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Ilustração de abertura da história «O Boi Manso».

11 de Outubro

O Boi Manso

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O boi regressava do trabalho, ao entardecer. Vinha muito cansado. Por caminhos torcidos e pedregosos puxara, o dia todo, um carro de bois, que, bem vistas as coisas, devia antes chamar-se carro de boi, porque ele, sozinho, fazia as vezes de uma junta de bois, dos mais possantes.

Estava mesmo exausto.

A caminho do estábulo, já apaladava, na imaginação, a saborosa ceia de feno, que o aguardava na manjedoira. Merecida.

Entrou no estábulo e o que viu? O cão da quinta, deitado no fofo do feno.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

- Tenha muito boas noites - disse o boi, que era muito manso e bem-educado.

- Podia fazer o favor de sair de cima da minha manjedoira?

- Não. Não - ladrou o cão.

O boi, cheio de paciência, insistiu:

- Estou com muita fome, mas prometo-lhe que, depois de comer, ainda lhe deixo feno suficiente para a sua cama.

Agora, agradeço-lhe que me desampare a manjedoira.

- Não. Não - ladrou o cão.

- Admito que esteja a incomodá-lo, mas será por pouco tempo. Com a fome que trago, garanto-lhe que como o feno num instante. Podia afastar-se por um bocadinho?

- Não. Não - ladrou o cão.

- Eu entenderia a sua má disposição se o soubesse apreciador de feno. Mas se para si não serve, senão como cama, porque me proíbe de comer? Ou quer provar também do meu jantar?

- Não. Não - ladrou o cão.

Era malhar em ferro frio.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

O cão não saía da sua, não se convencia com boas palavras. Que outros argumentos podia o boi utilizar?

Vamos lá ver. Só há duas saídas para esta história.

Numa, o boi manso desiste da ceia e passa a noite roído de fome.

No dia seguinte, voltará a trabalhar, em estado de fraqueza e tão debilitado que não conseguirá puxar o carro, como o dono lhe exige. Um boi sem préstimo é um boi condenado ao matadouro. Um triste fim, portanto.

Noutra hipótese, o boi manso lembra-se de que tem em comum com os bois bravos os chifres pontiagudos, que servem de defesa e de ataque. Uma marrada de boi é um caso sério.

Qual dos dois fins vamos escolher?

Tu é que decides. Tu é que mandas.

Já decidiste?

Pois foi assim mesmo, tal como determinaste. Uma resolução muito acertada.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Contar mais, para quê? O que se passou dentro do estábulo nem se descreve. Tudo muito rápido.

Está, agora, um cão a ganir às estrelas:

- Caim! Caim! Boi ruim!

Caim! Caim!

Porque será?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O Boi Manso
Ilustração original recuperada

O boi regressava do trabalho, ao entardecer. Vinha muito cansado. Por caminhos torcidos e pedregosos puxara, o dia todo, um carro de bois, que, bem vistas as coisas, devia antes chamar-se carro de boi, porque ele, sozinho, fazia as vezes de uma junta de bois, dos mais possantes.

Estava mesmo exausto.

A caminho do estábulo, já apaladava, na imaginação, a saborosa ceia de feno, que o aguardava na manjedoira. Merecida.

Entrou no estábulo e o que viu? O cão da quinta, deitado no fofo do feno.

- Tenha muito boas noites - disse o boi, que era muito manso e bem-educado.

- Podia fazer o favor de sair de cima da minha manjedoira?

- Não. Não - ladrou o cão.

O boi, cheio de paciência, insistiu:

- Estou com muita fome, mas prometo-lhe que, depois de comer, ainda lhe deixo feno suficiente para a sua cama.

Agora, agradeço-lhe que me desampare a manjedoira.

- Não. Não - ladrou o cão.

- Admito que esteja a incomodá-lo, mas será por pouco tempo. Com a fome que trago, garanto-lhe que como o feno num instante. Podia afastar-se por um bocadinho?

- Não. Não - ladrou o cão.

- Eu entenderia a sua má disposição se o soubesse apreciador de feno. Mas se para si não serve, senão como cama, porque me proíbe de comer? Ou quer provar também do meu jantar?

- Não. Não - ladrou o cão.

Era malhar em ferro frio.

O cão não saía da sua, não se convencia com boas palavras. Que outros argumentos podia o boi utilizar?

Vamos lá ver. Só há duas saídas para esta história.

Numa, o boi manso desiste da ceia e passa a noite roído de fome.

No dia seguinte, voltará a trabalhar, em estado de fraqueza e tão debilitado que não conseguirá puxar o carro, como o dono lhe exige. Um boi sem préstimo é um boi condenado ao matadouro. Um triste fim, portanto.

Noutra hipótese, o boi manso lembra-se de que tem em comum com os bois bravos os chifres pontiagudos, que servem de defesa e de ataque. Uma marrada de boi é um caso sério.

Qual dos dois fins vamos escolher?

Tu é que decides. Tu é que mandas.

Já decidiste?

Pois foi assim mesmo, tal como determinaste. Uma resolução muito acertada.

Contar mais, para quê? O que se passou dentro do estábulo nem se descreve. Tudo muito rápido.

Está, agora, um cão a ganir às estrelas:

- Caim! Caim! Boi ruim!

Caim! Caim!

Porque será?

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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