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Ilustração de abertura da história «A Pasta de Cabedal».

13 de Dezembro

A Pasta de Cabedal

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Iam dois vagabundos por uma estrada, quando encontraram, do lado de fora de um portão de quinta rica, uma pasta de cabedal, daquelas que se está mesmo a ver que pertencem ou a banqueiros ou a financeiros ou a gente assim, com muito cabedal.

Os dois vagabundos olharam para a pasta, olharam um para o outro e, enquanto o diabo esfrega um olho, raparam da pasta e rasparam-se, antes que aparecessem outros atrás, que fizessem o mesmo.

Numa curva mais adiante, cansados da corrida, abrandaram de velocidade e abriram um dos fechos da pasta.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O que viram deixou-os de olhos deslumbrados e redondos que nem os do goraz.

A pasta estava cheia de notas.

Até parecia que a descoberta lhes trouxera novas forças, porque voltaram a correr desalmadamente, esquecidos do cansaço, da fraqueza, de tudo.

Mas tanta correria acaba por esfalfar o coração e as pernas até dos mais premiados corredores olímpicos.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando pararam, ensopados de suor, o que levava a pasta debaixo do braço, depois de engolir várias vezes em seco, disse:

- Com este tesouro que achei vou saber como é ser rico.

O outro protestou:

- Mas fomos nós dois que achámos. O recheio da pasta pertence a ambos.

- Isso querias tu - disse o primeiro vagabundo, apertando ainda mais a pasta de encontro ao corpo. - A pasta é minha.

- É nossa...

- É minha...

- É nossa...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Nisto ouviram uma voz gritar-lhes:

- Eh, pessoal! Para onde levam vocês essa pasta do senhor doutor?

Era um latagão, fardado de motorista. Não se lhe via o carro, mas, em tamanho e cilindrada, havia de condizer com ele. O homenzarrão tinha aparecido de surpresa, vindo de uma cancela do mesmo lado do portão da tal quinta.

O vagabundo que segurava a pasta ficou em pânico:

- Agora é que estamos tramados.

Lá se vai a nossa pasta.

- Ai agora já é nossa? - riu-se o outro. - Presta tu contas dela, que eu não tenho nada a ver com isso.

E desamparou-o às mãos do motorista.

De pouco lhe valeu, porque o gigante justiceiro tratou da saúde ao que chamara a pasta a si e ainda lhe sobrou tempo para dar outra sova ao que se desligara da questão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Depois afastou-se gloriosamente, com a pasta recuperada debaixo do braço, enquanto os dois vagabundos saboreavam o pó da estrada.

- Que grande coça que nós levámos - dizia um deles, não interessa qual.

O outro, qualquer que ele fosse, concordou...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para A Pasta de Cabedal
Ilustração original recuperada

Iam dois vagabundos por uma estrada, quando encontraram, do lado de fora de um portão de quinta rica, uma pasta de cabedal, daquelas que se está mesmo a ver que pertencem ou a banqueiros ou a financeiros ou a gente assim, com muito cabedal.

Os dois vagabundos olharam para a pasta, olharam um para o outro e, enquanto o diabo esfrega um olho, raparam da pasta e rasparam-se, antes que aparecessem outros atrás, que fizessem o mesmo.

Numa curva mais adiante, cansados da corrida, abrandaram de velocidade e abriram um dos fechos da pasta.

O que viram deixou-os de olhos deslumbrados e redondos que nem os do goraz.

A pasta estava cheia de notas.

Até parecia que a descoberta lhes trouxera novas forças, porque voltaram a correr desalmadamente, esquecidos do cansaço, da fraqueza, de tudo.

Mas tanta correria acaba por esfalfar o coração e as pernas até dos mais premiados corredores olímpicos.

Quando pararam, ensopados de suor, o que levava a pasta debaixo do braço, depois de engolir várias vezes em seco, disse:

- Com este tesouro que achei vou saber como é ser rico.

O outro protestou:

- Mas fomos nós dois que achámos. O recheio da pasta pertence a ambos.

- Isso querias tu - disse o primeiro vagabundo, apertando ainda mais a pasta de encontro ao corpo. - A pasta é minha.

- É nossa...

- É minha...

- É nossa...

Nisto ouviram uma voz gritar-lhes:

- Eh, pessoal! Para onde levam vocês essa pasta do senhor doutor?

Era um latagão, fardado de motorista. Não se lhe via o carro, mas, em tamanho e cilindrada, havia de condizer com ele. O homenzarrão tinha aparecido de surpresa, vindo de uma cancela do mesmo lado do portão da tal quinta.

O vagabundo que segurava a pasta ficou em pânico:

- Agora é que estamos tramados.

Lá se vai a nossa pasta.

- Ai agora já é nossa? - riu-se o outro. - Presta tu contas dela, que eu não tenho nada a ver com isso.

E desamparou-o às mãos do motorista.

De pouco lhe valeu, porque o gigante justiceiro tratou da saúde ao que chamara a pasta a si e ainda lhe sobrou tempo para dar outra sova ao que se desligara da questão.

Depois afastou-se gloriosamente, com a pasta recuperada debaixo do braço, enquanto os dois vagabundos saboreavam o pó da estrada.

- Que grande coça que nós levámos - dizia um deles, não interessa qual.

O outro, qualquer que ele fosse, concordou...

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