16 de Outubro
A Rainha das Pêras
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
As pereiras dão peras. Não é novidade. Estranho seria se as pereiras dessem maçãs. Mas esta não é uma história vulgar.
Efectivamente, na pereira para onde nós apontámos a história não nasceram maçãs nem uvas nem romãs. Nasceu apenas, entre outras peras que não mereciam especial atenção, uma pêra e peras. Enorme. Gigantesca. Uma senhora dona pêra.
– Parece uma abóbora – disse o dono do pomar para a mulher. – Se não a amparamos, parte o tronco.
A pereira gemia ao peso da pêra fenomenal. Toda inchada para um lado, também era um fenómeno que ainda se não tivesse partido.
Para reequilibrar a árvore, o dono do pomar trouxe um banco que pôs debaixo da pêra. Assim apoiada, a pêra cresceu e engordou que metia impressão.
– É uma pêra sentada num banco – diziam as outras peras, umas invejosas.
A notícia da pêra gigante chegou aos ouvidos do rei. Até lhe contaram que a pêra era tão grande, tão majestosa, que para ela tinha armado um trono, à beira da árvore donde provinha. Uns exagerados.
– Se ela é a rainha das peras tem de vir para a mesa do rei – ordenou o monarca, que era um glutão, talvez até o rei dos glutões.
Trouxeram-na numa padiola, suportada por dois homens.
O rei, que estava no desfecho de um banquete – só faltava a fruta –, o rei espantou-se.
– Descasquem-na – ordenou.
Três criados, armados de grandes facas, demoraram uma hora na operação. A pêra sumarenta e suculenta foi posta numa imensa travessa, diante do rei.
– Ainda cá estou – disse o rei, espreitando por trás da pêra.
Já não era o rei, mas a pêra que presidia o banquete. Todos os cortesãos olharam para a cabeceira da mesa, aguardando a continuação da história.
O rei pegou numa colher e espetou-a na polpa da pêra. Depois, provou. Provou e fez uma careta.
– Está verde – disse.
Um Ah! de desolação prolongou-se, em coro, pela mesa fora.
– Está verde – disseram todos os cortesãos, fazendo um ar muito desconsolado.
A pêra tinha sido colhida antes do tempo.
Por culpa da precipitação do rei, que exigira a pêra à sua mesa, ninguém se preocupara em saber se a pêra já estava na conta. E, agora, era tarde. Não podiam voltar a pendurá-la na árvore. Era uma pêra desperdiçada. Era um enorme desperdício.
Enterraram-na no jardim, depois de os jardineiros terem cavado um fundo buraco.
Anos depois, floresceu uma pereira naquele sítio. Como? Porquê? A memória do rei e dos cortesãos era muito curta.
Mas o príncipe, filho do rei, passou por ali e colheu uma perinha madurinha. Provou. Gostou. E não se esqueceu.
Passou a pedir para a sobremesa as peras daquela pereira do jardim.
O príncipe cresceu. Ganhou corpo. Fez-se um belo rapaz, um mocetão desempenado e atlético. Generoso, risonho, afável. E são como um pêro. Ou uma pêra…
FIM
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
As pereiras dão peras. Não é novidade. Estranho seria se as pereiras dessem maçãs. Mas esta não é uma história vulgar.
Efectivamente, na pereira para onde nós apontámos a história não nasceram maçãs nem uvas nem romãs. Nasceu apenas, entre outras peras que não mereciam especial atenção, uma pêra e peras. Enorme. Gigantesca. Uma senhora dona pêra.
– Parece uma abóbora – disse o dono do pomar para a mulher. – Se não a amparamos, parte o tronco.
A pereira gemia ao peso da pêra fenomenal. Toda inchada para um lado, também era um fenómeno que ainda se não tivesse partido.
Para reequilibrar a árvore, o dono do pomar trouxe um banco que pôs debaixo da pêra. Assim apoiada, a pêra cresceu e engordou que metia impressão.
– É uma pêra sentada num banco – diziam as outras peras, umas invejosas.
A notícia da pêra gigante chegou aos ouvidos do rei. Até lhe contaram que a pêra era tão grande, tão majestosa, que para ela tinha armado um trono, à beira da árvore donde provinha. Uns exagerados.
– Se ela é a rainha das peras tem de vir para a mesa do rei – ordenou o monarca, que era um glutão, talvez até o rei dos glutões.
Trouxeram-na numa padiola, suportada por dois homens.
O rei, que estava no desfecho de um banquete – só faltava a fruta –, o rei espantou-se.
– Descasquem-na – ordenou.
Três criados, armados de grandes facas, demoraram uma hora na operação. A pêra sumarenta e suculenta foi posta numa imensa travessa, diante do rei.
– Ainda cá estou – disse o rei, espreitando por trás da pêra.
Já não era o rei, mas a pêra que presidia o banquete. Todos os cortesãos olharam para a cabeceira da mesa, aguardando a continuação da história.
O rei pegou numa colher e espetou-a na polpa da pêra. Depois, provou. Provou e fez uma careta.
– Está verde – disse.
Um Ah! de desolação prolongou-se, em coro, pela mesa fora.
– Está verde – disseram todos os cortesãos, fazendo um ar muito desconsolado.
A pêra tinha sido colhida antes do tempo.
Por culpa da precipitação do rei, que exigira a pêra à sua mesa, ninguém se preocupara em saber se a pêra já estava na conta. E, agora, era tarde. Não podiam voltar a pendurá-la na árvore. Era uma pêra desperdiçada. Era um enorme desperdício.
Enterraram-na no jardim, depois de os jardineiros terem cavado um fundo buraco.
Anos depois, floresceu uma pereira naquele sítio. Como? Porquê? A memória do rei e dos cortesãos era muito curta.
Mas o príncipe, filho do rei, passou por ali e colheu uma perinha madurinha. Provou. Gostou. E não se esqueceu.
Passou a pedir para a sobremesa as peras daquela pereira do jardim.
O príncipe cresceu. Ganhou corpo. Fez-se um belo rapaz, um mocetão desempenado e atlético. Generoso, risonho, afável. E são como um pêro. Ou uma pêra…
FIM
Imagens recuperadas
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. O texto foi recuperado do PDF original arquivado através da sua camada de texto. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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