9 de Outubro
As Duas Pombas
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Duas pombas encontraram-se em cima do mesmo telhado. Vinha cada uma da sua banda e não se conheciam.
As duas pombas não eram exactamente iguais. Uma usava penteado na cauda, em feitio de leque, ao passo que a outra não usava nenhum enfeite.
Dizia a pomba de leque:
– Nunca a vi por estes sítios.
– Não sou daqui. Venho de muito longe – respondeu a outra pomba.
– Do outro lado do rio, naturalmente? – perguntou a pomba do leque, que era curiosa.
– De mais longe ainda, de muito mais… Do cabo do mundo! Voei tanto…
– Eu calculo! – comentou a pomba do leque.
Calcular, não calculava, mas não queria fazer má figura.
Que sabia ela do mundo? Pouco. Nunca passara daquele largo, com uma estátua no meio. Era o que a pomba sabia e muito por alto.
Entretida com os seus pensamentos, a pomba quase se esqueceu da companheira. Foi preciso que esta agitasse as asas, a modos que a preparar-se para a viagem.
– Não me diga que quer ir-se embora? E para onde, se está tanto frio, lá no alto, e as nuvens tão carregadas? – perguntava a pomba citadina.
– Tenho de ir. Talvez gostasse de ficar, mas…
– Ora pois! Fique mesmo. O homem do cesto está aí não tarda e a minha nova amiga vai provar também – anunciava a pomba de leque.
De cabecinha à banda, num sobressalto, a pombinha viageira perguntou:
– Que homem do cesto?
Tranquilizou-a a companheira:
– Nós todas, que vivemos no largo, chamamos assim a um senhor que vem todos os dias fazer-nos uma visita e trazer-nos prendas: milho, migalhinhas de bolos, sêmeas, grãozinhos de trigo, um regalo… A minha amiga vai provar e, depois, me dirá.
– Não posso. Tenho de ir - assegurava, muito firme, a pombinha.
– Uma misteriosa me saiu a minha amiga. Qual é a pressa? – perguntou a pomba de leque, também de cabeça ao lado.
Em resposta, a pomba viajante levantou uma patinha e mostrou uma anilha larga, de alumínio. Espantou-se a pomba de leque:
– Como? Será que a minha amiga leva aí uma mensagem? Então é um pombo-correio, aliás, uma pomba-correio. Que engraçado.
A pomba de pombal confirmou. Levava, preso à pata, um recado, uma mensagem ou uma carta de alguém para alguém. E como a pomba da cidade se mostrasse muito interessada em saber mais pormenores, ela contou-lhe os tratos todos da vida de um pombo-correio:
– Vão buscar-nos ao pombal e metem-nos numa caixa com buraquinhos. Ali dentro, passamos dias e dias a viajar. Vamos de comboio? De avião? De automóvel? Não sabemos. Deixam-nos noutro pombal e, quando precisam de nós, enrolam uma mensagem, que metem dentro desta cápsula, presa à anilha, e largam-nos. Voamos entontecidas, procuramos a direcção de volta a casa e orientamo-nos, o que nem sempre é fácil.
– Que trabalho fatigante! – comentou a pomba de leque. – Deixe-se dessa vida. A minha amiga dá muita importância a um papelinho, onde devem estar escritos uns gatafunhos sem interesse. Fique na nossa companhia e, daqui a dias, nem se lembra do caminho para o seu pombal.
Asas apressadas voaram por cima das duas pombas.
– Olhe: o homem do cesto já chegou ao largo – exclamou a pomba de leque, muito agitada. – Venha atrás de mim, que os petiscos estão à nossa espera. Venha. Não seja tola.
– Não posso - respondeu-lhe a pomba sem leque. – Tenho de continuar a minha viagem. Não posso.
As duas pombas abriram as asas ao mesmo tempo e voaram, mas foi cada uma para o seu lado.
FIM
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
Duas pombas encontraram-se em cima do mesmo telhado. Vinha cada uma da sua banda e não se conheciam.
As duas pombas não eram exactamente iguais. Uma usava penteado na cauda, em feitio de leque, ao passo que a outra não usava nenhum enfeite.
Dizia a pomba de leque:
– Nunca a vi por estes sítios.
– Não sou daqui. Venho de muito longe – respondeu a outra pomba.
– Do outro lado do rio, naturalmente? – perguntou a pomba do leque, que era curiosa.
– De mais longe ainda, de muito mais… Do cabo do mundo! Voei tanto…
– Eu calculo! – comentou a pomba do leque.
Calcular, não calculava, mas não queria fazer má figura.
Que sabia ela do mundo? Pouco. Nunca passara daquele largo, com uma estátua no meio. Era o que a pomba sabia e muito por alto.
Entretida com os seus pensamentos, a pomba quase se esqueceu da companheira. Foi preciso que esta agitasse as asas, a modos que a preparar-se para a viagem.
– Não me diga que quer ir-se embora? E para onde, se está tanto frio, lá no alto, e as nuvens tão carregadas? – perguntava a pomba citadina.
– Tenho de ir. Talvez gostasse de ficar, mas…
– Ora pois! Fique mesmo. O homem do cesto está aí não tarda e a minha nova amiga vai provar também – anunciava a pomba de leque.
De cabecinha à banda, num sobressalto, a pombinha viageira perguntou:
– Que homem do cesto?
Tranquilizou-a a companheira:
– Nós todas, que vivemos no largo, chamamos assim a um senhor que vem todos os dias fazer-nos uma visita e trazer-nos prendas: milho, migalhinhas de bolos, sêmeas, grãozinhos de trigo, um regalo… A minha amiga vai provar e, depois, me dirá.
– Não posso. Tenho de ir - assegurava, muito firme, a pombinha.
– Uma misteriosa me saiu a minha amiga. Qual é a pressa? – perguntou a pomba de leque, também de cabeça ao lado.
Em resposta, a pomba viajante levantou uma patinha e mostrou uma anilha larga, de alumínio. Espantou-se a pomba de leque:
– Como? Será que a minha amiga leva aí uma mensagem? Então é um pombo-correio, aliás, uma pomba-correio. Que engraçado.
A pomba de pombal confirmou. Levava, preso à pata, um recado, uma mensagem ou uma carta de alguém para alguém. E como a pomba da cidade se mostrasse muito interessada em saber mais pormenores, ela contou-lhe os tratos todos da vida de um pombo-correio:
– Vão buscar-nos ao pombal e metem-nos numa caixa com buraquinhos. Ali dentro, passamos dias e dias a viajar. Vamos de comboio? De avião? De automóvel? Não sabemos. Deixam-nos noutro pombal e, quando precisam de nós, enrolam uma mensagem, que metem dentro desta cápsula, presa à anilha, e largam-nos. Voamos entontecidas, procuramos a direcção de volta a casa e orientamo-nos, o que nem sempre é fácil.
– Que trabalho fatigante! – comentou a pomba de leque. – Deixe-se dessa vida. A minha amiga dá muita importância a um papelinho, onde devem estar escritos uns gatafunhos sem interesse. Fique na nossa companhia e, daqui a dias, nem se lembra do caminho para o seu pombal.
Asas apressadas voaram por cima das duas pombas.
– Olhe: o homem do cesto já chegou ao largo – exclamou a pomba de leque, muito agitada. – Venha atrás de mim, que os petiscos estão à nossa espera. Venha. Não seja tola.
– Não posso - respondeu-lhe a pomba sem leque. – Tenho de continuar a minha viagem. Não posso.
As duas pombas abriram as asas ao mesmo tempo e voaram, mas foi cada uma para o seu lado.
FIM
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