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Ilustração de abertura da história «A Velha Mais Velha».

3 de Novembro

A Velha Mais Velha

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era uma velha muito velha, muito velha, tão velha que não havia velha mais velha do que ela.

Um dia, estava a velha a ver televisão, num aparelho também muito velho, quando anunciaram que iam fazer um concurso para proclamar a velha mais velha do mundo. Todas as velhas do mundo podiam concorrer.

A velha desta história encolheu os ombros e disse:

- Para quê tanta complicação? Já se sabe que a velha mais velha de todas sou eu.

Mas não se deu ao trabalho de concorrer.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Dias depois, começaram a desfilar, na televisão, velhas e mais velhas, algumas apoiadas a bengalas, outras ajudadas pelos bisnetos.

A nossa velha muito velha ria-se:

- Olha para aquela, que podia ser minha filha... E aquela, quando nasceu, já eu usava dentadura... E aquela, que ridícula, tão nova, a fingir que é velha...

Até que o aparelho de televisão se avariou.

A velha deu-lhe uns safanões, mas o televisor não se convenceu. Continuou sem dar nem som nem imagem. Só ruídos. Estava velho.

A velha foi bater à porta de um vizinho, para continuar a ver o concurso de velhas, mas o vizinho estava a ver um concurso de misses, e não quis mudar de canal.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Então a velha, muito enervada, resolveu ir à estação de televisão, onde se realizava o concurso para apuramento da velha mais velha do mundo. Estava com curiosidade em saber quem é que escolhiam como vencedora.

O azar foi que o táxi em que se meteu se enfiou por uma rua com muito trânsito e, quando a velha chegou, já o concurso tinha acabado.

Ia precisamente a sair, empurrada numa cadeira de rodas, a velhota que tinha sido proclamada a mais velha do mundo.

Vinha com ramos e coroas de flores e muita gente à volta, a sorrir para as máquinas dos fotógrafos.

A velha da nossa história reconheceu-a.

- Mirita - gritou-lhe ela.

A velhota virou-se, na cadeira de rodas.

- Mirita, tu sabes que não és a mais velha.

Tu mentiste ou deixaste que mentissem por ti - disse a velha.

A velhota da cadeira de rodas baixou os olhos, comprometida. À volta dela, tudo se calou.

- Eu, que fui tua professora, nunca te ensinei a mentir, pois não? - ralhou-lhe a velha.

- Não, senhora - disse a velhota, a medo, como que a pedir desculpa.

Mas de nada lhe valeu o ar de menina que cometeu uma maldade, porque a velha muito velha, ali, sem mais nem menos, diante de toda aquela gente, passou-lhe um raspanete e deu-lhe um valente puxão de orelhas.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para A Velha Mais Velha
Ilustração original recuperada

Era uma velha muito velha, muito velha, tão velha que não havia velha mais velha do que ela.

Um dia, estava a velha a ver televisão, num aparelho também muito velho, quando anunciaram que iam fazer um concurso para proclamar a velha mais velha do mundo. Todas as velhas do mundo podiam concorrer.

A velha desta história encolheu os ombros e disse:

- Para quê tanta complicação? Já se sabe que a velha mais velha de todas sou eu.

Mas não se deu ao trabalho de concorrer.

Dias depois, começaram a desfilar, na televisão, velhas e mais velhas, algumas apoiadas a bengalas, outras ajudadas pelos bisnetos.

A nossa velha muito velha ria-se:

- Olha para aquela, que podia ser minha filha... E aquela, quando nasceu, já eu usava dentadura... E aquela, que ridícula, tão nova, a fingir que é velha...

Até que o aparelho de televisão se avariou.

A velha deu-lhe uns safanões, mas o televisor não se convenceu. Continuou sem dar nem som nem imagem. Só ruídos. Estava velho.

A velha foi bater à porta de um vizinho, para continuar a ver o concurso de velhas, mas o vizinho estava a ver um concurso de misses, e não quis mudar de canal.

Então a velha, muito enervada, resolveu ir à estação de televisão, onde se realizava o concurso para apuramento da velha mais velha do mundo. Estava com curiosidade em saber quem é que escolhiam como vencedora.

O azar foi que o táxi em que se meteu se enfiou por uma rua com muito trânsito e, quando a velha chegou, já o concurso tinha acabado.

Ia precisamente a sair, empurrada numa cadeira de rodas, a velhota que tinha sido proclamada a mais velha do mundo.

Vinha com ramos e coroas de flores e muita gente à volta, a sorrir para as máquinas dos fotógrafos.

A velha da nossa história reconheceu-a.

- Mirita - gritou-lhe ela.

A velhota virou-se, na cadeira de rodas.

- Mirita, tu sabes que não és a mais velha.

Tu mentiste ou deixaste que mentissem por ti - disse a velha.

A velhota da cadeira de rodas baixou os olhos, comprometida. À volta dela, tudo se calou.

- Eu, que fui tua professora, nunca te ensinei a mentir, pois não? - ralhou-lhe a velha.

- Não, senhora - disse a velhota, a medo, como que a pedir desculpa.

Mas de nada lhe valeu o ar de menina que cometeu uma maldade, porque a velha muito velha, ali, sem mais nem menos, diante de toda aquela gente, passou-lhe um raspanete e deu-lhe um valente puxão de orelhas.

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