15 de Dezembro
Assim não Jogo
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Hoje vou falar de futebol.
Era uma vez um jogador que se chamava Medo. Um grande jogador!
- Vamos jogar contra o Medo - diziam, antes do desafio, os adversários, cheios de medo.
Mas, um dia, lesionou-se .
- Estamos muito desfalcados - lamentavam-se os companheiros de equipa. - Sem o Medo não é a mesma coisa.
Foram buscar o suplente.
Por acaso, o rapaz até se chamava Nervos. Era o Zé Nervos, não muito jeitoso a dominar a bola, mas com uma potência no remate de virar os guarda-redes do avesso.
Já o primo dele, o Chico Nervos, que também jogava, mas a meio-campo, não havia quem o suplantasse como armador de jogo.
- Rapazes, hoje a táctica é toda por conta dos Nervos - anunciava o treinador, nos balneários. - Com os Nervos ao ataque, temos a vitória garantida.
E tiveram.
Naquele jogo e no outro e nos outros que se seguiram o êxito foi estrondoso. Os adversários levavam abadas de chocar.
- Vocês não têm mais irmãos ou primos com queda para o futebol? - perguntava aos dois Nervos o treinador. - Se tiverem, eu contrato-os. Com os Nervos todos do nosso lado, bem controlados por mim, seremos imbatíveis.
Por sinal que eles não tinham mais parentes virados para o desporto. Eram os únicos Nervos futebolistas da família. Mas chegavam.
- Nervos! Nervos! Nervos! - gritavam os espectadores, nas bancadas.
Até parecia que a força dos Nervos se comunicava aos restantes jogadores.
Tanto se destacavam os primos que os jornais quase se esqueceram do nome dos outros futebolistas, do treinador e do próprio clube, para apenas designarem a equipa com títulos deste género: avalanche de Nervos, Nervos a mais, ataque de Nervos, com uns entusiasmos e uns exageros que - brr! - até enervavam.
Entretanto, o Medo, aquele jogador que se tinha lesionado no princípio da história, restabeleceu-se. Estava, de novo, pronto para jogar.
O treinador fez umas substituições, uns acertos e, sem dispensar os primos Nervos, mandou vir o Medo.
- Por este andar, com uma equipa deste nível, vamos ganhar a Taça das Taças das Taças das Taças - dizia o treinador, a esfregar as mãos e a rir-se.
Riso de pouca dura. O primeiro jogo com a nova formação foi um desastre. O segundo jogo, uma calamidade. Do terceiro jogo já não posso falar, porque não assisti.
Sem, ao menos, um jantar de despedida, os dirigentes do clube puseram-me na rua.
Sim, era eu o treinador da equipa, esqueci-me de avisar no princípio.
Depois deste desaire, nunca mais voltei a um estádio. Mudei de vida. Empreguei-me a escrever histórias...
Mas uma coisa aprendi da minha passagem pelo desporto: com Nervos e Medo juntos, nunca se consegue ganhar.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Hoje vou falar de futebol.
Era uma vez um jogador que se chamava Medo. Um grande jogador!
- Vamos jogar contra o Medo - diziam, antes do desafio, os adversários, cheios de medo.
Mas, um dia, lesionou-se .
- Estamos muito desfalcados - lamentavam-se os companheiros de equipa. - Sem o Medo não é a mesma coisa.
Foram buscar o suplente.
Por acaso, o rapaz até se chamava Nervos. Era o Zé Nervos, não muito jeitoso a dominar a bola, mas com uma potência no remate de virar os guarda-redes do avesso.
Já o primo dele, o Chico Nervos, que também jogava, mas a meio-campo, não havia quem o suplantasse como armador de jogo.
- Rapazes, hoje a táctica é toda por conta dos Nervos - anunciava o treinador, nos balneários. - Com os Nervos ao ataque, temos a vitória garantida.
E tiveram.
Naquele jogo e no outro e nos outros que se seguiram o êxito foi estrondoso. Os adversários levavam abadas de chocar.
- Vocês não têm mais irmãos ou primos com queda para o futebol? - perguntava aos dois Nervos o treinador. - Se tiverem, eu contrato-os. Com os Nervos todos do nosso lado, bem controlados por mim, seremos imbatíveis.
Por sinal que eles não tinham mais parentes virados para o desporto. Eram os únicos Nervos futebolistas da família. Mas chegavam.
- Nervos! Nervos! Nervos! - gritavam os espectadores, nas bancadas.
Até parecia que a força dos Nervos se comunicava aos restantes jogadores.
Tanto se destacavam os primos que os jornais quase se esqueceram do nome dos outros futebolistas, do treinador e do próprio clube, para apenas designarem a equipa com títulos deste género: avalanche de Nervos, Nervos a mais, ataque de Nervos, com uns entusiasmos e uns exageros que - brr! - até enervavam.
Entretanto, o Medo, aquele jogador que se tinha lesionado no princípio da história, restabeleceu-se. Estava, de novo, pronto para jogar.
O treinador fez umas substituições, uns acertos e, sem dispensar os primos Nervos, mandou vir o Medo.
- Por este andar, com uma equipa deste nível, vamos ganhar a Taça das Taças das Taças das Taças - dizia o treinador, a esfregar as mãos e a rir-se.
Riso de pouca dura. O primeiro jogo com a nova formação foi um desastre. O segundo jogo, uma calamidade. Do terceiro jogo já não posso falar, porque não assisti.
Sem, ao menos, um jantar de despedida, os dirigentes do clube puseram-me na rua.
Sim, era eu o treinador da equipa, esqueci-me de avisar no princípio.
Depois deste desaire, nunca mais voltei a um estádio. Mudei de vida. Empreguei-me a escrever histórias...
Mas uma coisa aprendi da minha passagem pelo desporto: com Nervos e Medo juntos, nunca se consegue ganhar.
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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