• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «O Capuchinho e o Lobo».

21 de Novembro

O Capuchinho e o Lobo

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era um frade de capuz descido, a caminho do mosteiro, no cimo da serra.

A friagem do princípio da noite era de respeito. Vinha tocada pelo vento, que assobiava pelas frinchas dos rochedos e despenteava as copas dos pinheiros. O frade tremia.

Tremia de frio ou tremia de medo?

Vai-se lá saber, mas o mais certo é que se juntassem nos mesmos sítios do corpo as duas tremuras. As pernas vacilavam-lhe. Os dentes tiniam-lhe uns de encontro aos outros, enquanto balbuciava uma prece incerta:

- Que Santa-ta-ta Bár-ba-ba-ra me-me livre dos lo-bos-bos-bos...

Nem de propósito.

Salta-lhe um lobo ao caminho, com os olhos em fogo e uma dentadura de escárnio e malvadez, que metia impressão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Vais para casa da avozinha? - perguntou-lhe o lobo, que sabia da história antiga o suficiente.

Tinham-lhe contado em pequeno, com muitos pormenores que ele já esquecera.

Do essencial ainda se lembrava. Como estava escuro, o lobo não distinguia a cor do capuz nem isso lhe importava muito.

- Levas merenda para a viagem? - insistiu o lobo, perante o silêncio do frade encapuçado.

O caminho era ruim, com lombas e pedras soltas, mas o frade não se queixou e seguiu por ele adiante, em passo cada vez mais estugado, como se a conversa não fosse com ele. O lobo à cola.

- Ó capuchinho, então tu não falas? - soprava-lhe o lobo às canelas. - O que é que tu levas de comer para a avozinha?

Um frango assado? Presunto? Compota? Biscoitos?

O lobo, a dizer estas coisas, babava-se que era uma vergonha. E o frade, moita!

- A avozinha, à tua espera, já deve estar em cuidado. Queres que eu vá, à frente, avisá-la de que não tardas? Depois esperamos por ti... Onde é que ela mora?

Nesta oportunidade, o frade podia safar-se.

Dizendo onde morava a avozinha, mandava o lobo descer até um posto da guarda, nos baixos da serra. Os guardas florestais, de espingarda pronta, dariam conta do resto da história...

Mas o frade não queria nem sabia mentir.

E continuou calado, as forças todas concentradas na corrida e no fio do caminho, que nunca mais chegava ao fim.

- Ó capuchinho, que pressa a tua! Quando tu chegares a casa da avó, ainda ela se zanga contigo, se te vê toda suada, nesse desalinho de menina tontelas...

Neste ponto, o frade, não aguentando mais o bafo do lobo, gritou, num desespero:

- Não tenho avó e para onde eu vou é para o convento, se Deus quiser.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A voz do frade era forte e grossa, apesar da fraqueza das pernas e dos saltos do coração. Pasmou o lobo:

- Vossa senhoria desculpe, mas eu não sabia que o capuchinho tinha professado. Ou então enganei-me eu na história...

E o lobo meteu o rabo entre as pernas e deixou o frade em paz.

Já no meio do mato, apagado o fogo dos olhos, meneando a cabeça, o lobo matutava:

- Quando a gente é pequena acredita em tudo o que nos contam... Nunca supus que o capuchinho tivesse voz de trovão. Até se me puseram os pelos em pé do susto que apanhei.

E o lobo pôs-se a alisar os pelos do dorso com a língua salivosa. Se a noite desse para vê-lo, dir-se-ia um cachorrinho desapontado. Metia pena.

Por sua vez, o frade, que, derreado, já se aproximava dos muros do convento, ainda teve fôlego para lançar às estrelas a sua possante voz, num cântico de louvor a Santa Bárbara, madrinha dos caminhantes, amansadora da braveza das feras.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Era um frade de capuz descido, a caminho do mosteiro, no cimo da serra.

A friagem do princípio da noite era de respeito. Vinha tocada pelo vento, que assobiava pelas frinchas dos rochedos e despenteava as copas dos pinheiros. O frade tremia.

Tremia de frio ou tremia de medo?

Vai-se lá saber, mas o mais certo é que se juntassem nos mesmos sítios do corpo as duas tremuras. As pernas vacilavam-lhe. Os dentes tiniam-lhe uns de encontro aos outros, enquanto balbuciava uma prece incerta:

- Que Santa-ta-ta Bár-ba-ba-ra me-me livre dos lo-bos-bos-bos...

Nem de propósito.

Salta-lhe um lobo ao caminho, com os olhos em fogo e uma dentadura de escárnio e malvadez, que metia impressão.

- Vais para casa da avozinha? - perguntou-lhe o lobo, que sabia da história antiga o suficiente.

Tinham-lhe contado em pequeno, com muitos pormenores que ele já esquecera.

Do essencial ainda se lembrava. Como estava escuro, o lobo não distinguia a cor do capuz nem isso lhe importava muito.

- Levas merenda para a viagem? - insistiu o lobo, perante o silêncio do frade encapuçado.

O caminho era ruim, com lombas e pedras soltas, mas o frade não se queixou e seguiu por ele adiante, em passo cada vez mais estugado, como se a conversa não fosse com ele. O lobo à cola.

- Ó capuchinho, então tu não falas? - soprava-lhe o lobo às canelas. - O que é que tu levas de comer para a avozinha?

Um frango assado? Presunto? Compota? Biscoitos?

O lobo, a dizer estas coisas, babava-se que era uma vergonha. E o frade, moita!

- A avozinha, à tua espera, já deve estar em cuidado. Queres que eu vá, à frente, avisá-la de que não tardas? Depois esperamos por ti... Onde é que ela mora?

Nesta oportunidade, o frade podia safar-se.

Dizendo onde morava a avozinha, mandava o lobo descer até um posto da guarda, nos baixos da serra. Os guardas florestais, de espingarda pronta, dariam conta do resto da história...

Mas o frade não queria nem sabia mentir.

E continuou calado, as forças todas concentradas na corrida e no fio do caminho, que nunca mais chegava ao fim.

- Ó capuchinho, que pressa a tua! Quando tu chegares a casa da avó, ainda ela se zanga contigo, se te vê toda suada, nesse desalinho de menina tontelas...

Neste ponto, o frade, não aguentando mais o bafo do lobo, gritou, num desespero:

- Não tenho avó e para onde eu vou é para o convento, se Deus quiser.

A voz do frade era forte e grossa, apesar da fraqueza das pernas e dos saltos do coração. Pasmou o lobo:

- Vossa senhoria desculpe, mas eu não sabia que o capuchinho tinha professado. Ou então enganei-me eu na história...

E o lobo meteu o rabo entre as pernas e deixou o frade em paz.

Já no meio do mato, apagado o fogo dos olhos, meneando a cabeça, o lobo matutava:

- Quando a gente é pequena acredita em tudo o que nos contam... Nunca supus que o capuchinho tivesse voz de trovão. Até se me puseram os pelos em pé do susto que apanhei.

E o lobo pôs-se a alisar os pelos do dorso com a língua salivosa. Se a noite desse para vê-lo, dir-se-ia um cachorrinho desapontado. Metia pena.

Por sua vez, o frade, que, derreado, já se aproximava dos muros do convento, ainda teve fôlego para lançar às estrelas a sua possante voz, num cântico de louvor a Santa Bárbara, madrinha dos caminhantes, amansadora da braveza das feras.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto narrativo foi recuperado da página HTML original arquivada. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Pendente