23 de Novembro
Duas Mulas
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Iam duas mulas por uma estrada. Lado a lado trotavam.
Uma, que trazia nos alforges batatas e legumes para o mercado, talvez por ser mais nova, adiantou-se à outra mula.
Logo a mais velha a chamou à pedra:
– Então que é lá isso, sua serigaita. Já não há respeito pela nobreza? Com que direito me ultrapassa a mim, que valho um milhão de vezes mais do que você?
A mula nova, que não estava para despiques, susteve o passo e deixou-a passar à frente. Mas, por curiosidade, perguntou-lhe:
– Porque é que vossemecê vale assim tanto mais do que eu?
– Porque trago uma fortuna que não faz ideia. Pratas lavradas, castiçais doirados, loiças da Índia e um saco de libras em ouro. Sou uma mula rica, ao passo que você, sua pindérica, é apenas uma mula com dois sacos de batatas e umas hortaliças.
E lá seguiu à frente, majestosa.
A mula nova deixou-a ir. Companheiras de viagem daquele estilo dispensava.
Apartadas pela diferença de riquezas, também, na estrada, a distância entre uma e outra era cada vez maior.
Perderam-se de vista.
Voltaram a encontrar-se no mercado. A mula velha, descarregada do seu tesouro, metia dó. Andavam as moscas à volta dela. Estava à venda, mas ninguém a queria.
– Que lhe sucedeu para vir parar a esta miséria? – perguntou a mula nova, aliviada do peso das batatas.
– Uma grande desgraça – contou a mula velha. – Depois de nos separarmos, fui assaltada por uns bandidos, que me levaram tudo o que trazia comigo e ainda me moeram de pancada. Andei aos tombos, por aí, até vir ter a esta feira de animais para abate.
Vá lá que o dono da mula nova se tentou pela pechincha que pediam pela mula velha, e comprou-a.
– Vamos ser colegas – disse a mula nova. – Agora o que temos é de levar para a quinta o que o nosso dono trocou pelas batatas.
– E qual é a qualidade do carregamento? – perguntou a mula velha, que já conhecera pesos de muito preço e importância.
– Não é carga pesada. Isso é que me interessa – respondeu a nova.
– Mas de que qualidade? – insistiu a mais velha.
– Estrume – respondeu a nova, muito mula, a mostrar as favolas, cheia de riso.
– Ah, estrume… – repetiu, desolada, a mais velha. – Nunca imaginei. Mas calhou assim. É a vida.
Isto dito a meio de um fundo suspiro. Pois. É a vida…
FIM
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Iam duas mulas por uma estrada. Lado a lado trotavam.
Uma, que trazia nos alforges batatas e legumes para o mercado, talvez por ser mais nova, adiantou-se à outra mula.
Logo a mais velha a chamou à pedra:
– Então que é lá isso, sua serigaita. Já não há respeito pela nobreza? Com que direito me ultrapassa a mim, que valho um milhão de vezes mais do que você?
A mula nova, que não estava para despiques, susteve o passo e deixou-a passar à frente. Mas, por curiosidade, perguntou-lhe:
– Porque é que vossemecê vale assim tanto mais do que eu?
– Porque trago uma fortuna que não faz ideia. Pratas lavradas, castiçais doirados, loiças da Índia e um saco de libras em ouro. Sou uma mula rica, ao passo que você, sua pindérica, é apenas uma mula com dois sacos de batatas e umas hortaliças.
E lá seguiu à frente, majestosa.
A mula nova deixou-a ir. Companheiras de viagem daquele estilo dispensava.
Apartadas pela diferença de riquezas, também, na estrada, a distância entre uma e outra era cada vez maior.
Perderam-se de vista.
Voltaram a encontrar-se no mercado. A mula velha, descarregada do seu tesouro, metia dó. Andavam as moscas à volta dela. Estava à venda, mas ninguém a queria.
– Que lhe sucedeu para vir parar a esta miséria? – perguntou a mula nova, aliviada do peso das batatas.
– Uma grande desgraça – contou a mula velha. – Depois de nos separarmos, fui assaltada por uns bandidos, que me levaram tudo o que trazia comigo e ainda me moeram de pancada. Andei aos tombos, por aí, até vir ter a esta feira de animais para abate.
Vá lá que o dono da mula nova se tentou pela pechincha que pediam pela mula velha, e comprou-a.
– Vamos ser colegas – disse a mula nova. – Agora o que temos é de levar para a quinta o que o nosso dono trocou pelas batatas.
– E qual é a qualidade do carregamento? – perguntou a mula velha, que já conhecera pesos de muito preço e importância.
– Não é carga pesada. Isso é que me interessa – respondeu a nova.
– Mas de que qualidade? – insistiu a mais velha.
– Estrume – respondeu a nova, muito mula, a mostrar as favolas, cheia de riso.
– Ah, estrume… – repetiu, desolada, a mais velha. – Nunca imaginei. Mas calhou assim. É a vida.
Isto dito a meio de um fundo suspiro. Pois. É a vida…
FIM
Imagens recuperadas
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
Palavras da história
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Recuperação
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