• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «As Moscas».

18 de Novembro

As Moscas

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Uma mosca. Duas moscas. Três moscas. Três moscas paradas a conversar. De que falavam? Falavam do problema da alimentação.

Dizia uma:

– Tem sido uma crise, colegas. Toda a comida guardada em frigoríficos e armários, trancada a sete chaves. Ninguém lhe chega.

Dizia a outra:

– E os venenos que nos lançam, colegas. Os insecticidas… Que horror!

A terceira mosca permanecia calada. As outras viraram-se para ela. Miraram-na.

– Agora é que reparo. Como a colega está gorda!

– … e bonita – completou a segunda. – Por onde é que se tem governado a colega?

– Por aí… Por aí… – respondeu a mosquinha bem alimentada.

E voou, dizendo adeus.

As duas moscas esfomeadas comentaram:

– Ela esconde-nos alguma coisa. Vamos atrás dela.

Voaram também, dançaram no ar, disfarçando os seus intentos, enquanto a outra se distanciava. Quando a viram dobrar uma esquina, voaram em sua perseguição, sem que a mosca gorda e bem parecida se apercebesse. Repare, colega, repare como ela se refastela com aquele pires de leite.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Leite? Não me fale nisso. Vamos a ele. Estou com a fome de um enxame de moscas. Vamos ao leite!

Aterraram perigosamente na borda do pires. A mosca gorda e bem parecida ficou muito mal-disposta, ao ver as outras duas:

– Como vieram aqui parar?

– O acaso… – responderam as duas manhosas.

Beberam daquele leite até se fartarem. Depois foi o ajuste de contas.

– Então a colega tinha aqui esta mina escondida e não dizia nada às suas amigas?

– Este leite não é meu. Põe-o aqui, todos os dias, o dono do Tareco, para ele beber.

– E a colega tem-se banqueteado. Pois agora somos três, isto é, quatro contando com o Tareco, pois também chega e sobeja para ele… Conte connosco.

E desapareceram.

A outra, a mosca gorda e bem parecida, má camarada, pouco amiga de partilhas, ficou sozinha a remorder vingança. "Esperem pela pancada, esperem!"

No dia seguinte foi ela a primeira a chegar ao pátio, onde a D. Zulmira deixava, como habitualmente, o pires de sopas de leite para o seu Tareco. Mas desta vez, no lugar do pires de leite estava um enorme balde.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Oh! Oh! Um balde cheio de leite – exclamou a mosca gorda e bem parecida. – Toca a bebê-lo todo, antes que venham aquelas fedúncias, aquelas invejosas… E sem pensar duas vezes lançou-se sobre o balde, em voo picado.

Mosca tola. Mosca sôfrega. O balde continha não leite, mas cal, cal de caiar as paredes. A mosca gorda e bem parecida engoliu cal em vez de leite. Na cal caiu, na cal morreu.

As outras duas moscas, as moscas laricas, ao aproximarem-se, ainda ouviram uns vagos pedidos de socorro, que se perderam no ar. Quando chegaram, a mosca gorda e bem parecida estava morta.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– É bem feito! – comentou uma das moscas. – Não queria partilhar connosco, morreu do seu mau carácter. Bem, vamos ao nosso pires de leite.

Voaram para o pires, que estava a pequena distância do balde. Ao chegarem, a outra mosca, mais bondosa, não soube calar este comentário:

– Tenho pena dela. Sim, porque onde comem duas moscas, também comem três…

– Isso, isso, colega! Se ela assim pensasse, não teria morrido e se todos assim pensassem, o mundo seria muito melhor, olá se seria!

A mosca triste e pensativa concluiu:

– Bem, bem, vamos beber depressa o nosso leite, antes que venha o gato, ou alguma mosca esfomeada e invejosa da felicidade das outras…

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Uma mosca. Duas moscas. Três moscas. Três moscas paradas a conversar. De que falavam? Falavam do problema da alimentação.

Dizia uma:

– Tem sido uma crise, colegas. Toda a comida guardada em frigoríficos e armários, trancada a sete chaves. Ninguém lhe chega.

Dizia a outra:

– E os venenos que nos lançam, colegas. Os insecticidas… Que horror!

A terceira mosca permanecia calada. As outras viraram-se para ela. Miraram-na.

– Agora é que reparo. Como a colega está gorda!

– … e bonita – completou a segunda. – Por onde é que se tem governado a colega?

– Por aí… Por aí… – respondeu a mosquinha bem alimentada.

E voou, dizendo adeus.

As duas moscas esfomeadas comentaram:

– Ela esconde-nos alguma coisa. Vamos atrás dela.

Voaram também, dançaram no ar, disfarçando os seus intentos, enquanto a outra se distanciava. Quando a viram dobrar uma esquina, voaram em sua perseguição, sem que a mosca gorda e bem parecida se apercebesse. Repare, colega, repare como ela se refastela com aquele pires de leite.

– Leite? Não me fale nisso. Vamos a ele. Estou com a fome de um enxame de moscas. Vamos ao leite!

Aterraram perigosamente na borda do pires. A mosca gorda e bem parecida ficou muito mal-disposta, ao ver as outras duas:

– Como vieram aqui parar?

– O acaso… – responderam as duas manhosas.

Beberam daquele leite até se fartarem. Depois foi o ajuste de contas.

– Então a colega tinha aqui esta mina escondida e não dizia nada às suas amigas?

– Este leite não é meu. Põe-o aqui, todos os dias, o dono do Tareco, para ele beber.

– E a colega tem-se banqueteado. Pois agora somos três, isto é, quatro contando com o Tareco, pois também chega e sobeja para ele… Conte connosco.

E desapareceram.

A outra, a mosca gorda e bem parecida, má camarada, pouco amiga de partilhas, ficou sozinha a remorder vingança. "Esperem pela pancada, esperem!"

No dia seguinte foi ela a primeira a chegar ao pátio, onde a D. Zulmira deixava, como habitualmente, o pires de sopas de leite para o seu Tareco. Mas desta vez, no lugar do pires de leite estava um enorme balde.

– Oh! Oh! Um balde cheio de leite – exclamou a mosca gorda e bem parecida. – Toca a bebê-lo todo, antes que venham aquelas fedúncias, aquelas invejosas… E sem pensar duas vezes lançou-se sobre o balde, em voo picado.

Mosca tola. Mosca sôfrega. O balde continha não leite, mas cal, cal de caiar as paredes. A mosca gorda e bem parecida engoliu cal em vez de leite. Na cal caiu, na cal morreu.

As outras duas moscas, as moscas laricas, ao aproximarem-se, ainda ouviram uns vagos pedidos de socorro, que se perderam no ar. Quando chegaram, a mosca gorda e bem parecida estava morta.

– É bem feito! – comentou uma das moscas. – Não queria partilhar connosco, morreu do seu mau carácter. Bem, vamos ao nosso pires de leite.

Voaram para o pires, que estava a pequena distância do balde. Ao chegarem, a outra mosca, mais bondosa, não soube calar este comentário:

– Tenho pena dela. Sim, porque onde comem duas moscas, também comem três…

– Isso, isso, colega! Se ela assim pensasse, não teria morrido e se todos assim pensassem, o mundo seria muito melhor, olá se seria!

A mosca triste e pensativa concluiu:

– Bem, bem, vamos beber depressa o nosso leite, antes que venha o gato, ou alguma mosca esfomeada e invejosa da felicidade das outras…

FIM

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto foi recuperado do PDF original arquivado através da sua camada de texto. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Abrir PDF recuperado