7 de Dezembro
Sape, Cão!
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Era uma vez um cão com dono...
Era uma vez um gato sem dono...
- Quem vem lá? - pergunta o cão, de focinho no ar, a farejar, a farejar...
Claro que esta pergunta a fez ele muito antes de tudo isto começar - aí a uns duzentos metros desta história.
O gato não tem o faro tão apurado, mas os olhos dele atravessam a distância e pressentem sombras e ameaças, que só ele conhece. Por acaso, desta vez, o gato não ia a olhar para onde devia. Era um gato distraído. Ou míope.
Quando se lhe eriçaram os bigodes, já era tarde. À sua frente, de supetão, um cão cãozarrão, voz de trovão...
Que aflição!
Foge!
Antes que lhe dissessem, já ele tinha fugido. As patas iam à frente, e ele com elas. Tal como nos filmes de desenhos animados.
Este filme é curto. Acaba numa árvore sem frutos, sem folhas, uma árvore mesmo a propósito para salvar gatos.
Correu por ela acima e não deu por que subia.
Nem que fosse um pinheiro gigante, um mastro, um muro de castelo. Nem que fosse a Torre Eiffel... De unhas-canivetes-picaretas, com a pressa atarantada em que ia, o gato até era capaz de trepar à Lua, se houvesse escadas para lá chegar.
Ficou-se pelo cimo da árvore. Deu por isso quando lhe faltou o apoio. Sobravam-lhe forças para muito mais lances.
- E agora? - perguntou, lá de acima, o gato, engolindo ar.
Ele era preto, como o corvo da fábula, enquanto o cão, mal acomparado, fazia as vezes da raposa. Faltava apenas o queijo. E a manha.
- E agora? - perguntou de novo o gato, mais seguro do seu poiso.
- Agora fico à espera que a árvore dê frutos e os frutos caiam de maduros...
- rosnou o cão.
Se nos ficássemos por aqui, esta história não chegava ao fim, o que era pena. Temos nós, portanto, de acrescentar o mais importante da fábula.
Sim, porque isto é uma fábula, a do cão, animal doméstico, e do gato, animal vadio... As conclusões, vocês que as tirem.
- Piloto! - chamou uma voz ao longe.
O cão Piloto fingiu que não era com ele.
- Estão a chamar-te, Piloto. Tens de ir - aconselhava-lhe, do seu poleiro, o gato. - Sempre ouvi dizer que os cães são muito obedientes.
- Piloto! - repetiu a voz, mais perto e mais impaciente.
O cão rosnou, levantou os traseiros e voltou a sentar-se.
- Piloto, venha já ao dono!
- gritou a voz ameaçadoramente perto.
E o Piloto, de cabeça baixa, lá foi, suspirando...
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Era uma vez um cão com dono...
Era uma vez um gato sem dono...
- Quem vem lá? - pergunta o cão, de focinho no ar, a farejar, a farejar...
Claro que esta pergunta a fez ele muito antes de tudo isto começar - aí a uns duzentos metros desta história.
O gato não tem o faro tão apurado, mas os olhos dele atravessam a distância e pressentem sombras e ameaças, que só ele conhece. Por acaso, desta vez, o gato não ia a olhar para onde devia. Era um gato distraído. Ou míope.
Quando se lhe eriçaram os bigodes, já era tarde. À sua frente, de supetão, um cão cãozarrão, voz de trovão...
Que aflição!
Foge!
Antes que lhe dissessem, já ele tinha fugido. As patas iam à frente, e ele com elas. Tal como nos filmes de desenhos animados.
Este filme é curto. Acaba numa árvore sem frutos, sem folhas, uma árvore mesmo a propósito para salvar gatos.
Correu por ela acima e não deu por que subia.
Nem que fosse um pinheiro gigante, um mastro, um muro de castelo. Nem que fosse a Torre Eiffel... De unhas-canivetes-picaretas, com a pressa atarantada em que ia, o gato até era capaz de trepar à Lua, se houvesse escadas para lá chegar.
Ficou-se pelo cimo da árvore. Deu por isso quando lhe faltou o apoio. Sobravam-lhe forças para muito mais lances.
- E agora? - perguntou, lá de acima, o gato, engolindo ar.
Ele era preto, como o corvo da fábula, enquanto o cão, mal acomparado, fazia as vezes da raposa. Faltava apenas o queijo. E a manha.
- E agora? - perguntou de novo o gato, mais seguro do seu poiso.
- Agora fico à espera que a árvore dê frutos e os frutos caiam de maduros...
- rosnou o cão.
Se nos ficássemos por aqui, esta história não chegava ao fim, o que era pena. Temos nós, portanto, de acrescentar o mais importante da fábula.
Sim, porque isto é uma fábula, a do cão, animal doméstico, e do gato, animal vadio... As conclusões, vocês que as tirem.
- Piloto! - chamou uma voz ao longe.
O cão Piloto fingiu que não era com ele.
- Estão a chamar-te, Piloto. Tens de ir - aconselhava-lhe, do seu poleiro, o gato. - Sempre ouvi dizer que os cães são muito obedientes.
- Piloto! - repetiu a voz, mais perto e mais impaciente.
O cão rosnou, levantou os traseiros e voltou a sentar-se.
- Piloto, venha já ao dono!
- gritou a voz ameaçadoramente perto.
E o Piloto, de cabeça baixa, lá foi, suspirando...
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