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Ilustração de abertura da história «Fenómenos de Capoeira».

4 de Novembro

Fenómenos de Capoeira

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma vez uma galinha que cantava de galo.

– Que é lá isso? Já não há respeito? – indignou-se o único galo da capoeira. – Então, daqui para a frente, passas a ser tu a anunciar a alvorada.

A galinha escusou-se à responsabilidade. Que não tinha vocação para corneteiro, que não era dada a madrugar, que até tinha o sono pesado e mais que torna e mais que deixa, tudo desculpas esfarrapadas.

– Nesse caso, deixas de imitar-me – impôs o galo.

A galinha fez que sim. Depois, esqueceu-se e, na primeira ocasião, voltou a cantar de galo.

– O que combinámos, ainda há pouco, já não conta? – perguntou o galo, muito arreliado.

A galinha desculpou-se, tinha-lhe passado da ideia e, para mais, andava com a voz rouca da humidade. Mas não voltaria.

Voltou.

Tantas vezes cantou de galo que até parecia desafio. Não era. A galinha gostava de brincar, de fazer imitações. Se lhe desse para isso até era capaz de zurrar como os burros…

– Burro serei eu se suportar mais esta afronta. Tu continuas a cantar de galo e eu vou passar a pôr ovos – ameaçou o velho galo.

Correu a notícia. O galo ia pôr ovos. Vieram de todos os extremos da quinta os bichos que nela viviam. Patos, perus, ovelhas, vacas, porcos, burro e os dois cães de guarda puseram-se à volta do galo, à espera do fenómeno…

– Com tantos ao pé de mim, não consigo – disse o galo, embaraçado.

Quis mantê-los à distância, mas em vão. A curiosidade era muita e não se podia perder pitada do grande acontecimento.

Ovo é que não houve meio.

– Desisto – concluiu o galo. – Isto de pôr ovos e, ainda por cima, diante desta plateia de basbaques, não é para as minhas forças.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Conclusão sensata.

– Põe tu um ovo por mim – disse o galo para a galinha que, às vezes, cantava de galo.

Ela pôs, sem nenhuma dificuldade, e, depois, não cantou de galo. Cacarejou como cacarejam as galinhas quando acabam de pôr um ovo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Bonita cantiga – elogiou o galo.

Toda a bicharia era da mesma opinião. Um encanto de cantiguinha. Um mimo de voz. Um gargarejo mesmo melodioso.

A galinha, envaidecida, corou até à crista. E não voltou a cantar de galo.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Isto é: uma vez por outra arremedava-lhe a voz, mas só para fazer rir as franganitas.

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Fenómenos de Capoeira
Ilustração original recuperada

Era uma vez uma galinha que cantava de galo.

– Que é lá isso? Já não há respeito? – indignou-se o único galo da capoeira. – Então, daqui para a frente, passas a ser tu a anunciar a alvorada.

A galinha escusou-se à responsabilidade. Que não tinha vocação para corneteiro, que não era dada a madrugar, que até tinha o sono pesado e mais que torna e mais que deixa, tudo desculpas esfarrapadas.

– Nesse caso, deixas de imitar-me – impôs o galo.

A galinha fez que sim. Depois, esqueceu-se e, na primeira ocasião, voltou a cantar de galo.

– O que combinámos, ainda há pouco, já não conta? – perguntou o galo, muito arreliado.

A galinha desculpou-se, tinha-lhe passado da ideia e, para mais, andava com a voz rouca da humidade. Mas não voltaria.

Voltou.

Tantas vezes cantou de galo que até parecia desafio. Não era. A galinha gostava de brincar, de fazer imitações. Se lhe desse para isso até era capaz de zurrar como os burros…

– Burro serei eu se suportar mais esta afronta. Tu continuas a cantar de galo e eu vou passar a pôr ovos – ameaçou o velho galo.

Correu a notícia. O galo ia pôr ovos. Vieram de todos os extremos da quinta os bichos que nela viviam. Patos, perus, ovelhas, vacas, porcos, burro e os dois cães de guarda puseram-se à volta do galo, à espera do fenómeno…

– Com tantos ao pé de mim, não consigo – disse o galo, embaraçado.

Quis mantê-los à distância, mas em vão. A curiosidade era muita e não se podia perder pitada do grande acontecimento.

Ovo é que não houve meio.

– Desisto – concluiu o galo. – Isto de pôr ovos e, ainda por cima, diante desta plateia de basbaques, não é para as minhas forças.

Conclusão sensata.

– Põe tu um ovo por mim – disse o galo para a galinha que, às vezes, cantava de galo.

Ela pôs, sem nenhuma dificuldade, e, depois, não cantou de galo. Cacarejou como cacarejam as galinhas quando acabam de pôr um ovo.

– Bonita cantiga – elogiou o galo.

Toda a bicharia era da mesma opinião. Um encanto de cantiguinha. Um mimo de voz. Um gargarejo mesmo melodioso.

A galinha, envaidecida, corou até à crista. E não voltou a cantar de galo.

Isto é: uma vez por outra arremedava-lhe a voz, mas só para fazer rir as franganitas.

FIM

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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