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Ilustração de abertura da história «A caixa de música da avó Clarisse».

9 de Setembro

A caixa de música da avó Clarisse

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

A merenda decorreu alegremente. Houve bolos, bolinhos e bolachas, compota de cereja e de alperce e leite com chocolate para os netos e chá com leite para a avó. O aparecimento da lata com os bolinhos secos, feitos pela Dona Clarisse, foi recebido com palmas e vivas.

- Meninos, tenham compostura - mandava a Dona Clarisse, numa voz com mais açúcar que todos os bolos juntos.

O Mário, que era o mais despachado, lembrou-se de qualquer coisa que queria saber e perguntou logo:

- Ó avó, para que serve aquela caixa de madeira toda pintada com flores e enfeites que tem um rolo dentro, cheio de dentinhos?

- É uma caixa de música, meu neto.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Tocava lindamente um minuete chamado... chamado... "A dama vestida de azul", exactamente! Dávamos-lhe corda e ele tocava muito ao de leve... Assim: tlim, tlim, tlim... Já não consigo recordar.

Estava quase triste a Dona Clarisse.

Para afastar do rosto da avó aquele ténue véu de tristeza, o Rodrigo perguntou:

- Como é que a caixa de música deixou de trabalhar?

- Escangalhou-se - respondeu ela. - Escangalhei-a eu, quando era garota. Quis saber como é que trabalhava por dentro. Desmontei-a e nunca mais ninguém conseguiu pô-la a funcionar.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Um dos netos anunciou:

- Mas temos aqui o Mané que arranja. O Mané arranja tudo.

Era o irmão mais novo, o "engenheiro" da família. Consertava relógios de sala, fechaduras, estores, autoclismos, transístores e outras coisas sem conserto.

Encadernava livros e reparava cadeiras, ditas de palhinha, mas sem palhinhas. Até parece que estou a fazer propaganda do Mané, de que ele, aliás, não precisa. É um rapaz tranquilo, de silêncios pensativos e de modos arrumados. E muito modesto.

Pois foi assim que o Mané, ajudado pelo Rodrigo e pelo Miguel, se pôs a trabalhar na caixa de música, que tinha teias de aranha mais espessas que tecido.

Demoraram à volta da caixa o resto do dia. Voltaram no dia seguinte e nem quiseram lanchar. A tarefa era absorvente.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

A avó não quis interrompê-los e voltou à sua renda, sentada no cadeirão do quarto. Estava a dormitar, quando eles apareceram, carregando a caixa de música que poisaram numa mesinha.

- Oiça, avó - disse o Mané triunfante, enquanto, dava corda.

Ela ouviu.

Ela, menina na cadeira de baloiço e as mãos de fada a tilintarem um minuete breve, leve, suave, que vem, saltita, saltita, foge, volta, nuvem azul, flor de repente desprendida da haste, pétalas ao vento, e outra vez o minuete, varinhas de condão muito finas, com estrelas na ponta, mãozinhas ágeis batendo o compasso, um sopro, uma brisa, carícias e...

pronto, acabou-se!

- Então, avó, gostou? O Mané é um ás, não acha? - perguntava, entusiasmado, o Miguel.

Os outros netos estavam calados e ele calou-se também. Dos olhos da avó fugiu uma lágrima, que os lábios, entreabertos num longo sorriso, a si chamaram.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para A caixa de música da avó Clarisse
Ilustração original recuperada

A merenda decorreu alegremente. Houve bolos, bolinhos e bolachas, compota de cereja e de alperce e leite com chocolate para os netos e chá com leite para a avó. O aparecimento da lata com os bolinhos secos, feitos pela Dona Clarisse, foi recebido com palmas e vivas.

- Meninos, tenham compostura - mandava a Dona Clarisse, numa voz com mais açúcar que todos os bolos juntos.

O Mário, que era o mais despachado, lembrou-se de qualquer coisa que queria saber e perguntou logo:

- Ó avó, para que serve aquela caixa de madeira toda pintada com flores e enfeites que tem um rolo dentro, cheio de dentinhos?

- É uma caixa de música, meu neto.

Tocava lindamente um minuete chamado... chamado... "A dama vestida de azul", exactamente! Dávamos-lhe corda e ele tocava muito ao de leve... Assim: tlim, tlim, tlim... Já não consigo recordar.

Estava quase triste a Dona Clarisse.

Para afastar do rosto da avó aquele ténue véu de tristeza, o Rodrigo perguntou:

- Como é que a caixa de música deixou de trabalhar?

- Escangalhou-se - respondeu ela. - Escangalhei-a eu, quando era garota. Quis saber como é que trabalhava por dentro. Desmontei-a e nunca mais ninguém conseguiu pô-la a funcionar.

Um dos netos anunciou:

- Mas temos aqui o Mané que arranja. O Mané arranja tudo.

Era o irmão mais novo, o "engenheiro" da família. Consertava relógios de sala, fechaduras, estores, autoclismos, transístores e outras coisas sem conserto.

Encadernava livros e reparava cadeiras, ditas de palhinha, mas sem palhinhas. Até parece que estou a fazer propaganda do Mané, de que ele, aliás, não precisa. É um rapaz tranquilo, de silêncios pensativos e de modos arrumados. E muito modesto.

Pois foi assim que o Mané, ajudado pelo Rodrigo e pelo Miguel, se pôs a trabalhar na caixa de música, que tinha teias de aranha mais espessas que tecido.

Demoraram à volta da caixa o resto do dia. Voltaram no dia seguinte e nem quiseram lanchar. A tarefa era absorvente.

A avó não quis interrompê-los e voltou à sua renda, sentada no cadeirão do quarto. Estava a dormitar, quando eles apareceram, carregando a caixa de música que poisaram numa mesinha.

- Oiça, avó - disse o Mané triunfante, enquanto, dava corda.

Ela ouviu.

Ela, menina na cadeira de baloiço e as mãos de fada a tilintarem um minuete breve, leve, suave, que vem, saltita, saltita, foge, volta, nuvem azul, flor de repente desprendida da haste, pétalas ao vento, e outra vez o minuete, varinhas de condão muito finas, com estrelas na ponta, mãozinhas ágeis batendo o compasso, um sopro, uma brisa, carícias e...

pronto, acabou-se!

- Então, avó, gostou? O Mané é um ás, não acha? - perguntava, entusiasmado, o Miguel.

Os outros netos estavam calados e ele calou-se também. Dos olhos da avó fugiu uma lágrima, que os lábios, entreabertos num longo sorriso, a si chamaram.

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