• Texto original recuperado
  • Ilustração original recuperada
  • PDF recuperado
  • Áudio original em Flash
  • Narração sintetizada
Ilustração de abertura da história «Carloto, O Adivinho».

5 de Novembro

Carloto, O Adivinho

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O meu amigo Carloto, antes de sair de casa para dar uma voltinha de bicicleta, avisou a mãe:

- Hoje vou cair da bicicleta e esfolar um joelho.

A mãe foi logo buscar a caixa dos primeiros socorros, para estar tudo à mão, quando o Carloto regressasse da queda. Não seria acidente grave. Nem, muito menos, o primeiro.

É que, de facto, o Carloto adivinha as coisas, mas só coisas que o tivessem como protagonista, isto é, como centro da referida coisa, não sei se me estou a fazer entender... Que coisa!

Às vezes, dizia a mãe:

- Hoje, vou chegar todo encharcado a casa.

A mãe ainda acudia:

- Então, leva um chapéu-de-chuva, filho.

Ele explicava:

- Se levo chapéu-de-chuva, já não chove e a chuva também faz falta...

Coisa complicada.

Só adivinha o pior, dentro do relativo, que não era assim tão mau como isso.

- Hoje vou perder o boné, na escola.

- Hoje vou rasgar as calças, numas moitas.

- Hoje vou partir os óculos, no futebol.

Não valia a pena prevenir. Estava previsto e acontecia, i-ne-vi-ta-vel-men-te.

O Carloto, conformado com o seu pequeno poder da adivinhação, resignava-se a que seria assim pela vida fora. A mãe dele também encolhia os ombros, sem se inquietar muito, e suspirava:

- O que eu quero é que o meu filho nunca adivinhe grandes desastres.

Mas, desta vez, alarmou-se.

Uma vizinha veio dizer-lhe:

- O seu Carloto caiu da bicicleta, bateu com a cabeça no passeio e foi de ambulância para o hospital.

A mãe do Carloto atirou-se para dentro de um táxi com a vizinha e, numa ansiedade, que lhe cortava a respiração, foi ao hospital saber do seu mais-que-tudo na vida.

O médico tranquilizou-a:

- O seu filho, felizmente, não chegou a sofrer traumatismo craniano. Quando ele andar de bicicleta, recomende-lhe que use capacete.

- E não está ferido, senhor doutor?

- Nada de grave. Só esfolou um joelho - respondeu o médico, com um sorriso simpático.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A mãe foi ver o Carloto, deitado numa cama e ainda um tanto abalado. Não se lembrava de nada, nem sequer de que tinha adivinhado o acidente. Ou parte: o joelho esfolado.

Aliás, desde esse dia, fosse do que fosse, talvez da pancada, o Carloto já não conseguia prever nem sequer uma unha partida.

Perdera os seus poderes especiais.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Uma coisa destas é que o Carloto nunca podia adivinhar.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Carloto, O Adivinho
Ilustração original recuperada

O meu amigo Carloto, antes de sair de casa para dar uma voltinha de bicicleta, avisou a mãe:

- Hoje vou cair da bicicleta e esfolar um joelho.

A mãe foi logo buscar a caixa dos primeiros socorros, para estar tudo à mão, quando o Carloto regressasse da queda. Não seria acidente grave. Nem, muito menos, o primeiro.

É que, de facto, o Carloto adivinha as coisas, mas só coisas que o tivessem como protagonista, isto é, como centro da referida coisa, não sei se me estou a fazer entender... Que coisa!

Às vezes, dizia a mãe:

- Hoje, vou chegar todo encharcado a casa.

A mãe ainda acudia:

- Então, leva um chapéu-de-chuva, filho.

Ele explicava:

- Se levo chapéu-de-chuva, já não chove e a chuva também faz falta...

Coisa complicada.

Só adivinha o pior, dentro do relativo, que não era assim tão mau como isso.

- Hoje vou perder o boné, na escola.

- Hoje vou rasgar as calças, numas moitas.

- Hoje vou partir os óculos, no futebol.

Não valia a pena prevenir. Estava previsto e acontecia, i-ne-vi-ta-vel-men-te.

O Carloto, conformado com o seu pequeno poder da adivinhação, resignava-se a que seria assim pela vida fora. A mãe dele também encolhia os ombros, sem se inquietar muito, e suspirava:

- O que eu quero é que o meu filho nunca adivinhe grandes desastres.

Mas, desta vez, alarmou-se.

Uma vizinha veio dizer-lhe:

- O seu Carloto caiu da bicicleta, bateu com a cabeça no passeio e foi de ambulância para o hospital.

A mãe do Carloto atirou-se para dentro de um táxi com a vizinha e, numa ansiedade, que lhe cortava a respiração, foi ao hospital saber do seu mais-que-tudo na vida.

O médico tranquilizou-a:

- O seu filho, felizmente, não chegou a sofrer traumatismo craniano. Quando ele andar de bicicleta, recomende-lhe que use capacete.

- E não está ferido, senhor doutor?

- Nada de grave. Só esfolou um joelho - respondeu o médico, com um sorriso simpático.

A mãe foi ver o Carloto, deitado numa cama e ainda um tanto abalado. Não se lembrava de nada, nem sequer de que tinha adivinhado o acidente. Ou parte: o joelho esfolado.

Aliás, desde esse dia, fosse do que fosse, talvez da pancada, o Carloto já não conseguia prever nem sequer uma unha partida.

Perdera os seus poderes especiais.

Uma coisa destas é que o Carloto nunca podia adivinhar.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

Palavras da história

Voltar ao texto

Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto narrativo foi recuperado da página HTML original arquivada. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

Página original arquivada
Ver no arquivo
PDF original
Pendente