15 de Novembro
O Senhor Frutuoso Inventor
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
O senhor Frutuoso é um grande inventor. Entre máquinas e maquinetas da sua particular invenção tem em casa para cima de uma centena.
Juntem-lhe as máquinas e maquinetas que outros inventores, de diversos pontos do mundo, lhe enviam e imaginem como será a casa do senhor Frutuoso, com tantos maquinismos a trabalhar.
Uma barulheira que só ouvindo. Tlim, tcham, pung… Poc, poc, poc… Bié, bié, bié… Bong! Tuque, taque, tique, tuque… Tuque, taque, tique, tuque… A história podia ser toda assim, embora talvez fosse um pouco cansativa.
– Tudo preciosidades – costuma dizer-me o senhor Frutuoso, quando vou visitá-lo e ele me encaminha pelos salões e corredores da sua casa, cheios de vitrines e de prateleiras, carregadas de inventos.
– Repare-me neste prodígio que me mandaram pelo correio – diz-me o senhor Frutuoso, acabando de desembrulhar diante de mim uma enorme encomenda.
– É um bonito relógio de parede – digo eu.
O senhor Frutuoso indigna-se:
– Isto não é num relógio de parede. É um invento fantástico de um ilustre correspondente meu do Brasil, o doutor Janísio Bisnaga Filho, não sei se conhece?
Por sinal, não conheço, mas isso pouco importa.
– Explicou-me o meu amigo Janísio por carta que este relógio tem um mostrador e três ponteiros. Um para as horas, outro para os minutos e o terceiro sabe para quê?
– Naturalmente para os segundos.
– Nada disso. O terceiro é para anunciar o tempo – proclama, entusiasmado, o senhor Frutuoso.
Não se percebe onde está o espanto, porque, tanto quanto sei, todos os relógios anunciam o tempo.
– Não é esse tempo, mas o tempo que vai fazer – impacienta-se o sábio.
– Ah! Anuncia as horas com antecedência… – estranho eu.
– Refiro-me ao tempo atmosférico, o tempo meteorológico, entendeu? Este relógio, além de dar horas, informa-nos, com vinte e quatro horas de antecedência, sobre o tempo que vamos ter, no dia seguinte.
Finalmente, o senhor Frutuoso conseguia fazer-me entender. De facto, o relógio, tal como os barómetros, tinha à roda do mostrador várias indicações: chuva, aguaceiros, tempo variável, bom tempo, etc. Não tinha "etc.", já se vê, mas percebe-se…
O senhor Frutuoso deu-lhe corda e o relógio começou a trabalhar num tic-tac certinho e cumpridor. Reparei que o terceiro ponteiro apontou para as palavras "Tempo quente". Ainda bem.
No dia seguinte, fiado no invento do Doutor Jasmínio Bisnaga Filho, saí de casa à fresca. Pois apanhei uma chuvada e uma friagem que não queiram saber. "Afinal o relógio também se engana", pensei e nunca mais quis saber do caso.
Só há dias, quando tive de telefonar ao senhor Frutuoso por outros assuntos, é que voltei a lembrar-me do caprichoso relógio de parede. Do lado de lá, o senhor Frutuoso atendeu-me, com a voz fanhosa das grandes constipações.
– Estou assim por causa do relógio – explicou. – Tenho-me guiado pelo conselhos dele e não calcula as chuvadas e resfriamentos que suportei, nestes últimos dias. Passa-se qualquer coisa no funcionamento do aparelho, que não entendo. Atchim!
O sábio a espirrar e uma ideia a trespassar-me a cabeça de lado a lado. Botei-a logo cá para fora:
– Se o relógio veio do Brasil, não estará ele regulado para outro clima diferente do nosso? – perguntei.
Fez-se silêncio do outro lado do fio. Depois, o senhor Frutuoso voltou à fala:
– Tem razão, tem toda a razão. O relógio diz que está bom tempo e tempo quente, mas é no Brasil, onde foi montado. Seja como for é um grande invento. Atchim!
E o senhor Frutuoso desligou apressadamente o telefone, para poder assoar-se mais à vontade.
António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.
