebeu, então. Cada festa era um ano que mudava. Naquele corrupio de aniversários, esquecera-se desse pormenor.
Tinha de voltar atrás. Tinha de pedir ao Borda d'Água que suspendesse a roda do tempo, se não, se não as últimas velas da vida apagavam-se num sopro. | |
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| Respondeu-lhe o Borda d'Água:
- Como estás no meio de um sonho, posso satisfazer o que me pedes. Mal acordares, voltas a ter a idade com que adormeceste, ainda que com umas horitas a mais. Nada de importância.
E assim aconteceu. | |
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