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Ilustração de abertura da história «O Jornalista das Perguntas».

14 de Dezembro

O Jornalista das Perguntas

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Aquele jornalista que, por tudo e por nada, anda sempre a perguntar coisas teve a ideia de fazer um inquérito. Ia por aí, de mãos atrás das costas, e ao primeiro que lhe aparecesse perguntava:

- O que é que quis ser, quando era pequeno?

Depois somava, comparava e tirava percentagens.

Tantos queriam ser arquitectos, tantos queriam ser médicos, tantos queriam ser aviadores... Chama-se a isto uma estatística.

Para começar a tal estatística, perguntou primeiro a um rio:

- O que é que quis ser, quando era pequeno?

Era uma ribeiro pouco profundo, mas que sabia o que queria.

Respondeu:

- Quando era pequeno, só um fiozinho de água a escorrer da nascente, eu queria ser um grande rio, desses que são cruzados por vapores, visitados por paquetes, atravessados por pontes enormes. E ainda não desisti.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O jornalista registou e foi perguntar a mesma coisa a uma arvorezeca, que lhe dava pelo ombro.

Respondeu-lhe ela:

- Quando era pequena, só uma haste a romper da terra, eu queria ser uma grande árvore, dessas que dão sombra a um rancho inteiro de camponeses ou a um dilatado piquenique de excursionistas. E ainda não desisti.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O jornalista registou e foi perguntar a mesma coisa a uma casa, duas janelas e uma porta ou pouco mais.

Resposta dela:

- Quando eu era pequena, só um tijolo em cima de outro, eu queria ser um bairro com muitas ruas, onde coubessem muitas famílias, e que tivesse lojas, escola, correio, igreja. E ainda não desisti.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O jornalista, farto do inquérito, ficou-se por aqui. Entretanto, concluiu que muitas coisas (e talvez até pessoas!) quiseram ser, em pequenas, o que acabaram por não conseguir ser quando cresceram.

Ficaram-se a meio caminho das suas aspirações, dos seus sonhos, dos seus desejos. Coitadas delas, pensou o jornalista, encolhendo os ombros. E partiu, a toda a pressa, para outro inquérito.

Afinal, o jornalista estava a tirar conclusões precipitadas.

Se tivesse prosseguido na investigação, se tivesse tido mais paciência, saberia que o rio, ao fim de muita água, muito caminho, se transformou no grande rio da sua ambição.

Saberia que a arvorezeca, ao fim de muitos Invernos e muitas Primaveras, se transformou na imponente árvore da sua vontade.

Saberia que a casinha, ao fim de muitos anos, muitos trabalhos, junta com outras casas, formou o bairro do seu muito querer, das suas mais profundas esperanças.

Mas onde é que já ia o apressado jornalista quando isto tudo, finalmente, aconteceu?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O Jornalista das Perguntas
Ilustração original recuperada

Aquele jornalista que, por tudo e por nada, anda sempre a perguntar coisas teve a ideia de fazer um inquérito. Ia por aí, de mãos atrás das costas, e ao primeiro que lhe aparecesse perguntava:

- O que é que quis ser, quando era pequeno?

Depois somava, comparava e tirava percentagens.

Tantos queriam ser arquitectos, tantos queriam ser médicos, tantos queriam ser aviadores... Chama-se a isto uma estatística.

Para começar a tal estatística, perguntou primeiro a um rio:

- O que é que quis ser, quando era pequeno?

Era uma ribeiro pouco profundo, mas que sabia o que queria.

Respondeu:

- Quando era pequeno, só um fiozinho de água a escorrer da nascente, eu queria ser um grande rio, desses que são cruzados por vapores, visitados por paquetes, atravessados por pontes enormes. E ainda não desisti.

O jornalista registou e foi perguntar a mesma coisa a uma arvorezeca, que lhe dava pelo ombro.

Respondeu-lhe ela:

- Quando era pequena, só uma haste a romper da terra, eu queria ser uma grande árvore, dessas que dão sombra a um rancho inteiro de camponeses ou a um dilatado piquenique de excursionistas. E ainda não desisti.

O jornalista registou e foi perguntar a mesma coisa a uma casa, duas janelas e uma porta ou pouco mais.

Resposta dela:

- Quando eu era pequena, só um tijolo em cima de outro, eu queria ser um bairro com muitas ruas, onde coubessem muitas famílias, e que tivesse lojas, escola, correio, igreja. E ainda não desisti.

O jornalista, farto do inquérito, ficou-se por aqui. Entretanto, concluiu que muitas coisas (e talvez até pessoas!) quiseram ser, em pequenas, o que acabaram por não conseguir ser quando cresceram.

Ficaram-se a meio caminho das suas aspirações, dos seus sonhos, dos seus desejos. Coitadas delas, pensou o jornalista, encolhendo os ombros. E partiu, a toda a pressa, para outro inquérito.

Afinal, o jornalista estava a tirar conclusões precipitadas.

Se tivesse prosseguido na investigação, se tivesse tido mais paciência, saberia que o rio, ao fim de muita água, muito caminho, se transformou no grande rio da sua ambição.

Saberia que a arvorezeca, ao fim de muitos Invernos e muitas Primaveras, se transformou na imponente árvore da sua vontade.

Saberia que a casinha, ao fim de muitos anos, muitos trabalhos, junta com outras casas, formou o bairro do seu muito querer, das suas mais profundas esperanças.

Mas onde é que já ia o apressado jornalista quando isto tudo, finalmente, aconteceu?

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