Ilustração original ainda não recuperada.
O senhor Frutuoso é um grande inventor. Entre máquinas e maquinetas da sua particular invenção tem em casa para cima de uma centena.
Juntem-lhe as máquinas e maquinetas que outros inventores, de diversos pontos do mundo, lhe enviam e imaginem como será a casa do senhor Frutuoso, com tantos maquinismos a trabalhar.
Uma barulheira que só ouvindo. Tlim, tcham, pung… Poc, poc, poc… Bié, bié, bié… Bong! Tuque, taque, tique, tuque… Tuque, taque, tique, tuque… A história podia ser toda assim, embora talvez fosse um pouco cansativa.
– Tudo preciosidades – costuma dizer-me o senhor Frutuoso, quando vou visitá-lo e ele me encaminha pelos salões e corredores da sua casa, cheios de vitrines e de prateleiras, carregadas de inventos.
– Repare-me neste prodígio que me mandaram pelo correio – diz-me o senhor Frutuoso, acabando de desembrulhar diante de mim uma enorme encomenda.
– É um bonito relógio de parede – digo eu.
O senhor Frutuoso indigna-se:
– Isto não é num relógio de parede. É um invento fantástico de um ilustre correspondente meu do Brasil, o doutor Janísio Bisnaga Filho, não sei se conhece?
Por sinal, não conheço, mas isso pouco importa.
– Explicou-me o meu amigo Janísio por carta que este relógio tem um mostrador e três ponteiros. Um para as horas, outro para os minutos e o terceiro sabe para quê?
– Naturalmente para os segundos.
– Nada disso. O terceiro é para anunciar o tempo – proclama, entusiasmado, o senhor Frutuoso.
Não se percebe onde está o espanto, porque, tanto quanto sei, todos os relógios anunciam o tempo.
– Não é esse tempo, mas o tempo que vai fazer – impacienta-se o sábio.
– Ah! Anuncia as horas com antecedência… – estranho eu.
– Refiro-me ao tempo atmosférico, o tempo meteorológico, entendeu? Este relógio, além de dar horas, informa-nos, com vinte e quatro horas de antecedência, sobre o tempo que vamos ter, no dia seguinte.
Finalmente, o senhor Frutuoso conseguia fazer-me entender. De facto, o relógio, tal como os barómetros, tinha à roda do mostrador várias indicações: chuva, aguaceiros, tempo variável, bom tempo, etc. Não tinha "etc.", já se vê, mas percebe-se…
O senhor Frutuoso deu-lhe corda e o relógio começou a trabalhar num tic-tac certinho e cumpridor. Reparei que o terceiro ponteiro apontou para as palavras "Tempo quente". Ainda bem.
No dia seguinte, fiado no invento do Doutor Jasmínio Bisnaga Filho, saí de casa à fresca. Pois apanhei uma chuvada e uma friagem que não queiram saber. "Afinal o relógio também se engana", pensei e nunca mais quis saber do caso.
Só há dias, quando tive de telefonar ao senhor Frutuoso por outros assuntos, é que voltei a lembrar-me do caprichoso relógio de parede. Do lado de lá, o senhor Frutuoso atendeu-me, com a voz fanhosa das grandes constipações.
– Estou assim por causa do relógio – explicou. – Tenho-me guiado pelo conselhos dele e não calcula as chuvadas e resfriamentos que suportei, nestes últimos dias. Passa-se qualquer coisa no funcionamento do aparelho, que não entendo. Atchim!
O sábio a espirrar e uma ideia a trespassar-me a cabeça de lado a lado. Botei-a logo cá para fora:
– Se o relógio veio do Brasil, não estará ele regulado para outro clima diferente do nosso? – perguntei.
Fez-se silêncio do outro lado do fio. Depois, o senhor Frutuoso voltou à fala:
– Tem razão, tem toda a razão. O relógio diz que está bom tempo e tempo quente, mas é no Brasil, onde foi montado. Seja como for é um grande invento. Atchim!
E o senhor Frutuoso desligou apressadamente o telefone, para poder assoar-se mais à vontade.
Ouvir
Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Brincar
Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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