26 de Agosto
A Galinha da Dona Gertrudes
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
Aquele jornalista das perguntas, que já conhecem, foi entrevistar uma galinha, mas uma galinha especial. Propunha-se a cacarejante criatura entrar para o Guinness, o livro dos recordes. E a fazer o quê? A pôr um ovo de ouro? Não, que ideia, que vulgaridade. Essa é uma história muito antiga e já foi contada, há que tempos.
O fito dela era outro. Teimava a galinácea que seria capaz de chocar de uma só vez trinta ovos e de fazer assim nascer, sem tirar nem pôr, trinta pintainhos, trinta irmãozinhos pipilantes, cor de gema de ovo.
– Vai precisar de alguma preparação especial? – perguntou-lhe o jornalista, passando a cabeça por cima da rede do galinheiro.
– Cacracá, cacracá, cacracá – respondeu-lhe a galinha.
Queria ela dizer na dela que, estando choca, só precisava de muita paciência, porque a natureza faria o resto.
– E tem a certeza que os ovos estão todos em condições de ser chocados? – insistiu o jornalista.
Respondeu a galinha:
– Cacracá, cacracá, cacracá.
Ao que o galo da capoeira, muito senhor de si, acrescentou:
– Cocrocó, cocrocó, cocrocó.
O que ambos queriam dizer percebe-se. Estavam seguros, seguríssimos, da impecável qualidade dos ovos, dispostos para o choco.
Quem os acondicionara no ninho, que a galinha cobria, tinha sido a Dona Gertrudes, dona da galinha, do galo e do galinheiro todo, onde também estanciavam outros bicos, patas e patos, peruas e perus, como se pertencessem à mesma família.
– Em quanto está o último recorde? – quis saber o jornalista. – Consta-me que pertence a uma galinha australiana que deu à luz vinte e nove pintos, num único choco. Confirma?
– Cacracá.
A galinha confirmava. Estava bem informado o jornalista.
Foi para o jornal e escreveu a notícia com o seguinte título: "Galinha portuguesa vai derrotar galinha australiana". Era um bocado exagero ou precipitação, mas este jornalista deixava-se levar pelo entusiasmo, que nem sempre é bom conselheiro de quem redige notícias.
Lá que a galinha se esforçava ninguém duvida. Fazia-se leve e alargava as asas o mais que podia, para dar a todos os ovos calor por igual. Quando ela ia depenicar qualquer coisinha, o galo revezava-a no choco, o que não era desprimor nenhum.
Os dias iam passando. No jornal, que era diário, o jornalista ia mantendo viva a atenção dos leitores. Já entrevistara por diversas vezes a Senhora Gertrudes, o marido da Senhora Gertrudes, vizinhos da Senhora Gertrudes e até tentara obter, em primeira mão, um depoimento do peru.
– Glu, glu, glu – dissera-lhe ele, meneando a cabeça com alguma inquietação.
Não era muito optimista o peru, o que se compreende. A aproximação do Natal trazia-o muito apreensivo.
As cascas dos ovos começaram a estalar. O jornalista, avisado, trouxe fotógrafo para o grande acontecimento.
Record mundial: "Trinta pintos para uma galinha", já via ele, em grossas letras, na primeira página. "Portugal derrota Austrália, no jogo da capoeira...", assim começaria a notícia.
Afinal, não começou. Afinal, não derrotou. Ficaram empatados. Eu explico.
Os pintainhos foram nascendo, um a um, a trocar o passo, molhados e tiritantes. Mal se desembaraçavam da casca, fugiam outra vez para o calor da mãe. O pai galo, enternecido, ia-os contando:
– Cocrocó... Cocrocó... Cocrocó... Cocrocó...
O jornalista e o fotógrafo e a Senhora Gertrudes e o marido da Senhora Gertrudes e os vizinhos e as vizinhas da Senhora Gertrudes também, em coro afinado, contavam:
– ... Vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove...
– Só falta um! Só falta um! – gritava, exaltado, o jornalista, que mais parecia um locutor de um relato de futebol.
O residente do último ovo resistia. Ou fosse ele mais preguiçoso ou fosse a casca mais grossa, não havia meio. Finalmente... craque, craque, craque... partiu-se. E ouviu-se, à roda, um "Oh!" – de desapontamento geral.
Não era um pinto, o que o último ovo escondia. Era um pato, um patinho vacilante, que logo foi esconder-se e juntar-se aos seus irmãos do choco.
– Ai que troquei este ovo. Cabeça a minha! – exclamou a Senhora Gertrudes, dando uma palmada na testa.
E foi assim que esta esforçada galinha não entrou no Guinness, o livro dos recordes. Dizem-me que está a ensaiar-se para nova tentativa! Ela e o galo, como não podia deixar de ser.
António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.
