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Ilustração de abertura da história «O Sultão Bonacheirão».

5 de Outubro

O Sultão Bonacheirão

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Era um sultão bonacheirão.

Sentado em almofadas, bem instalado, de pernas cruzadas, o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham ministros falar-lhe das arcas dos tesouros do reino quase vazias, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham generais falar-lhe da iminência de guerras desastrosas, de inimigos do reino que rondavam as fronteiras, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham mensageiros falar-lhe de desastres sem fim: secas nas províncias ocidentais, avalanches nas províncias orientais, bandos de salteadores desenfreados nas províncias da montanha, inundações, naufrágios, miséria na província litoral, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Tanto sorria e tanto calava que os ministros, os generais e os mensageiros desistiram de lhe falar.

Um por um, foram abandonando o palácio do sultão, e com eles saíram os cortesãos, os guardas e os criados.

Ficou o sultão sozinho, sentado em almofadas, de pernas cruzadas, sorrindo, sorrindo sempre.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Mas a certa altura, o sultão bonacheirão sentiu uma comichão na mão. Eram duas formigas.

Dizia uma para a outra:

- Estou desconfiada que somos as últimas.

- As aranhas já fecharam com as suas teias as portas do palácio. As portas e as janelas - dizia a outra.

- Despachemo-nos, despachemo-nos - diziam as duas, enquanto atravessavam a mão do sultão, desciam pelas almofadas e corriam pelo chão...

O sultão deixou de sorrir.

- Esperem por mim - balbuciou, levantando-se a custo.

Foi atrás das formigas e enfiou por um subterrâneo do palácio, onde se enfarruscou todo, a ponto de, uma vez cá fora, ninguém o reconhecer como sultão.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Havia grande agitação na praça, diante do palácio.

- O príncipe Aldi tomou sobre si o governo do reino. É um príncipe bom e corajoso. Vai dar um bom sultão - informou um homem, passando pelo sultão bonacheirão, que não sorria.

- O antigo sultão era um paspalhão. Não prestava para nada, não sabia governar - disse outro homem, passando pelo sultão, que não sorria. - A estas horas ainda deve estar no palácio, de pernas cruzadas sobre uma montanha de almofadas. Sultão paspalhão! Vamos lá nós e cai tudo ao chão.

- Vamos! Vamos! - gritaram várias vozes.

Desta vez o sultão bonacheirão, vendo-os ir em direcção ao palácio, ouvi-os, sorriu e calou-se.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Escapou-se.

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para O Sultão Bonacheirão
Ilustração original recuperada

Era um sultão bonacheirão.

Sentado em almofadas, bem instalado, de pernas cruzadas, o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham ministros falar-lhe das arcas dos tesouros do reino quase vazias, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham generais falar-lhe da iminência de guerras desastrosas, de inimigos do reino que rondavam as fronteiras, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Vinham mensageiros falar-lhe de desastres sem fim: secas nas províncias ocidentais, avalanches nas províncias orientais, bandos de salteadores desenfreados nas províncias da montanha, inundações, naufrágios, miséria na província litoral, e o sultão bonacheirão ouvia, sorria e calava.

Tanto sorria e tanto calava que os ministros, os generais e os mensageiros desistiram de lhe falar.

Um por um, foram abandonando o palácio do sultão, e com eles saíram os cortesãos, os guardas e os criados.

Ficou o sultão sozinho, sentado em almofadas, de pernas cruzadas, sorrindo, sorrindo sempre.

Mas a certa altura, o sultão bonacheirão sentiu uma comichão na mão. Eram duas formigas.

Dizia uma para a outra:

- Estou desconfiada que somos as últimas.

- As aranhas já fecharam com as suas teias as portas do palácio. As portas e as janelas - dizia a outra.

- Despachemo-nos, despachemo-nos - diziam as duas, enquanto atravessavam a mão do sultão, desciam pelas almofadas e corriam pelo chão...

O sultão deixou de sorrir.

- Esperem por mim - balbuciou, levantando-se a custo.

Foi atrás das formigas e enfiou por um subterrâneo do palácio, onde se enfarruscou todo, a ponto de, uma vez cá fora, ninguém o reconhecer como sultão.

Havia grande agitação na praça, diante do palácio.

- O príncipe Aldi tomou sobre si o governo do reino. É um príncipe bom e corajoso. Vai dar um bom sultão - informou um homem, passando pelo sultão bonacheirão, que não sorria.

- O antigo sultão era um paspalhão. Não prestava para nada, não sabia governar - disse outro homem, passando pelo sultão, que não sorria. - A estas horas ainda deve estar no palácio, de pernas cruzadas sobre uma montanha de almofadas. Sultão paspalhão! Vamos lá nós e cai tudo ao chão.

- Vamos! Vamos! - gritaram várias vozes.

Desta vez o sultão bonacheirão, vendo-os ir em direcção ao palácio, ouvi-os, sorriu e calou-se.

Escapou-se.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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