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Ilustração de abertura da história «A Filhó Dourada».

27 de Dezembro

A Filhó Dourada

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

A história que vou contar chama-se "A Filhó Dourada". Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa, como um castelo por conquistar.

As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram, dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar bem, e num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar.

Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós.

– Estão uma delícia – comentavam.

E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma, no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava em reflexos de oiro. Uma tentação.

À roda da mesa, diziam para o avô:

– Só ficou uma filhó. Porque é que a não come?

O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe:

– Come tu, anda lá.

A avó não queria.

– Comam vocês – dizia ela, apontando para a filhó e para os filhos.

– Eu já comi muitas – desculpava-se um.

– Também tenho a minha conta – dizia outro.

– Nem mais um bocadinho – declarava um terceiro.

Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer.

Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó, andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor:

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus sobrinhos chega primeiro à filhó.

Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse por que fosse…

– Afinal ninguém a come – observaram do outro extremo da mesa. – Esta filhó deve ser mágica.

Olharam uns para os outros e sorriram.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a debandada.

– Amanhã se arruma a casa – disse a tia Luísa, e apagou a luz da sala de jantar.

Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco-fusco, ao meio da mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original recuperada para A Filhó Dourada
Ilustração original recuperada

A história que vou contar chama-se "A Filhó Dourada". Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa, como um castelo por conquistar.

As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram, dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar bem, e num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar.

Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós.

– Estão uma delícia – comentavam.

E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma, no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava em reflexos de oiro. Uma tentação.

À roda da mesa, diziam para o avô:

– Só ficou uma filhó. Porque é que a não come?

O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe:

– Come tu, anda lá.

A avó não queria.

– Comam vocês – dizia ela, apontando para a filhó e para os filhos.

– Eu já comi muitas – desculpava-se um.

– Também tenho a minha conta – dizia outro.

– Nem mais um bocadinho – declarava um terceiro.

Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer.

Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó, andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor:

– Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus sobrinhos chega primeiro à filhó.

Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse por que fosse…

– Afinal ninguém a come – observaram do outro extremo da mesa. – Esta filhó deve ser mágica.

Olharam uns para os outros e sorriram.

A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a debandada.

– Amanhã se arruma a casa – disse a tia Luísa, e apagou a luz da sala de jantar.

Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco-fusco, ao meio da mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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