29 de Outubro
Burro Cão
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Era uma vez um burro de trabalho, daqueles que carregam o dobro do seu peso, de casa para o mercado e do mercado para casa. Mais esforçado burro não havia.
O dono pouco lhe ligava. Alimentava-o, dava-lhe cama na estrebaria e uma chibatada ao descair, uma vez por outra, sobretudo quando o burro se atrasava pelos caminhos tortuosos da serra.
Nem uma festa nas orelhas, que lhe sacudisse as moscas, nem uma palavra de reconhecimento, ao fim de um dia de canseiras. Nada.
O burro sentia-se. Achava-se, como se compreende, digno de maior apreço.
E mais se sentia quando reparava que o dono era só mimos e afagos para os cachorrinhos que a cadela da quinta dera à luz.
Os cachorros mordiscavam a bainha das calças do homem e ele ria. Lambiam-lhe as mãos e a cara e ele ria. Saltavam-lhe à frente, a ponto de o fazerem tropeçar, e ele ria.
– Não é justo – pensava o burro. – Os canitos não alombam com o meu carrego, não puxam a carroça, não aguentam com o meu dono às costas e ele faz-lhes festinhas, brinca com eles e enternece-se com os disparates e traquinices dos bichos, como nunca o vi tão manso assim.
E era verdade.
– Se quero receber alguma festa ou prova de simpatia do meu dono, estou a ver que tenho de proceder da mesma maneira - continuou a penar o pobre do burro.
E assim fez.
Na manhã seguinte, quando o dono o acordou, para atrelá-lo à carroça, o burro começou aos saltos e aos zurros, que, segundo ele, imitavam os latidos dos cachorrinhos.
O dono ficou parvo:
– Que mosca te mordeu, malandro?
E foi buscar o chicote.
O burro corria atrás dele. Dava-lhe dentadas nas calças, lambia-lhe a cara e até tentou pôr-lhe as patas nos ombros. O homem caiu ao chão.
O burro zurrava, abanando a cauda e dando saltinhos, à roda do dono.
– Este burro endoideceu – gritou o homem, levantando-se. – Espera lá que já te ensino a ganhares juízo.
Deu-lhe tal desanda que, não tivesse a mulher do dono, a certa altura, tirado o cabo do chicote das mãos do marido, esta história tinha tido ainda um fim mais triste do que, de facto, teve.
Nem todas as histórias podem acabar bem. Esta acaba com o burro preso à manjedoira, derreadinho da sova, e a mulher do dono a cuidar-lhe das feridas, com emplastros e unguentos.
Vá lá, que podia ser pior.
FIM
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Era uma vez um burro de trabalho, daqueles que carregam o dobro do seu peso, de casa para o mercado e do mercado para casa. Mais esforçado burro não havia.
O dono pouco lhe ligava. Alimentava-o, dava-lhe cama na estrebaria e uma chibatada ao descair, uma vez por outra, sobretudo quando o burro se atrasava pelos caminhos tortuosos da serra.
Nem uma festa nas orelhas, que lhe sacudisse as moscas, nem uma palavra de reconhecimento, ao fim de um dia de canseiras. Nada.
O burro sentia-se. Achava-se, como se compreende, digno de maior apreço.
E mais se sentia quando reparava que o dono era só mimos e afagos para os cachorrinhos que a cadela da quinta dera à luz.
Os cachorros mordiscavam a bainha das calças do homem e ele ria. Lambiam-lhe as mãos e a cara e ele ria. Saltavam-lhe à frente, a ponto de o fazerem tropeçar, e ele ria.
– Não é justo – pensava o burro. – Os canitos não alombam com o meu carrego, não puxam a carroça, não aguentam com o meu dono às costas e ele faz-lhes festinhas, brinca com eles e enternece-se com os disparates e traquinices dos bichos, como nunca o vi tão manso assim.
E era verdade.
– Se quero receber alguma festa ou prova de simpatia do meu dono, estou a ver que tenho de proceder da mesma maneira - continuou a penar o pobre do burro.
E assim fez.
Na manhã seguinte, quando o dono o acordou, para atrelá-lo à carroça, o burro começou aos saltos e aos zurros, que, segundo ele, imitavam os latidos dos cachorrinhos.
O dono ficou parvo:
– Que mosca te mordeu, malandro?
E foi buscar o chicote.
O burro corria atrás dele. Dava-lhe dentadas nas calças, lambia-lhe a cara e até tentou pôr-lhe as patas nos ombros. O homem caiu ao chão.
O burro zurrava, abanando a cauda e dando saltinhos, à roda do dono.
– Este burro endoideceu – gritou o homem, levantando-se. – Espera lá que já te ensino a ganhares juízo.
Deu-lhe tal desanda que, não tivesse a mulher do dono, a certa altura, tirado o cabo do chicote das mãos do marido, esta história tinha tido ainda um fim mais triste do que, de facto, teve.
Nem todas as histórias podem acabar bem. Esta acaba com o burro preso à manjedoira, derreadinho da sova, e a mulher do dono a cuidar-lhe das feridas, com emplastros e unguentos.
Vá lá, que podia ser pior.
FIM
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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