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Ilustração de abertura da história «O Automóvel Cansado».

27 de Outubro

O Automóvel Cansado

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era um automóvel que trabalhava todos os dias.

Acordava ou acordavam-no de manhã cedo e lá ia ele com o dono para o trabalho.

Ainda se o dono trabalhasse o tempo todo num escritório, vá que vá. O automóvel, nesse caso, até podia descansar uns bons bocados, encostado ao passeio.

Mas o dono era dos irrequietos. Passava o dia de um lado para o outro, pára, logo arranca, depressa que se faz tarde, num corrupio que fazia aflição. Há empregos assim, muito fatigantes, tanto para as pessoas como para os carros.

E aos fins-de-semana? Aos fins-de-semana, o dono do automóvel levava a família a passear.

Em resumo, o carro nunca descansava.

Um dia, cansado de tanto correr, protestou.

– Este motor não anda bom – disse o dono.

Protestou mais.

– Este motor está a pedir uma grande revisão – disse o dono.

De protesto em protesto, o automóvel resolveu fazer finca-pé. Parou, de vez.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Temos de chamar um reboque e mandá-lo para a oficina - disse o dono.

Disse mais coisas, mas nós não contamos… Pudera. A meio do passeio de domingo, acontecer uma destas, quem é que não perde a paciência?

Tão exasperado ficou o dono que resolveu trocar de carro. Apetecia-lhe um automóvel mais novo, mais potente, de um modelo mais moderno.

O automóvel desta história foi arrecadado num armazém de automóveis velhos.

– Daqui só para a sucata – disse-lhe uma carrinha muito desgastada pelos anos de serviço a um colégio.

Agora tinha tempo para descansar. Descansou.

Mas as prolongadas férias acabaram por pesar-lhe.

Às vezes, aparecia alguém com vontade de comprar um carro barato, ainda em bom estado… Os automóveis alinhados aguardavam a decisão, com ansiedade.

– Qual é o preço deste? – perguntou uma senhora ao vendedor.

– Tanto – respondeu o vendedor.

– Só dou tanto – disse a senhora.

O comprador encolheu os ombros, em sinal de concordância. O automóvel desta história ganhava um novo dono, aliás dona, aliás Dona Henriqueta.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– É só para dar de vez em quando uns passeios, visitar os filhos, os netos – explicou a senhora. – Nada de velocidades nem de grandes viagens. Este carrinho dá-me jeito.

A Dona Henriqueta já está reformada. O automóvel ainda não. Teve sorte ou melhor, ambos tiveram sorte, porque o automóvel ainda dá muito boa conta do recado.

Está ali para as curvas.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O Automóvel Cansado
Ilustração original recuperada

Era um automóvel que trabalhava todos os dias.

Acordava ou acordavam-no de manhã cedo e lá ia ele com o dono para o trabalho.

Ainda se o dono trabalhasse o tempo todo num escritório, vá que vá. O automóvel, nesse caso, até podia descansar uns bons bocados, encostado ao passeio.

Mas o dono era dos irrequietos. Passava o dia de um lado para o outro, pára, logo arranca, depressa que se faz tarde, num corrupio que fazia aflição. Há empregos assim, muito fatigantes, tanto para as pessoas como para os carros.

E aos fins-de-semana? Aos fins-de-semana, o dono do automóvel levava a família a passear.

Em resumo, o carro nunca descansava.

Um dia, cansado de tanto correr, protestou.

– Este motor não anda bom – disse o dono.

Protestou mais.

– Este motor está a pedir uma grande revisão – disse o dono.

De protesto em protesto, o automóvel resolveu fazer finca-pé. Parou, de vez.

- Temos de chamar um reboque e mandá-lo para a oficina - disse o dono.

Disse mais coisas, mas nós não contamos… Pudera. A meio do passeio de domingo, acontecer uma destas, quem é que não perde a paciência?

Tão exasperado ficou o dono que resolveu trocar de carro. Apetecia-lhe um automóvel mais novo, mais potente, de um modelo mais moderno.

O automóvel desta história foi arrecadado num armazém de automóveis velhos.

– Daqui só para a sucata – disse-lhe uma carrinha muito desgastada pelos anos de serviço a um colégio.

Agora tinha tempo para descansar. Descansou.

Mas as prolongadas férias acabaram por pesar-lhe.

Às vezes, aparecia alguém com vontade de comprar um carro barato, ainda em bom estado… Os automóveis alinhados aguardavam a decisão, com ansiedade.

– Qual é o preço deste? – perguntou uma senhora ao vendedor.

– Tanto – respondeu o vendedor.

– Só dou tanto – disse a senhora.

O comprador encolheu os ombros, em sinal de concordância. O automóvel desta história ganhava um novo dono, aliás dona, aliás Dona Henriqueta.

– É só para dar de vez em quando uns passeios, visitar os filhos, os netos – explicou a senhora. – Nada de velocidades nem de grandes viagens. Este carrinho dá-me jeito.

A Dona Henriqueta já está reformada. O automóvel ainda não. Teve sorte ou melhor, ambos tiveram sorte, porque o automóvel ainda dá muito boa conta do recado.

Está ali para as curvas.

FIM

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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