24 de Agosto
Uma História do Teotónio
António Torrado escreveu.
Edição ilustrada contemporânea gerada com IA
Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.
O senhor Teotónio já correu mundo. Foi marinheiro, fragateiro, fuzileiro, montanheiro, quadrilheiro, falcoeiro, artilheiro, enfim, um grande aventureiro.
– Um grande pantomineiro! – diz o meu pai, que não acredita, nem um nadinha, nas histórias que ele conta.
Eu e os outros rapazes, cá da rua, acreditamos. Quando estamos cansados de jogar à bola, vamos bater à porta da casa dele e pedimos:
– Senhor Teotónio, conte uma história das suas.
Ele vem à janela, com cara de zangado:
– Eu não conto histórias. Tudo o que eu conto aconteceu. São episódios da minha vida.
– Então conte um episódio da sua vida – insistimos.
Danado está ele para contar. E nós para ouvi-lo. Mas finge-se desinteressado e ocupado com outros assuntos mais urgentes.
– Agora, não posso. Mais logo, quando estiver disponível...
– Agora! Agora! – gritamos em coro, num grande chinfrim, à beira da janela do senhor Teotónio.
Então ele, com cara de frete, como se fosse obrigado, conta um dos tais episódios da sua vida. Mal começa a contar, os olhos dele riem, enquanto nos fita um por um, como se estivesse a divertir-se à nossa custa. Estará? A mim não me importa, que também me divirto com as histórias dele.
– Uma vez, estava eu a trabalhar no fundo de uma mina e houve um desmoronamento. Fiquei bloqueado. Não valia a pena esperar por socorros. A verdade é que ninguém desconfiava que eu tinha cavado aquela galeria, por conta própria, fora das horas de serviço. Era uma mina de ouro.
Estremecimento geral na rapaziada. O senhor Teotónio apreciou o efeito e continuou:
– E que mina! Só naquele corredor, que eu considerava de minha propriedade, havia ouro que chegava para comprar o mundo todo e ainda sobrava. Mas conseguir levá-lo dali? Ia ficar sepultado com a minha fortuna. Uma desgraça! Uma tragédia!
Como o víamos ali, diante de nós, não nos alarmámos muito com a desgraça e a tragédia, de que ele nos falava. Queríamos era saber o resto. O senhor Teotónio prosseguiu:
– Mais uma hora e a pilha da minha lanterna dava o bafo. Ficaria mergulhado na escuridão, sem ter por onde orientar-me. Foi então que reparei numa toupeira, que saía por um buraquinho. Quanto eu dava, naquela ocasião, para ser toupeira, disse de mim para mim. "Quanto?", ouvi, distintamente, uma voz perguntar-me. Fiquei petrificado ou quase, quando percebi que era a toupeira quem falava e que estava a propor-me um negócio. Vocês podem supor-me louco ou mentiroso, mas foi assim tal e qual como vos conto. Se não acreditarem, não continuo.
O que nós queríamos era ouvir mais.
Por isso claro que acreditámos.
– Acabei por oferecer todo o ouro daquela galeria, em troca da liberdade, nem que fosse sob a forma de toupeira. Fez-se a troca e não me perguntem como. A toupeira transformou-se num homem, bastante feio, aliás, e eu passei a ter a corpulência e o feitio de uma gentil toupeira. Não me vi ao espelho, para não desistir, a meio da negociação. Ficou a toupeira-homem no subterrâneo, no meio do ouro, e escapou-se o homem-toupeira que, munido do sentido de orientação das toupeiras, sem grandes dificuldades alcançou a superfície.
– Mas o senhor Teotónio, agora, não é uma toupeira... – estranhou um de nós.
– Depois de muitas voltas, consegui negociar, de novo, a minha condição. Mas essa história fica para a próxima vez...
– Agora! Agora! – voltámos a gritar, numa ruidosa manifestação à janela do senhor Teotónio.
– Então eu conto, mas depressa, que tenho mais que fazer do que aturar-vos. Soube, por intermédio de uns morcegos, que um homem, injustamente preso, tinha tentado trocar de posição com um rato, mas que a transacção não chegara a realizar-se, porque o rato achara a quantidade de queijo insuficiente. Ofereci-me eu, sem pedir contrapartida. O que eu queria era recuperar o meu corpinho de ser humano. Dei o da toupeira ao preso e fiquei eu na prisão.
– E como é que se libertou? – perguntámos.
– Quando os carcereiros viram que eu não era o preso, estranharam a mudança, mas não quiseram dar-me a liberdade. Tive de convencê-los com uma pedrinha de ouro, que tinha conseguido meter na boca, quando da troca, na mina...
– O senhor Teotónio sempre me saiu um troca-tintas – disse, sem maldade, o mais atrevida do grupo.
O contador, reformado de tantas aventuras, não gostou da observação e fechou-nos a janela na cara. Tão cedo não vamos ter histórias do Teotónio.
