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Ilustração de abertura da história «A Sombra do Marcolino».

23 de Agosto

A Sombra do Marcolino

António Torrado escreveu.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Ilustrações desta edição geradas com inteligência artificial.

O senhor Marcolino já tinha uma certa idade. Outros diriam que o senhor Marcolino era um velho, mas se ele, um dia, vier a ler esta história, talvez não goste de assim ser tratado. Os velhos – perdão!, as pessoas de idade – têm destes melindres. Compreensíveis.

Pois o senhor Marcolino, idoso, reformado, sozinho, resolvera-se a pôr em prática um plano que há muito vinha congeminando.

Era assim: aos primeiros arrepios de Novembro, o senhor Marcolino metia-se na cama. Bem quentinho. Só voltava a levantar-se lá para meados de Março, quando sentia que dois cobertores já eram peso de mais.

Só se levantava em Março é uma maneira de dizer. Claro que, sempre que tinha necessidade saía da cama e não descurava os seus hábitos de higiene. Também não se esquecia de comer, mas fora de horas, quando lhe dava a fome e pouco de cada vez. Uma fruta, uma sopinha ou uns petisquitos, que armazenara para o Inverno na arca frigorífica. Não se tratava mal.

– Se há bichos que hibernam, porque não hei-de eu hibernar também, que tanto trabalhei de Verão e de Inverno, enquanto tinha de trabalhar. São uma espécie de férias por junto, já que só de raro em raro, dantes, eu as tirava.

Isto explicava ele a si próprio ou à sua própria sombra, pois não tinha mais ninguém com quem conversar. Nem se ralava.

Mas ralava-se a sombra, a quem o senhor Marcolino confidenciava sempre os seus pensamentos. Ora, uma vez, a sombra pôs-se em pé diante dele e, muito enxofrada, vá de dizer-lhe:

– És um urso, um bicho do mato. Quase meio ano aqui escondido em casa, tem algum jeito? Que não queiras pôr o nariz na rua é lá contigo, mas que me obrigues a fazer-te companhia todo este tempo é uma escravidão. Uma escravidão intolerável!

– Lá fora está frio – queixava-se o senhor Marcolino.

– A mim bem me importa – repontava a sombra. – Eu procuro sempre o lado do sol. Gosto de apanhar ar, de espairecer, até de passear à noite, à luz dos candeeiros.

– Então vai passear e deixa-me em paz – arreliou-se o senhor Marcolino, farto daquela sombra pespontona.

Nem foi preciso dizer-lhe segunda vez. A sombra descolou-se do senhor Marcolino e escapuliu-se por debaixo da porta. Um solzinho de Inverno, mesmo tentador, chamava-a, da rua...

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Quando veio o mês de Março, um Março particularmente solarengo, o senhor Marcolino saiu de casa. Mas com um certo desconforto, há que dizê-lo. Sem a sombra à sua beira, sentia-se como se não estivesse completamente vestido.

Além disso, podiam reparar. Um homem sem sombra é coisa nunca vista e o senhor Marcolino não queria passar por raridade.

Viveu aquela Primevera e os meses de Verão num grande enervamento. E arrependido de ter sido brusco para com a sua sombra, a sua única sombra, que sempre o acompanhara fielmente, a vida toda.

Pôs um anúncio, no jornal:

SOMBRA VOLTA

Se me perdoares,

também estás perdoada

Mas sem grande esperança... O Verão a acabar e ele sem sombra. Pôs-se a andar ao acaso por largos e praças batidas pelo sol. Palmilhou ruas e estradas rasgadas pelo sol. Da sua sombra nem sombra.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Sentiu-se muito só. Estava ele, sentado numa duna da praia, a olhar para o mar, quando uma voz lhe interrompeu os pensamentos tristes:

– Olá, Marcolino. Afinal, velho urso, também gostas de apanhar sol.

Era ela, a sua querida sombra, alargando-se e ondulando pela areia, à luz do sol pôr. Foi uma festa o encontro.

Edição ilustrada contemporânea gerada com IA

Marcolino prometeu-lhe que, nos dias de Inverno, sempre que despontasse o sol, havia de trazê-la à rua, a passear. A sombra, por seu turno, prometeu-lhe que nunca mais o abandonaria. E, meigamente, confidenciou-lhe que, enquanto estivera afastada, sentira saudades do seu velho urso:

– Uma sombra sozinha, a roçar-se pelas paredes, a escorregar pelos tapumes, não tem jeito, não faz sentido.

Nunca mais se separaram e viveram sempre muito felizes.

António Torrado escreveu. Ilustrador original por confirmar ilustrou.

Ilustração original ainda não recuperada.

