27 de Agosto
O Rato o Fugitivo
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Era um fugitivo. A coberto da noite, escapara-se da prisão, uma torre alta, rodeada por um muro mais alto ainda, e correra descalço, sobre cascalho e pedras soltas que não serviam de caminho senão a cabras de cascos duros.
Descia a montanha, coroada pela tal prisão. Olhando para trás, deixara de ver a silhueta assustadora das muralhas, tão escuras como a noite, o que era bom sinal. Sinal de que se distanciava cada vez mais dos soldados, que o perseguiriam, quando na manhã seguinte dessem com a cela vazia e uma corda pendurada das grades serradas.
O pior era depois. Os soldados montariam em cavalos, que galopariam desenfreadamente até apanhá-lo. Pois era.
Mas aquele bocadinho de liberdade já ninguém lhe tirava. A respiração da noite, o cantar trémulo dos grilos, o faiscar dos pirilampos, o balido dos cabritos nos cortelhos e o céu imenso, coalhado de estrelas, valiam tudo, todos os riscos e até a desilusão de ser de novo feito prisioneiro e reconduzido à cela das suas angústias e revolta.
Sim, porque o homem estava preso injustamente. Invejas, intrigas tinham posto o rei do mal com ele, a ponto de lhe dar de morada, para o resto da vida, a torre, de que o muro cinzento à volta retirava toda a vista do mundo. Naquele tempo, rei que pusesse a mão sobre um dos pratos da balança da justiça valia mais do que todos os tribunais juntos.
Levantava-se a primeira claridade da madrugada. O fugitivo que descera a montanha aos tombos, de pés a sangrar, chegara à planície. E agora?
Estava na estrada de areia. Ah, tivesse ele um cavalo que, seguramente, se escaparia dos seus perseguidores. Mas onde descobri-lo? E com que dinheiro comprá-lo, se tinha os bolsos em farrapos como o resto da roupa que o cobria? Só Deus ou um anjo por ele podiam salvá-lo.
Numa curva da estrada que a luz do céu, a inundar-se de lilás, desenhava como a indecisa aguarela de uma nuvem, o homem viu uma vedação e, atrás da vedação, cavalos a pastar. Eram brancos, de longas crinas.
Para lá dos cavalos serenos, um ferrador, num telheiro, ateava o forno, de fole em punho. Apesar do fugitivo o ver de longe, percebeu-lhe, por trás das barbas tão brancas como as crinas dos cavalos, um sorriso feliz de quem vai começar o dia com gosto, até, talvez, com uma boa acção...
– Quer um cavalo para a viagem? – perguntou o velho das barbas brancas ao homem que muito penara já na prisão.
– Não tenho com que pagar-lhe – respondeu o pobre esfarrapado, numa voz de queixume.
– Paga depois – disse-lhe o ferrador, sorrindo, e fez um gesto de desimportamento, um gesto largo, tão rasgado e generoso que abrangia o espaço em redor e tudo o mais que a vista alcançava até ao horizonte ou à transparência azul do céu, para lá da finitude do tempo.
Depois acrescentou:
– Vou ferrar-lhe um destes cavalos, mas de um modo que eu cá sei...
Era um homem de mistérios. O fugitivo acolheu-se aos seus desígnios porque sentiu, no aperto do seu coração, que mais ninguém senão aquele homem de gestos suaves podia salvá-lo.
A manhã abria-se, empolgante. Lá, na prisão, já teriam dado pela fuga, já os soldados lançariam o alarme, já se aprestavam para persegui-lo.
O velho das barbas brancas ferrou um cavalo. O fugitivo montou-o. Ia para agradecer, mas o velho interrompeu-lhe as palavras e mandou-o seguir. Depois, ficou, à beira da vedação, a ver o cavalo fogoso a afastar-se, numa nuvem de pó.
Inclinou-se para o chão que o cavalo tinha pisado. Na areia, as patas ferradas do cavalo imprimiam-se como se o cavalo e o cavaleiro tivessem seguido o caminho oposto. Ele, ferrador experiente e avisado, tinha pregado as ferraduras ao contrário.
Quando o tropel dos perseguidores desceu à estrada e consultou as pegadas do cavalo fugitivo foi iludido pelo sentido que indicavam as ferraduras.
– Foi por ali – apontou o capitão dos guardas.
Mas ele tinha ido por acolá. Nunca mais o apanharam.
Também o ferrador desapareceu da paisagem. Nem cavalos nem vedação nem forno. Nada. Só árvores, mato e o céu ao fundo.
António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.
