7 de Setembro
O circo acabou mais cedo
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
No circo maravilhas, uma maravilha de circo, "a maravilha das maravilhas", como anunciava, no início de cada novo espectáculo, o seu director artístico, no Circo Maravilhas, dizíamos, são, no momento em que esta história começa, sete horas da tarde.
Sabemos que são sete horas da tarde porque o director do Circo Maravilhas acordou agora mesmo da sua prolongada sesta. O senhor Estrelinhas é sempre pontual no acordar. Ele bem sabe que são sete horas, mais segundo, menos segundo.
Precisamente para saber os segundos, o senhor Estrelinha puxa, com todo o vagar, do relógio de bolso, um formosíssimo relógio de ouro, orgulho e ornato, há mais de cem anos, da família Estrelinhas.
- Foi o meu pai, o célebre director da companhia circense Estrelinhas & Estrelinhas, quem mo deu - costuma contar o senhor Estrelinhas Filho.
Vai puxando a corrente, que também é de ouro, vai puxando devagarinho, e, de súbito, a corrente acaba, sem trazer nenhum relógio atrás.
- Desapareceu o meu relógio! O meu relógio sumiu-se! Desapareceu... - grita o senhor Estrelinhas, saindo para o terreiro defronte do Circo Maravilhas.
Aos gritos do director acorda o circo e anima-se a história.
Saem das suas "roulottes" o homem das forças e a mulher Labareda, também mulher do homem das forças, os malabaristas Maldonados, a domadora Dona Arábida e o domador Cola-tudo, a bailarina Cinturinha e o lutador Cinturão, os trapezistas Baptistas, os palhaços Baratinha, Barata & senhor Tomé e muito, muito mais gente.
Se fosse apresentá-los um por um, era todo o cartaz da companhia, lido de trás para diante.
Juntaram-se à roda do director e perguntaram em coro, ainda ensonados:
- O que é que foi?
- Perdi o relógio de ouro - gritava-lhes o senhor Estrelinhas, de braços abertos e olhos fechados.
- Alguém o roubou - disse um dos mais ensonados.
Fez-se um grande silêncio, como se estivesse algum trapezista à beira do salto mortal. O senhor Estrelinhas, então, abriu os olhos e disse, muito zangado:
- Alguém roubou? Isso nunca.
Nesta companhia, temos equilibristas, trapezistas, malabaristas, contorcionistas, antipodistas, mas não temos larapistas, isto é, larápios, rapinantes, ratoneiros, corsários, gatunos, bargantes, bandoleiros... Entendido?
À volta concordaram.
- Então foi bicho - lembrou uma voz.
- Talvez os macacos - alvitrou um dos Maldonados, que não gostava de macacos.
Opôs-se à dúvida a Dona Arábica, dona dos macacos:
- Alto lá, que os meus macacos são sérios.
Toda a gente se riu.
- Talvez fosse o avestruz - sugeriu o Baptista trapezista mais novo.
- Lembra-se o senhor director de que o bicho, uma vez, foi ao seu escritório e engoliu o tinteiro, a caneta de tinta permanente e o mata-borrão?
- O mata-borrão era o guardanapo - riu-se o palhaço Baratinha.
Foi ele o único a rir, porque os outros tinham ido encostar o ouvido ao estômago do avestruz.
Não conseguiram ouvir nenhum "tique-taque". Falsa pista.
- Procurem na bolsa do canguru - exclamou a bailarina Cinturinha, num pressentimento.
Foram a correr procurar à bolsa do canguru, mas só lá encontraram um carimbo, os óculos de sol da bailarina Cinturinha, uma lata de conservas vazia e alguns bilhetes amachucados.
Quanto ao relógio, nada.
Só se desfez o mistério a meio do número de Dom Fuas, ilusionista, de gestos de seda e monóculo faiscante. No preciso, precioso momento em que D. Fuas, de um baú há pouco vazio, desocupado, fazia sair o urso Osvaldo, a esfregar as patas uma na outra, a modos que a pedir palmas, calculem a surpresa.
É que, desta vez, o urso Osvaldo trazia um formoso relógio de bolso, entalado num olho. Caiu, da surpresa, o monóculo ao Dom Fuas e o urso Osvaldo, vaidoso, continuou a pedir palmas.
- É o relógio do director! - gritaram vários artistas.
Nessa noite, o espectáculo acabou mais cedo.