António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.
Ilustração original ainda não recuperada.
O senhor Teotónio já correu mundo. Foi marinheiro, fragateiro, fuzileiro, montanheiro, quadrilheiro, falcoeiro, artilheiro, enfim, um grande aventureiro.
– Um grande pantomineiro! – diz o meu pai, que não acredita, nem um nadinha, nas histórias que ele conta.
Eu e os outros rapazes, cá da rua, acreditamos. Quando estamos cansados de jogar à bola, vamos bater à porta da casa dele e pedimos:
– Senhor Teotónio, conte uma história das suas.
Ele vem à janela, com cara de zangado:
– Eu não conto histórias. Tudo o que eu conto aconteceu. São episódios da minha vida.
– Então conte um episódio da sua vida – insistimos.
Danado está ele para contar. E nós para ouvi-lo. Mas finge-se desinteressado e ocupado com outros assuntos mais urgentes.
– Agora, não posso. Mais logo, quando estiver disponível...
– Agora! Agora! – gritamos em coro, num grande chinfrim, à beira da janela do senhor Teotónio.
Então ele, com cara de frete, como se fosse obrigado, conta um dos tais episódios da sua vida. Mal começa a contar, os olhos dele riem, enquanto nos fita um por um, como se estivesse a divertir-se à nossa custa. Estará? A mim não me importa, que também me divirto com as histórias dele.
– Uma vez, estava eu a trabalhar no fundo de uma mina e houve um desmoronamento. Fiquei bloqueado. Não valia a pena esperar por socorros. A verdade é que ninguém desconfiava que eu tinha cavado aquela galeria, por conta própria, fora das horas de serviço. Era uma mina de ouro.
Estremecimento geral na rapaziada. O senhor Teotónio apreciou o efeito e continuou:
– E que mina! Só naquele corredor, que eu considerava de minha propriedade, havia ouro que chegava para comprar o mundo todo e ainda sobrava. Mas conseguir levá-lo dali? Ia ficar sepultado com a minha fortuna. Uma desgraça! Uma tragédia!
Como o víamos ali, diante de nós, não nos alarmámos muito com a desgraça e a tragédia, de que ele nos falava. Queríamos era saber o resto. O senhor Teotónio prosseguiu:
– Mais uma hora e a pilha da minha lanterna dava o bafo. Ficaria mergulhado na escuridão, sem ter por onde orientar-me. Foi então que reparei numa toupeira, que saía por um buraquinho. Quanto eu dava, naquela ocasião, para ser toupeira, disse de mim para mim. "Quanto?", ouvi, distintamente, uma voz perguntar-me. Fiquei petrificado ou quase, quando percebi que era a toupeira quem falava e que estava a propor-me um negócio. Vocês podem supor-me louco ou mentiroso, mas foi assim tal e qual como vos conto. Se não acreditarem, não continuo.
O que nós queríamos era ouvir mais.
Por isso claro que acreditámos.
– Acabei por oferecer todo o ouro daquela galeria, em troca da liberdade, nem que fosse sob a forma de toupeira. Fez-se a troca e não me perguntem como. A toupeira transformou-se num homem, bastante feio, aliás, e eu passei a ter a corpulência e o feitio de uma gentil toupeira. Não me vi ao espelho, para não desistir, a meio da negociação. Ficou a toupeira-homem no subterrâneo, no meio do ouro, e escapou-se o homem-toupeira que, munido do sentido de orientação das toupeiras, sem grandes dificuldades alcançou a superfície.
– Mas o senhor Teotónio, agora, não é uma toupeira... – estranhou um de nós.
– Depois de muitas voltas, consegui negociar, de novo, a minha condição. Mas essa história fica para a próxima vez...
– Agora! Agora! – voltámos a gritar, numa ruidosa manifestação à janela do senhor Teotónio.
– Então eu conto, mas depressa, que tenho mais que fazer do que aturar-vos. Soube, por intermédio de uns morcegos, que um homem, injustamente preso, tinha tentado trocar de posição com um rato, mas que a transacção não chegara a realizar-se, porque o rato achara a quantidade de queijo insuficiente. Ofereci-me eu, sem pedir contrapartida. O que eu queria era recuperar o meu corpinho de ser humano. Dei o da toupeira ao preso e fiquei eu na prisão.
– E como é que se libertou? – perguntámos.
– Quando os carcereiros viram que eu não era o preso, estranharam a mudança, mas não quiseram dar-me a liberdade. Tive de convencê-los com uma pedrinha de ouro, que tinha conseguido meter na boca, quando da troca, na mina...
– O senhor Teotónio sempre me saiu um troca-tintas – disse, sem maldade, o mais atrevida do grupo.
O contador, reformado de tantas aventuras, não gostou da observação e fechou-nos a janela na cara. Tão cedo não vamos ter histórias do Teotónio.
Ouvir
Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.
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Brincar
Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.
Recuperação
Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.
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