Ilustração original ainda não recuperada.
Era um fugitivo. A coberto da noite, escapara-se da prisão, uma torre alta, rodeada por um muro mais alto ainda, e correra descalço, sobre cascalho e pedras soltas que não serviam de caminho senão a cabras de cascos duros.
Descia a montanha, coroada pela tal prisão. Olhando para trás, deixara de ver a silhueta assustadora das muralhas, tão escuras como a noite, o que era bom sinal. Sinal de que se distanciava cada vez mais dos soldados, que o perseguiriam, quando na manhã seguinte dessem com a cela vazia e uma corda pendurada das grades serradas.
O pior era depois. Os soldados montariam em cavalos, que galopariam desenfreadamente até apanhá-lo. Pois era.
Mas aquele bocadinho de liberdade já ninguém lhe tirava. A respiração da noite, o cantar trémulo dos grilos, o faiscar dos pirilampos, o balido dos cabritos nos cortelhos e o céu imenso, coalhado de estrelas, valiam tudo, todos os riscos e até a desilusão de ser de novo feito prisioneiro e reconduzido à cela das suas angústias e revolta.
Sim, porque o homem estava preso injustamente. Invejas, intrigas tinham posto o rei do mal com ele, a ponto de lhe dar de morada, para o resto da vida, a torre, de que o muro cinzento à volta retirava toda a vista do mundo. Naquele tempo, rei que pusesse a mão sobre um dos pratos da balança da justiça valia mais do que todos os tribunais juntos.
Levantava-se a primeira claridade da madrugada. O fugitivo que descera a montanha aos tombos, de pés a sangrar, chegara à planície. E agora?
Estava na estrada de areia. Ah, tivesse ele um cavalo que, seguramente, se escaparia dos seus perseguidores. Mas onde descobri-lo? E com que dinheiro comprá-lo, se tinha os bolsos em farrapos como o resto da roupa que o cobria? Só Deus ou um anjo por ele podiam salvá-lo.
Numa curva da estrada que a luz do céu, a inundar-se de lilás, desenhava como a indecisa aguarela de uma nuvem, o homem viu uma vedação e, atrás da vedação, cavalos a pastar. Eram brancos, de longas crinas.
Para lá dos cavalos serenos, um ferrador, num telheiro, ateava o forno, de fole em punho. Apesar do fugitivo o ver de longe, percebeu-lhe, por trás das barbas tão brancas como as crinas dos cavalos, um sorriso feliz de quem vai começar o dia com gosto, até, talvez, com uma boa acção...
– Quer um cavalo para a viagem? – perguntou o velho das barbas brancas ao homem que muito penara já na prisão.
– Não tenho com que pagar-lhe – respondeu o pobre esfarrapado, numa voz de queixume.
– Paga depois – disse-lhe o ferrador, sorrindo, e fez um gesto de desimportamento, um gesto largo, tão rasgado e generoso que abrangia o espaço em redor e tudo o mais que a vista alcançava até ao horizonte ou à transparência azul do céu, para lá da finitude do tempo.
Depois acrescentou:
– Vou ferrar-lhe um destes cavalos, mas de um modo que eu cá sei...
Era um homem de mistérios. O fugitivo acolheu-se aos seus desígnios porque sentiu, no aperto do seu coração, que mais ninguém senão aquele homem de gestos suaves podia salvá-lo.
A manhã abria-se, empolgante. Lá, na prisão, já teriam dado pela fuga, já os soldados lançariam o alarme, já se aprestavam para persegui-lo.
O velho das barbas brancas ferrou um cavalo. O fugitivo montou-o. Ia para agradecer, mas o velho interrompeu-lhe as palavras e mandou-o seguir. Depois, ficou, à beira da vedação, a ver o cavalo fogoso a afastar-se, numa nuvem de pó.
Inclinou-se para o chão que o cavalo tinha pisado. Na areia, as patas ferradas do cavalo imprimiam-se como se o cavalo e o cavaleiro tivessem seguido o caminho oposto. Ele, ferrador experiente e avisado, tinha pregado as ferraduras ao contrário.
Quando o tropel dos perseguidores desceu à estrada e consultou as pegadas do cavalo fugitivo foi iludido pelo sentido que indicavam as ferraduras.
– Foi por ali – apontou o capitão dos guardas.
Mas ele tinha ido por acolá. Nunca mais o apanharam.
Também o ferrador desapareceu da paisagem. Nem cavalos nem vedação nem forno. Nada. Só árvores, mato e o céu ao fundo.
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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Brincar
Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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