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Ilustração de abertura da história «Um Avental Cheio».

25 de Agosto

Um Avental Cheio

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

Isto passou-se num tempo em que mouros e cristãos andavam à bulha pela mesma terra, por sinal a mesma que, mais tarde, se chamou de Portugal.

Uns de um lado, outros do outro, conquistavam vilas e aldeias, que logo a seguir tinham de abandonar, para mais depois reconquistarem, numa luta desenfreada e sem fronteiras certas. Alfanges e espadas cruzavam-se com raiva, corria sangue, perdiam-se muitas vidas.

Aconteceu que, uma vez, não sei onde, uma mulher sarracena estava para dar à luz. O marido, aflito, procurou entre as mulheres mouriscas quem a socorresse, mas nenhuma tinha experiência para tal. Falaram-lhe, no entanto, de uma parteira cristã, que vivia do outro lado da guerra.

O homem arriscou-se. A coberto da noite, evitou as sentinelas e conseguiu chegar a casa da parteira. Com muito bons modos, pediu-lhe que lhe acudisse à mulher e ao filho que estava para nascer.

– Prometo encher-te o avental de riquezas – disse ele, a convencê-la.

A parteira, ou por cobiça ou por condoimento, foi com o mouro, passando, no entanto, pelos mesmos riscos por que ele tinha passado.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Concluído o parto, sossegada a mãe com o bebé nos braços, o mouro mandou-a levantar o avental e despejou-lhe para a abada dele uma cesta cheia de carvão de lenha.

– Guarda-a até chegares a casa – avisou-a o pai do menino que ela ajudara a nascer.

A mulher sentiu-se lograda, mas temeu-se de protestar, receosa de que o mouro lhe levasse a mal. No seu íntimo, resmungava: "Então este montinho de carvões, que me sujam o aventalinho de chita, é que valem a riqueza prometida? Da próxima não torno, ai não torno não, mouro velhaco".

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Voltava para casa já de madrugada. Uns soldados cristãos, que estavam de atalaia, viram-na e mandaram-na parar, de lanças em riste:

– Se vens de terra inimiga, não vens por bem – disseram-lhe.

Ela benzeu-se diante deles e mostrou-lhes o seu leve carrego de carvões, desculpando-se:

– Sou uma pobre mulher que anda a colher gravetos de uma queimada, para conforto da casa e meu e de meu gato, que gosta de dormir ao borralho.

Deixaram-na ir. Quando chegou a casa e fechou a porta atrás dela, de coração ainda a bater de susto, ia para deitar os carvões para a lareira e viu que – olhai a surpresa! – tinha o avental cheio de barras de ouro. Até o pó de carvão se tinha transformado em ouro em pó. Afinal o mouro era um mágico e não lhe falhara a paga.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Parece que o único que não apreciou a transformação foi o gato que gostava de dormir ao calor do borralho.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

Isto passou-se num tempo em que mouros e cristãos andavam à bulha pela mesma terra, por sinal a mesma que, mais tarde, se chamou de Portugal.

Uns de um lado, outros do outro, conquistavam vilas e aldeias, que logo a seguir tinham de abandonar, para mais depois reconquistarem, numa luta desenfreada e sem fronteiras certas. Alfanges e espadas cruzavam-se com raiva, corria sangue, perdiam-se muitas vidas.

Aconteceu que, uma vez, não sei onde, uma mulher sarracena estava para dar à luz. O marido, aflito, procurou entre as mulheres mouriscas quem a socorresse, mas nenhuma tinha experiência para tal. Falaram-lhe, no entanto, de uma parteira cristã, que vivia do outro lado da guerra.

O homem arriscou-se. A coberto da noite, evitou as sentinelas e conseguiu chegar a casa da parteira. Com muito bons modos, pediu-lhe que lhe acudisse à mulher e ao filho que estava para nascer.

– Prometo encher-te o avental de riquezas – disse ele, a convencê-la.

A parteira, ou por cobiça ou por condoimento, foi com o mouro, passando, no entanto, pelos mesmos riscos por que ele tinha passado.

Concluído o parto, sossegada a mãe com o bebé nos braços, o mouro mandou-a levantar o avental e despejou-lhe para a abada dele uma cesta cheia de carvão de lenha.

– Guarda-a até chegares a casa – avisou-a o pai do menino que ela ajudara a nascer.

A mulher sentiu-se lograda, mas temeu-se de protestar, receosa de que o mouro lhe levasse a mal. No seu íntimo, resmungava: "Então este montinho de carvões, que me sujam o aventalinho de chita, é que valem a riqueza prometida? Da próxima não torno, ai não torno não, mouro velhaco".

Voltava para casa já de madrugada. Uns soldados cristãos, que estavam de atalaia, viram-na e mandaram-na parar, de lanças em riste:

– Se vens de terra inimiga, não vens por bem – disseram-lhe.

Ela benzeu-se diante deles e mostrou-lhes o seu leve carrego de carvões, desculpando-se:

– Sou uma pobre mulher que anda a colher gravetos de uma queimada, para conforto da casa e meu e de meu gato, que gosta de dormir ao borralho.

Deixaram-na ir. Quando chegou a casa e fechou a porta atrás dela, de coração ainda a bater de susto, ia para deitar os carvões para a lareira e viu que – olhai a surpresa! – tinha o avental cheio de barras de ouro. Até o pó de carvão se tinha transformado em ouro em pó. Afinal o mouro era um mágico e não lhe falhara a paga.

Parece que o único que não apreciou a transformação foi o gato que gostava de dormir ao calor do borralho.

Ouvir

Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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