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Ilustração de abertura da história «Duas histórias».

5 de Setembro

Duas histórias

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Eu estava na esplanada da praia a escrever uma história. Nada de especial. Era uma história que metia uma boneca, uma mona feita de trapos, com quem já ninguém brincava.

Esquecida a um canto de uma casa há muito desabitada, a mona devia ter saudades do tempo em que era acarinhada por uma menina, a sua dona de outrora. Há quanto tempo...

A menina devia ser, agora, uma velhinha.

Nem a boneca conseguia sequer recordar-se do rosto dessa menina. Nunca mais tinham sabido uma da outra.

A verdade é que estava só. Vontade de brincar não lhe faltava, mas com quem?

Neste ponto da minha história, eu hesitei. Pedi outro café ao criado e olhei em volta.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Na praia, muitos banhistas, mas na esplanada só eu e, numa mesa perto, uma jovem senhora a tricotar.

Foi então que me surgiu uma ideia para continuar a minha história. Pus-me logo a escrever.

A boneca solitária, feita de trapos, decidiu fabricar uma boneca igual a ela. Com que materiais?

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Com os seus próprios trapos. Ficaria mais magra, mais pequena, mas juntaria a ela uma companheira.

Por sinal que, na casa desabitada, uma máquina de costura meio ferrugenta, mas ainda prestimosa, ofereceu os seus serviços.

- Mãos à obra - exclamou a boneca de trapos, entusiasmada.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Descoseu-se, esventrou-se, cortou, coseu, encheu e uma bonequinha parecida com ela começou a ganhar forma. Era um mona trangalhadanças, mas ia ser uma óptima companheira.

A bonequinha ganhou forma, ganhou vida e eu estava quase no fim da minha história.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Imaginei as duas bonecas a brincar uma com a outra, na tal casa desabitada, afinal habitada pela alegria.

Era uma história simples. Histórias destas não custam nada e sabem bem, como um café com açúcar, bebido numa esplanada da praia.

Na mesa perto da minha, a jovem senhora que tricotava também tinha completado a sua tarefa. Era um casaquinho de bebé.

A jovem senhora apreciou, ternamente, a sua obra. Pareceu-me até que sorriu para o casaquinho.

Não sei se já disse que a senhora ostentava um evidente volume de corpo de quem espera bebé, para breve...

E aqui têm como, numa só história, cabem duas histórias. Ou muitas...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Cristina Malaquias ilustrou.

Ilustração original recuperada para Duas histórias
Ilustração original recuperada

Eu estava na esplanada da praia a escrever uma história. Nada de especial. Era uma história que metia uma boneca, uma mona feita de trapos, com quem já ninguém brincava.

Esquecida a um canto de uma casa há muito desabitada, a mona devia ter saudades do tempo em que era acarinhada por uma menina, a sua dona de outrora. Há quanto tempo...

A menina devia ser, agora, uma velhinha.

Nem a boneca conseguia sequer recordar-se do rosto dessa menina. Nunca mais tinham sabido uma da outra.

A verdade é que estava só. Vontade de brincar não lhe faltava, mas com quem?

Neste ponto da minha história, eu hesitei. Pedi outro café ao criado e olhei em volta.

Na praia, muitos banhistas, mas na esplanada só eu e, numa mesa perto, uma jovem senhora a tricotar.

Foi então que me surgiu uma ideia para continuar a minha história. Pus-me logo a escrever.

A boneca solitária, feita de trapos, decidiu fabricar uma boneca igual a ela. Com que materiais?

Com os seus próprios trapos. Ficaria mais magra, mais pequena, mas juntaria a ela uma companheira.

Por sinal que, na casa desabitada, uma máquina de costura meio ferrugenta, mas ainda prestimosa, ofereceu os seus serviços.

- Mãos à obra - exclamou a boneca de trapos, entusiasmada.

Descoseu-se, esventrou-se, cortou, coseu, encheu e uma bonequinha parecida com ela começou a ganhar forma. Era um mona trangalhadanças, mas ia ser uma óptima companheira.

A bonequinha ganhou forma, ganhou vida e eu estava quase no fim da minha história.

Imaginei as duas bonecas a brincar uma com a outra, na tal casa desabitada, afinal habitada pela alegria.

Era uma história simples. Histórias destas não custam nada e sabem bem, como um café com açúcar, bebido numa esplanada da praia.

Na mesa perto da minha, a jovem senhora que tricotava também tinha completado a sua tarefa. Era um casaquinho de bebé.

A jovem senhora apreciou, ternamente, a sua obra. Pareceu-me até que sorriu para o casaquinho.

Não sei se já disse que a senhora ostentava um evidente volume de corpo de quem espera bebé, para breve...

E aqui têm como, numa só história, cabem duas histórias. Ou muitas...

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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