Ilustração original ainda não recuperada.
Aquele jornalista das perguntas, que já conhecem, foi entrevistar uma galinha, mas uma galinha especial. Propunha-se a cacarejante criatura entrar para o Guinness, o livro dos recordes. E a fazer o quê? A pôr um ovo de ouro? Não, que ideia, que vulgaridade. Essa é uma história muito antiga e já foi contada, há que tempos.
O fito dela era outro. Teimava a galinácea que seria capaz de chocar de uma só vez trinta ovos e de fazer assim nascer, sem tirar nem pôr, trinta pintainhos, trinta irmãozinhos pipilantes, cor de gema de ovo.
– Vai precisar de alguma preparação especial? – perguntou-lhe o jornalista, passando a cabeça por cima da rede do galinheiro.
– Cacracá, cacracá, cacracá – respondeu-lhe a galinha.
Queria ela dizer na dela que, estando choca, só precisava de muita paciência, porque a natureza faria o resto.
– E tem a certeza que os ovos estão todos em condições de ser chocados? – insistiu o jornalista.
Respondeu a galinha:
– Cacracá, cacracá, cacracá.
Ao que o galo da capoeira, muito senhor de si, acrescentou:
– Cocrocó, cocrocó, cocrocó.
O que ambos queriam dizer percebe-se. Estavam seguros, seguríssimos, da impecável qualidade dos ovos, dispostos para o choco.
Quem os acondicionara no ninho, que a galinha cobria, tinha sido a Dona Gertrudes, dona da galinha, do galo e do galinheiro todo, onde também estanciavam outros bicos, patas e patos, peruas e perus, como se pertencessem à mesma família.
– Em quanto está o último recorde? – quis saber o jornalista. – Consta-me que pertence a uma galinha australiana que deu à luz vinte e nove pintos, num único choco. Confirma?
– Cacracá.
A galinha confirmava. Estava bem informado o jornalista.
Foi para o jornal e escreveu a notícia com o seguinte título: "Galinha portuguesa vai derrotar galinha australiana". Era um bocado exagero ou precipitação, mas este jornalista deixava-se levar pelo entusiasmo, que nem sempre é bom conselheiro de quem redige notícias.
Lá que a galinha se esforçava ninguém duvida. Fazia-se leve e alargava as asas o mais que podia, para dar a todos os ovos calor por igual. Quando ela ia depenicar qualquer coisinha, o galo revezava-a no choco, o que não era desprimor nenhum.
Os dias iam passando. No jornal, que era diário, o jornalista ia mantendo viva a atenção dos leitores. Já entrevistara por diversas vezes a Senhora Gertrudes, o marido da Senhora Gertrudes, vizinhos da Senhora Gertrudes e até tentara obter, em primeira mão, um depoimento do peru.
– Glu, glu, glu – dissera-lhe ele, meneando a cabeça com alguma inquietação.
Não era muito optimista o peru, o que se compreende. A aproximação do Natal trazia-o muito apreensivo.
As cascas dos ovos começaram a estalar. O jornalista, avisado, trouxe fotógrafo para o grande acontecimento.
Record mundial: "Trinta pintos para uma galinha", já via ele, em grossas letras, na primeira página. "Portugal derrota Austrália, no jogo da capoeira...", assim começaria a notícia.
Afinal, não começou. Afinal, não derrotou. Ficaram empatados. Eu explico.
Os pintainhos foram nascendo, um a um, a trocar o passo, molhados e tiritantes. Mal se desembaraçavam da casca, fugiam outra vez para o calor da mãe. O pai galo, enternecido, ia-os contando:
– Cocrocó... Cocrocó... Cocrocó... Cocrocó...
O jornalista e o fotógrafo e a Senhora Gertrudes e o marido da Senhora Gertrudes e os vizinhos e as vizinhas da Senhora Gertrudes também, em coro afinado, contavam:
– ... Vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove...
– Só falta um! Só falta um! – gritava, exaltado, o jornalista, que mais parecia um locutor de um relato de futebol.
O residente do último ovo resistia. Ou fosse ele mais preguiçoso ou fosse a casca mais grossa, não havia meio. Finalmente... craque, craque, craque... partiu-se. E ouviu-se, à roda, um "Oh!" – de desapontamento geral.
Não era um pinto, o que o último ovo escondia. Era um pato, um patinho vacilante, que logo foi esconder-se e juntar-se aos seus irmãos do choco.
– Ai que troquei este ovo. Cabeça a minha! – exclamou a Senhora Gertrudes, dando uma palmada na testa.
E foi assim que esta esforçada galinha não entrou no Guinness, o livro dos recordes. Dizem-me que está a ensaiar-se para nova tentativa! Ela e o galo, como não podia deixar de ser.
Ouvir
Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Brincar
Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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