O senhor Marcolino já tinha uma certa idade. Outros diriam que o senhor Marcolino era um velho, mas se ele, um dia, vier a ler esta história, talvez não goste de assim ser tratado. Os velhos – perdão!, as pessoas de idade – têm destes melindres. Compreensíveis.

Pois o senhor Marcolino, idoso, reformado, sozinho, resolvera-se a pôr em prática um plano que há muito vinha congeminando.

Era assim: aos primeiros arrepios de Novembro, o senhor Marcolino metia-se na cama. Bem quentinho. Só voltava a levantar-se lá para meados de Março, quando sentia que dois cobertores já eram peso de mais.

Só se levantava em Março é uma maneira de dizer. Claro que, sempre que tinha necessidade saía da cama e não descurava os seus hábitos de higiene. Também não se esquecia de comer, mas fora de horas, quando lhe dava a fome e pouco de cada vez. Uma fruta, uma sopinha ou uns petisquitos, que armazenara para o Inverno na arca frigorífica. Não se tratava mal.

– Se há bichos que hibernam, porque não hei-de eu hibernar também, que tanto trabalhei de Verão e de Inverno, enquanto tinha de trabalhar. São uma espécie de férias por junto, já que só de raro em raro, dantes, eu as tirava.

Isto explicava ele a si próprio ou à sua própria sombra, pois não tinha mais ninguém com quem conversar. Nem se ralava.

Mas ralava-se a sombra, a quem o senhor Marcolino confidenciava sempre os seus pensamentos. Ora, uma vez, a sombra pôs-se em pé diante dele e, muito enxofrada, vá de dizer-lhe:

– És um urso, um bicho do mato. Quase meio ano aqui escondido em casa, tem algum jeito? Que não queiras pôr o nariz na rua é lá contigo, mas que me obrigues a fazer-te companhia todo este tempo é uma escravidão. Uma escravidão intolerável!

– Lá fora está frio – queixava-se o senhor Marcolino.

– A mim bem me importa – repontava a sombra. – Eu procuro sempre o lado do sol. Gosto de apanhar ar, de espairecer, até de passear à noite, à luz dos candeeiros.

– Então vai passear e deixa-me em paz – arreliou-se o senhor Marcolino, farto daquela sombra pespontona.

Nem foi preciso dizer-lhe segunda vez. A sombra descolou-se do senhor Marcolino e escapuliu-se por debaixo da porta. Um solzinho de Inverno, mesmo tentador, chamava-a, da rua...

Quando veio o mês de Março, um Março particularmente solarengo, o senhor Marcolino saiu de casa. Mas com um certo desconforto, há que dizê-lo. Sem a sombra à sua beira, sentia-se como se não estivesse completamente vestido.

Além disso, podiam reparar. Um homem sem sombra é coisa nunca vista e o senhor Marcolino não queria passar por raridade.

Viveu aquela Primevera e os meses de Verão num grande enervamento. E arrependido de ter sido brusco para com a sua sombra, a sua única sombra, que sempre o acompanhara fielmente, a vida toda.

Pôs um anúncio, no jornal:

SOMBRA VOLTA

Se me perdoares,

também estás perdoada

Mas sem grande esperança... O Verão a acabar e ele sem sombra. Pôs-se a andar ao acaso por largos e praças batidas pelo sol. Palmilhou ruas e estradas rasgadas pelo sol. Da sua sombra nem sombra.

Sentiu-se muito só. Estava ele, sentado numa duna da praia, a olhar para o mar, quando uma voz lhe interrompeu os pensamentos tristes:

– Olá, Marcolino. Afinal, velho urso, também gostas de apanhar sol.

Era ela, a sua querida sombra, alargando-se e ondulando pela areia, à luz do sol pôr. Foi uma festa o encontro.

Marcolino prometeu-lhe que, nos dias de Inverno, sempre que despontasse o sol, havia de trazê-la à rua, a passear. A sombra, por seu turno, prometeu-lhe que nunca mais o abandonaria. E, meigamente, confidenciou-lhe que, enquanto estivera afastada, sentira saudades do seu velho urso:

– Uma sombra sozinha, a roçar-se pelas paredes, a escorregar pelos tapumes, não tem jeito, não faz sentido.

Nunca mais se separaram e viveram sempre muito felizes.

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Narração sintetizada em pt-PT. Não é o áudio original.

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Brincar

Jogos criados a partir do texto recuperado desta história. Não faziam parte do site original.

Recuperação

Dia presente no calendário, mas sem texto HTML extraível no índice recuperado. PDF/assets ficam ligados quando existem. Texto recuperado de uma compilação mensal em PDF publicada pelo blogue da biblioteca escolar da EB 2,3 de Jovim (2019-2020), que reproduzia as histórias do site original; não provém do site arquivado. A narração disponível foi sintetizada em pt-PT a partir do texto recuperado; não é o áudio original.

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