António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.
No circo maravilhas, uma maravilha de circo, "a maravilha das maravilhas", como anunciava, no início de cada novo espectáculo, o seu director artístico, no Circo Maravilhas, dizíamos, são, no momento em que esta história começa, sete horas da tarde.
Sabemos que são sete horas da tarde porque o director do Circo Maravilhas acordou agora mesmo da sua prolongada sesta. O senhor Estrelinhas é sempre pontual no acordar. Ele bem sabe que são sete horas, mais segundo, menos segundo.
Precisamente para saber os segundos, o senhor Estrelinha puxa, com todo o vagar, do relógio de bolso, um formosíssimo relógio de ouro, orgulho e ornato, há mais de cem anos, da família Estrelinhas.
- Foi o meu pai, o célebre director da companhia circense Estrelinhas & Estrelinhas, quem mo deu - costuma contar o senhor Estrelinhas Filho.
Vai puxando a corrente, que também é de ouro, vai puxando devagarinho, e, de súbito, a corrente acaba, sem trazer nenhum relógio atrás.
- Desapareceu o meu relógio! O meu relógio sumiu-se! Desapareceu... - grita o senhor Estrelinhas, saindo para o terreiro defronte do Circo Maravilhas.
Aos gritos do director acorda o circo e anima-se a história.
Saem das suas "roulottes" o homem das forças e a mulher Labareda, também mulher do homem das forças, os malabaristas Maldonados, a domadora Dona Arábida e o domador Cola-tudo, a bailarina Cinturinha e o lutador Cinturão, os trapezistas Baptistas, os palhaços Baratinha, Barata & senhor Tomé e muito, muito mais gente.
Se fosse apresentá-los um por um, era todo o cartaz da companhia, lido de trás para diante.
Juntaram-se à roda do director e perguntaram em coro, ainda ensonados:
- O que é que foi?
- Perdi o relógio de ouro - gritava-lhes o senhor Estrelinhas, de braços abertos e olhos fechados.
- Alguém o roubou - disse um dos mais ensonados.
Fez-se um grande silêncio, como se estivesse algum trapezista à beira do salto mortal. O senhor Estrelinhas, então, abriu os olhos e disse, muito zangado:
- Alguém roubou? Isso nunca.
Nesta companhia, temos equilibristas, trapezistas, malabaristas, contorcionistas, antipodistas, mas não temos larapistas, isto é, larápios, rapinantes, ratoneiros, corsários, gatunos, bargantes, bandoleiros... Entendido?
À volta concordaram.
- Então foi bicho - lembrou uma voz.
- Talvez os macacos - alvitrou um dos Maldonados, que não gostava de macacos.
Opôs-se à dúvida a Dona Arábica, dona dos macacos:
- Alto lá, que os meus macacos são sérios.
Toda a gente se riu.
- Talvez fosse o avestruz - sugeriu o Baptista trapezista mais novo.
- Lembra-se o senhor director de que o bicho, uma vez, foi ao seu escritório e engoliu o tinteiro, a caneta de tinta permanente e o mata-borrão?
- O mata-borrão era o guardanapo - riu-se o palhaço Baratinha.
Foi ele o único a rir, porque os outros tinham ido encostar o ouvido ao estômago do avestruz.
Não conseguiram ouvir nenhum "tique-taque". Falsa pista.
- Procurem na bolsa do canguru - exclamou a bailarina Cinturinha, num pressentimento.
Foram a correr procurar à bolsa do canguru, mas só lá encontraram um carimbo, os óculos de sol da bailarina Cinturinha, uma lata de conservas vazia e alguns bilhetes amachucados.
Quanto ao relógio, nada.
Só se desfez o mistério a meio do número de Dom Fuas, ilusionista, de gestos de seda e monóculo faiscante. No preciso, precioso momento em que D. Fuas, de um baú há pouco vazio, desocupado, fazia sair o urso Osvaldo, a esfregar as patas uma na outra, a modos que a pedir palmas, calculem a surpresa.
É que, desta vez, o urso Osvaldo trazia um formoso relógio de bolso, entalado num olho. Caiu, da surpresa, o monóculo ao Dom Fuas e o urso Osvaldo, vaidoso, continuou a pedir palmas.
- É o relógio do director! - gritaram vários artistas.
Nessa noite, o espectáculo acabou mais cedo.
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