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Ilustração de abertura da história «Lágrimas de Crocodilo».

25 de Outubro

Lágrimas de Crocodilo

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O crocodilo estava com uma grande dor de dentes. Quem lhe acudia?

Dentista, na selva não há. Podia procurá-lo na cidade mais próxima, mas quem lhe garantia que, depois, o deixavam voltar ao rio do seu pachorrento viver?

Os gemidos do crocodilo metiam dó.

Um passarito saltitante aproximou-se, mas não muito, e perguntou-lhe:

– O dente que dói é incisivo, canino ou molar?

O crocodilo não sabia.

– É cá para trás, na queixada – respondeu ele.

– Então é molar e deve estar furado - concluiu o esperto passarinho.

Muito se admirou o crocodilo com a ciência do passarinho. E, numa voz de sofrimento, perguntou-lhe se ele não se importava de tratá-lo.

O passarinho saltitou, hesitante. Outros passarinhos da família, que andavam por perto, avisaram-no:

– Vê lá no que te metes. O crocodilo pode não ser de confiança…

Mas o passarinho, que tinha bom coração, decidiu arriscar.

– Abre bem a boca – disse ele ao crocodilo.

Saltitando entre os dentes do crocodilo, como sobre um teclado de piano, o passarinho deu com o dente furado. Era, realmente, um dos últimos, já no escuro da boca enorme do crocodilo.

Com muita eficiência, o passarinho brocou, limpou e tapou o buraco do dente magoado. Só lhe faltava diploma para dentista a sério.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

– Abre mais a boca, para eu sair a voar.

Mais o crocodilo a fechava…

Cá fora, os outros passarinhos piaram de susto.

– Tratei-te. Quero sair – exigiu o passarinho e a vozinha dele ecoou na boca cavernosa do crocodilo.

– Palita-me e limpa-me o resto da dentadura – pediu o crocodilo, entre dentes.

Caiu-lhe uma lágrima do olho esquerdo e outra, a seguir, do direito.

– Lágrimas de crocodilo – piaram os passarinhos em bando. - Velhaco. Patife. Hipócrita.

Mas, afinal, estas eram as lágrimas sinceras. O crocodilo sentia-se aliviado e agradecido.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando o passarinho, depois de ter feito uma limpeza geral aos dentes do crocodilo, voou para o meio dos outros, foi recebido como um herói.

E, daí em diante, todos os passarinhos saltitantes da beira-rio passaram a frequentar as queixadas dos crocodilos, à cata de restos de comida.

Ganham os crocodilos e ganham os passarinhos. Ao contrário do que consta, na selva também há harmonia.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

FIM

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Lágrimas de Crocodilo
Ilustração original recuperada

O crocodilo estava com uma grande dor de dentes. Quem lhe acudia?

Dentista, na selva não há. Podia procurá-lo na cidade mais próxima, mas quem lhe garantia que, depois, o deixavam voltar ao rio do seu pachorrento viver?

Os gemidos do crocodilo metiam dó.

Um passarito saltitante aproximou-se, mas não muito, e perguntou-lhe:

– O dente que dói é incisivo, canino ou molar?

O crocodilo não sabia.

– É cá para trás, na queixada – respondeu ele.

– Então é molar e deve estar furado - concluiu o esperto passarinho.

Muito se admirou o crocodilo com a ciência do passarinho. E, numa voz de sofrimento, perguntou-lhe se ele não se importava de tratá-lo.

O passarinho saltitou, hesitante. Outros passarinhos da família, que andavam por perto, avisaram-no:

– Vê lá no que te metes. O crocodilo pode não ser de confiança…

Mas o passarinho, que tinha bom coração, decidiu arriscar.

– Abre bem a boca – disse ele ao crocodilo.

Saltitando entre os dentes do crocodilo, como sobre um teclado de piano, o passarinho deu com o dente furado. Era, realmente, um dos últimos, já no escuro da boca enorme do crocodilo.

Com muita eficiência, o passarinho brocou, limpou e tapou o buraco do dente magoado. Só lhe faltava diploma para dentista a sério.

– Abre mais a boca, para eu sair a voar.

Mais o crocodilo a fechava…

Cá fora, os outros passarinhos piaram de susto.

– Tratei-te. Quero sair – exigiu o passarinho e a vozinha dele ecoou na boca cavernosa do crocodilo.

– Palita-me e limpa-me o resto da dentadura – pediu o crocodilo, entre dentes.

Caiu-lhe uma lágrima do olho esquerdo e outra, a seguir, do direito.

– Lágrimas de crocodilo – piaram os passarinhos em bando. - Velhaco. Patife. Hipócrita.

Mas, afinal, estas eram as lágrimas sinceras. O crocodilo sentia-se aliviado e agradecido.

Quando o passarinho, depois de ter feito uma limpeza geral aos dentes do crocodilo, voou para o meio dos outros, foi recebido como um herói.

E, daí em diante, todos os passarinhos saltitantes da beira-rio passaram a frequentar as queixadas dos crocodilos, à cata de restos de comida.

Ganham os crocodilos e ganham os passarinhos. Ao contrário do que consta, na selva também há harmonia.

FIM

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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