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Ilustração de abertura da história «Marília não Chora».

17 de Dezembro

Marília não Chora

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez uma boneca que não chorava.

Estava a boneca Marília no meio de outras bonecas, todas choronas, e junto de outros brinquedos e bonecos.

Os bonecos, alguns bem patuscos , como o ensonado urso Ronrom ou o espertíssimo burrinho Trolaró, e as bonecas, entre as quais a Marília, estavam à janela a ver quem passa.

Pelo menos, era o que diziam, ainda que, quem os visse de fora, dissesse que eles estavam na montra de uma casa de brinquedos, a mais bela e iluminada montra de casa de brinquedos que olhos arregalados de meninos alguma vez miraram.

E os bonecos entretinham-se imenso com os meninos que, do outro lado do vidro, os apreciavam.

- Olhem para aquela garota loirinha, que engraçada. Mal chega ao vidro e já aponta para nós - observava uma boneca vestida de grande dama.

- Está a apontar para mim - exclamava outra boneca, que era muito vaidosa.

- Para mim é que ela está a apontar - dizia a outra boneca, que não era menos vaidosa.

- Para mim... Reparem bem que é para mim.

- Não é nada! Está a olhar e a apontar para mim. Vê-se logo.

- Não está nada.

- Está.

- Não está.

Por coisas assim se zangavam as bonecas.

E punham-se todas a chorar. Tinha de intervir o urso Ronrom, do alto da escada de veludo, que ocupava metade da montra:

- Caluda, meninas! Não há sossego, não há respeito, não há disciplina nesta casa? Nem se pode dormir como deve ser. Meninas tolas, meninas sirigaitas, quem vos tirou o juízo?

Elas embatucavam.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ouvia-se então, lá do fundo, uma zurradela do burro Troloró, que franzia o focinho e mostrava os dentes como se estivesse a rir-se. E logo a seguir ouvia-se uma límpida gargalhada, que se prolongava em música nos ouvidos das pessoas, se as pessoas também pudessem estar naquela montra, onde os brinquedos têm voz. Quem assim ria? Era a Marília, a tal boneca que não chorava, mas muito ria. Pois era.

Calculem que a menina loirinha, apesar do vidro da montra, ouviu o riso da Marília. Ouviu e gostou. Gostou do riso e gostou da boneca. Queria aquela.

São agora grandes amigas a Marília e a Joana. Riem-se muito e se, às vezes, a Joana, por qualquer motivo, amua e começa a fazer beicinho, a Marília ri-se para ela e a tristeza passa.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Para rirem connosco e para nos soprarem as lágrimas é que há amigos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Marília não Chora
Ilustração original recuperada

Era uma vez uma boneca que não chorava.

Estava a boneca Marília no meio de outras bonecas, todas choronas, e junto de outros brinquedos e bonecos.

Os bonecos, alguns bem patuscos , como o ensonado urso Ronrom ou o espertíssimo burrinho Trolaró, e as bonecas, entre as quais a Marília, estavam à janela a ver quem passa.

Pelo menos, era o que diziam, ainda que, quem os visse de fora, dissesse que eles estavam na montra de uma casa de brinquedos, a mais bela e iluminada montra de casa de brinquedos que olhos arregalados de meninos alguma vez miraram.

E os bonecos entretinham-se imenso com os meninos que, do outro lado do vidro, os apreciavam.

- Olhem para aquela garota loirinha, que engraçada. Mal chega ao vidro e já aponta para nós - observava uma boneca vestida de grande dama.

- Está a apontar para mim - exclamava outra boneca, que era muito vaidosa.

- Para mim é que ela está a apontar - dizia a outra boneca, que não era menos vaidosa.

- Para mim... Reparem bem que é para mim.

- Não é nada! Está a olhar e a apontar para mim. Vê-se logo.

- Não está nada.

- Está.

- Não está.

Por coisas assim se zangavam as bonecas.

E punham-se todas a chorar. Tinha de intervir o urso Ronrom, do alto da escada de veludo, que ocupava metade da montra:

- Caluda, meninas! Não há sossego, não há respeito, não há disciplina nesta casa? Nem se pode dormir como deve ser. Meninas tolas, meninas sirigaitas, quem vos tirou o juízo?

Elas embatucavam.

Ouvia-se então, lá do fundo, uma zurradela do burro Troloró, que franzia o focinho e mostrava os dentes como se estivesse a rir-se. E logo a seguir ouvia-se uma límpida gargalhada, que se prolongava em música nos ouvidos das pessoas, se as pessoas também pudessem estar naquela montra, onde os brinquedos têm voz. Quem assim ria? Era a Marília, a tal boneca que não chorava, mas muito ria. Pois era.

Calculem que a menina loirinha, apesar do vidro da montra, ouviu o riso da Marília. Ouviu e gostou. Gostou do riso e gostou da boneca. Queria aquela.

São agora grandes amigas a Marília e a Joana. Riem-se muito e se, às vezes, a Joana, por qualquer motivo, amua e começa a fazer beicinho, a Marília ri-se para ela e a tristeza passa.

Para rirem connosco e para nos soprarem as lágrimas é que há amigos.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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