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Ilustração de abertura da história «Não se chama Marcílio».

10 de Novembro

Não se chama Marcílio

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Marcílio não era o nome dele. Marcílio era um nome falso, um nome escondido, porque o jovem herói da nossa história não podia revelar a ninguém a sua verdadeira identidade.

- Hás-de recuperar o teu reino com este arco que aqui te dou - dissera-lhe o mago Olef.

- Agora há-de ser - respondera Marcílio.

E, impaciente, repuxou a corda do arco que estava solta. Parecia fácil. Não era.

- Falta-te a força - dissera-lhe o mago. - Tens de amaciar a corda à chuva do deserto.

- Mas no deserto chove tão pouco e tão de longe em longe - protestara Marcílio.

- Não tens outra alternativa - dissera-lhe o Olef.

O mago tinha sido o seu salvador. Recolheu-o, menino, quando o castelo e o reino do pequeno príncipe se submeteram aos conquistadores estrangeiros. Por prudência, dera ao órfão o nome de Marcílio e protegera-o e educara-o, em segredo.

Via-o, agora, jovem a espigar e a arder na vontade de reconquistar o que lhe pertencera. Mas, para que tudo resultasse, não podia haver precipitação.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Se queres que chova no deserto, tens que chamar as nuvens - disse-lhe o mago.

- E como se faz para chamar as nuvens?

- Tens de cantar.

- Agora há-de ser. Cantarei.

O mago sorriu e abanou a cabeça, negativamente:

- A tua voz tem de engrossar. E para a tua voz engrossar, tens beber o sangue do dragão que guarda a montanha.

- Agora há-de ser. Matarei o dragão.

- Só o matarás com esse arco que eu te dei...

Marcílio desesperou-se. Assim nunca conseguiria. Mas, como era um moço decidido, não desistiu. Encaminhou-se para o deserto. Talvez chovesse, sem ter de forçar as nuvens...

Esperou um ano, dois anos, três anos. Três anos de seca.

Ele bem repuxava a corda do arco, mas não havia meio... Ele bem ensaiava a voz num canto guerreiro, mas na voz cruzavam-se agudos e graves, à compita.

Até que choveu. Um aguaceiro de nuvens breves. Mas bastou para amolecer a corda. Marcílio convocou todo o seu ânimo e retesou a corda do arco. Depois, foi à procura do dragão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Era um monstro terrível. Marcílio não o temeu. Quando se vence o medo, vence-se qualquer dragão. Foi o que aconteceu.

Depois de beber do sangue do dragão, Marcílio cantou, numa voz forte e grave.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A notícia da vitória do jovem espalhou-se e vieram nuvens e nuvens de gente aclamá-lo.

À frente do clamor do povo, Marcílio marchou para o palácio que lhe pertencera.

Lutou e venceu.

Na cerimónia da coroação do novo rei, que era um homem na força da vida, o mago Olaf chamou-o pela primeira vez pelo seu nome verdadeiro: Ivan.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

No reino de Ivan, os mais velhos contam sempre esta história, convictos de que assim conseguem moderar a pressa e a impaciência dos mais novos.

- Há que confiar nos leves, vagarosos impulsos do tempo - aconselham os mais velhos, no remate da história.

Será que os novos, realmente, lhes dão ouvidos?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Não se chama Marcílio
Ilustração original recuperada

Marcílio não era o nome dele. Marcílio era um nome falso, um nome escondido, porque o jovem herói da nossa história não podia revelar a ninguém a sua verdadeira identidade.

- Hás-de recuperar o teu reino com este arco que aqui te dou - dissera-lhe o mago Olef.

- Agora há-de ser - respondera Marcílio.

E, impaciente, repuxou a corda do arco que estava solta. Parecia fácil. Não era.

- Falta-te a força - dissera-lhe o mago. - Tens de amaciar a corda à chuva do deserto.

- Mas no deserto chove tão pouco e tão de longe em longe - protestara Marcílio.

- Não tens outra alternativa - dissera-lhe o Olef.

O mago tinha sido o seu salvador. Recolheu-o, menino, quando o castelo e o reino do pequeno príncipe se submeteram aos conquistadores estrangeiros. Por prudência, dera ao órfão o nome de Marcílio e protegera-o e educara-o, em segredo.

Via-o, agora, jovem a espigar e a arder na vontade de reconquistar o que lhe pertencera. Mas, para que tudo resultasse, não podia haver precipitação.

- Se queres que chova no deserto, tens que chamar as nuvens - disse-lhe o mago.

- E como se faz para chamar as nuvens?

- Tens de cantar.

- Agora há-de ser. Cantarei.

O mago sorriu e abanou a cabeça, negativamente:

- A tua voz tem de engrossar. E para a tua voz engrossar, tens beber o sangue do dragão que guarda a montanha.

- Agora há-de ser. Matarei o dragão.

- Só o matarás com esse arco que eu te dei...

Marcílio desesperou-se. Assim nunca conseguiria. Mas, como era um moço decidido, não desistiu. Encaminhou-se para o deserto. Talvez chovesse, sem ter de forçar as nuvens...

Esperou um ano, dois anos, três anos. Três anos de seca.

Ele bem repuxava a corda do arco, mas não havia meio... Ele bem ensaiava a voz num canto guerreiro, mas na voz cruzavam-se agudos e graves, à compita.

Até que choveu. Um aguaceiro de nuvens breves. Mas bastou para amolecer a corda. Marcílio convocou todo o seu ânimo e retesou a corda do arco. Depois, foi à procura do dragão.

Era um monstro terrível. Marcílio não o temeu. Quando se vence o medo, vence-se qualquer dragão. Foi o que aconteceu.

Depois de beber do sangue do dragão, Marcílio cantou, numa voz forte e grave.

A notícia da vitória do jovem espalhou-se e vieram nuvens e nuvens de gente aclamá-lo.

À frente do clamor do povo, Marcílio marchou para o palácio que lhe pertencera.

Lutou e venceu.

Na cerimónia da coroação do novo rei, que era um homem na força da vida, o mago Olaf chamou-o pela primeira vez pelo seu nome verdadeiro: Ivan.

No reino de Ivan, os mais velhos contam sempre esta história, convictos de que assim conseguem moderar a pressa e a impaciência dos mais novos.

- Há que confiar nos leves, vagarosos impulsos do tempo - aconselham os mais velhos, no remate da história.

Será que os novos, realmente, lhes dão ouvidos?

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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